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Um lugar chamado Meu
Depois de atravessar o centro da cidade, Alves caminhou pela
avenida à beira-mar, em direção à rodoviária na intenção de pegar o ônibus que
o levaria para onde sempre quisera ir e não pudera. Mas agora não. Estava livre
para fazer isso. Ao aproximar-se da rodoviária e vendo tanta gente, ele parou e
deu meia volta, achando que faria melhor em ir andando até aquele seu lugar.
Afinal, tinha tempo e queria saborear esse encontro.
E foi assim que atravessou novamente o centro da cidade,
enquanto distanciava-se cada vez mais do barulho. Depois de algumas horas,
chegou à estrada ao pé daquele morro que o separava do lugar para onde ia. Começou
a subir pela estrada já asfaltada e tão diferente do estreito caminho pelo qual
costumava passar. Foi então que se deu conta que muito tempo o separava
daqueles dias em que, com sua mochila e panelas dependuradas nela, ele subia
por aquele caminho esburacado e pelo qual só passavam homens com seus burros
carregados de bananas. Agora não mais era assim. Encontrava-se asfaltada e dada
sua inclinação, poucos carros ousavam atravessá-la.
Iniciada a subida e à medida que se aproximava do topo, já
sentia o cheiro do mar que se anunciava à sua frente e a praia batida por pelas
fortes ondas, próprias das praias oceânicas. Chegando ao cume ficou parado a
olhar, novamente, toda a extensão da praia que escrevia um S e lá
longe, o seu final encoberto por gotículas d’água levantadas pelas ondas que
quebravam na areia. Quatorze quilômetros de praia completamente deserta –
pensou. Em tempos passados Alves ficara ali sozinho, acampado por muitos dias à
procura de si mesmo na harmonia com aquele lugar. Não raramente, ao acordar ainda era madrugada; gaivotas sobrevoavam sua pequena barraca,
preparando-se para darem seus primeiros mergulhos à procura de seu alimento ou
apenas para se divertirem – gostava de pensar isso. E nesta hora, em que o sol
começava a sair de dentro do mar, vermelho e grandioso, pairava na atmosfera um
cheiro puro de eternidade. E enquanto isso, ele preparava seu café que, na
verdade, mais parecia um almoço, pois constava de macarrão, dois ovos, duas
fatias de pão e um copo de leite. Tudo isso feito numa fogueira transformada em
fogão e sendo envolvido por aquele ar que o penetrava. Pela areia, pequenos
insetos e alguns caranguejos exerciam sua atividade, insensíveis à sua
presença. Alves via nisso tudo a beleza e até mesmo o sentido da vida e, embora
sem ainda penetrar de forma plena em tal mundo, ele o vislumbrava de longe. Ele
sabia que tinha à sua frente aquilo que procurava, porém, por mais que se
esforçasse só podia senti-lo de longe, como Moisés vira do alto e
ao longe a terra prometida sem nela poder entrar. Isso fora há muito tempo.
Somente aos poucos, com o lento passar do tempo, é que
conseguiu não só perceber, mas também pertencer àquele lugar; a ser um com o
todo e compreender que o todo não existe sem as partes, mas que, no entanto,
não é formado por elas. O mundo só existe porque existimos nós.
Deixou-se ficar ali no alto até o final da tarde, deixando-se
bater pelo vento que lhe dava as boas-vindas e vendo o sol sumir por trás da
enorme montanha de pedra.
O sol se ia por detrás da pedra, deixando a ausência da luz
às sombras que apareciam para, na manhã seguinte, mais uma vez, darem lugar à
luz do sol.
Finalmente chegara.
Enquanto descia pela estrada, Alves ia pensando:
- Eu sou a semente, esta é a terra, este é o meu lugar.
EP.Gheramer
FIM
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