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Trovão de Curta Duração

Femme aux Bras Croisés - Pablo Picasso

Trovão de Curta Duração

Por pouco que paremos um instante, calando os nossos pensamentos próprios, e observemos – com os olhos e o coração abertos – o mundo à nossa volta, podemos descobrir imenso sobre o Ser Humano. Tentando a experiência nos transportes em comum, é fácil captar conversas inteiras, pedaços de vida dos que partilham o nosso espaço.

A experiência tentada cada dia, em várias pessoas ou grupos que conversam, leva-nos a compreender que um dos principais motores (ou será um travão?) da humanidade, talvez seja o medo.

Há medos tão diversos como há pessoas, mas geralmente todos – ou quase – temem as mesmas coisas: medo do olhar e julgamento alheio, medo de sair da nossa zona de conforto, medo de perder o que se possui – mesmo, e sobretudo, quando duvidamos de poder possuí-lo, medo de ganhar – Sim, sim! Acreditem! – medo de tentar, medo da derrota e medo de vencer... Poderíamos continuar a lista ao infinito, mas esses são comuns a quase todos nós.

E, porque compreendemos que não há forma de avançar sem se libertar dos medos, tentamos desesperadamente livrar-nos deles, como quem sacode uma poeira no casaco. Mas, como para o vestuário, a poeira fica-nos colada à alma e ao coração e é necessária uma lavagem profunda para que ela descole.

Quantas vezes o medo te visita durante o mês, a semana, o dia...? Hoje é o sexto dia e o danadinho já me fez três visitas, a última foi ainda agora quando peguei essa crônica para dar continuidade, apareceu na forma de medo de decepcionar (não ser capaz de concluir com êxito a tarefa).

O mais correto nessa hora é tentar ficar tranquilo, afastar o pensamento negativo e focar, mesmo porque com ou sem medo, a vida parece com um rio, uma hora acabará desaguando. Alguma vez você já tentou esvaziar seu reservatório de medos? Confesso que o medo que me acomete em relação aos meus filhos, esse eu não consegui, vai ver mãe é assim mesmo.

E o que falar daquele medo que, por mais que consigamos descolar, num piscar de olhos lá estão eles, atraídos como imãs, como por exemplo, o medo do assalto, da violência e isso porque somos constantemente bombardeados com notícias que nos levam a gravar essas imagens negativas e acabamos sempre ficando em estado de alerta.

A quantidade de pessoas atualmente que sofrem de ansiedade1  vem aumentando em ritmo alucinante. Conhece alguém que no dia a dia vive em constante medo exagerado em relação à saúde, ao dinheiro, ao trabalho, filhos, marido...? Sabia que ela pode estar sofrendo um distúrbio chamado (TAG)?

O transtorno da ansiedade generalizada (TAG), segundo o manual de classificação de doenças mentais (DSM.IV), é um distúrbio caracterizado pela “preocupação excessiva ou expectativa apreensiva”, persistente e de difícil controle, que perdura por seis meses no mínimo e vem acompanhado por três ou mais dos seguintes sintomas: inquietação, fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração, tensão muscular e perturbação do sono2.

O Ser Humano é, por natureza, prudente. Desde a idade das cavernas que o medo permite proteger-se dos perigos. Se durante a pré-história o medo permitia salvar vidas dos perigos da Natureza, tornou-se na época moderna uma patologia, estudada, investigada, tratada por meios químicos que tentam apaziguar a angústia por ele trazida, por terapeutas, profissionais ou amadores, atormentados, eles também, pelo medo de não conseguir ajudar quem lhes solicita uma mão estendida.

E a mídia, quase sempre mais interessada em vender do que em informar, oferece aos leitores pormenores de que ninguém precisa para compreender um evento, violências exacerbadas e, em muitos casos, quase que glorificadas, porque o angustiado leitor, ao ler e compreender que, afinal, existem pessoas bem piores, bem mais angustiadas, bem mais violentas, tranquiliza-se e encontra assim uma justificação para os medos que vai mantendo vivos e ativos no seu intimo.

Não esqueçamos que há violência no medo: aquela que nos atormenta por ficar preso a ele, que se manifesta nas nossas interações sociais. Não será o medo (de perder a face, de perder o que se pensa possuir, de não corresponder à imagem que esperam de nós) que leva tantos de nós a agredir, em palavras ou actos, os nossos semelhantes?

Mas poucos param para questionar, combater, afastar os medos que vivem no seu íntimo. Esquecemos que a coragem não é a ausência de medo, mas a força de o ultrapassar.

O escritor Gabriel Chalita tem uma frase interessante “São os afetos cotidianos que ajudam a diminuir o medo”. Quem sabe a chave desse travão não esteja contida nessas palavras substanciais.

As autoras desta crônica não têm nenhuma receita. Mas ambas combateram o seu medo: uma porque sabe o quanto escrever representa um desafio e que teme, ainda agora, não transmitir a mensagem que desejava, outra porque tem consciência que as palavras orais caem no esquecimento, ao contrário das escritas que acabam sempre vestindo alguém.


Claudiane e Dulce

(1) Ansiedade é um sentimento vago e desagradável de medo, apreensão, caracterizado por tensão ou desconforto derivado de antecipação de perigo, de algo desconhecido ou estranho.


(2) Fonte: http://drauziovarella.com.br/letras/a/tag-transtorno-da-ansiedade-generalizada/

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Sonhos e Sonho

Imagem da Web

Sonhos e Sonho

Sonhar, mil sonhos sonhei
sempre tenho sonhado
Que por descuido ou tropeço
sonhos roubei acordado

Sonhos virando do avesso
meus prazeres e a tentação
Que de solidão em desespero
dos sonhos fiz coleção

Se os anjos pudessem dizer
falariam do meu coração
Meu peito é feito de amor
paixões sem possessão

Sonhos de mil e uma noites
princesas, castelos, dragão
sonhando sem ter pesadelos
voando com os pés no chão

Sonhos de um sonho na vida
de um amor sem despedida
Somente a dor da saudade
nas horas de minha partida

Sonho com todos os sonhos
de alguém esperando eu chegar
abrindo seus braços dizendo
"Entre...eu quero te amar"

Men@

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Chuva macia


Naqueles tempos bárbaros,
naqueles lugares bárbaros
onde a indiferença queima até a alma;

naqueles tempos e lugares,
os corações são áridos,
as almas, secas.

O solo é pedra,
o caminho é espada,
o horizonte é nunca!

E aqui, nestes lugares,
e nestes tempos,
onde já garoa,

a brisa é fresca,
o caminho é duro,
o horizonte é longe.

Mas é preciso que ocorra a chuva,
que ocorra a tempestade
e o solo encharque

daquela água macia
que brota do enternecimento da alma
e que se chama amor...

Então a pedra será seda,
o caminho, flores,
o horizonte, breve...

Gilberto de Almeida
10/12/2014



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Sabe... Amar, só, vale a pena...

Imagem Web





Oi amor,
Sabe, eu já não me importo de amar sozinho,
eu me sinto tão completo nesse amor
que se você não me amar mais
eu amo por nós dois, e,
se você me esquecer não faz mal
porque eu não vou esquecer você,
se você não me quiser mais
que importância tem?
Eu já tive você
em mim!
Já experimentei teu sabor,
já tive seus beijos
em minha boca,
já tive sua rosa desfolhada
em meus lábios
e ninguém te sentiu
como eu senti,
ninguém te amou
como eu te amei!
Você nunca se sentiu
amada como eu amei você,
nem nunca sentirá,
nem nunca me arrependerei
de ter entregado meu corpo
de ter sido teu
de ter entregado
o que de mais valor tenho em mim
que é a minh'alma,
mas, minh'alma cheia,
repleta,
transbordante,
embebida e
embriagada
de amor por você!
Não!
Eu não me importo mais
de ter amado só, eu em você!
Se alguém perdeu, não fui eu
só foi você!

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Razão e Sensibilidade


Imagem: UOL¹ 




      Davi inscreveu seus quadros nos dois Salões de Artes Plásticas que se realizavam na Capital. Desde então, seu problema passou a ser qual dos dois Salões deveria escolher? Assim, ficou ele a pensar consigo mesmo, pesando os prós e os contras de cada um. O Salão Nacional teria o interesse em promover e divulgar suas obras, porque seu objetivo imediato era o lucro. Já no Internacional, seria apenas mais uma exposição; internacional é claro, mas poderia ter ou não consequências e seriam a médio ou longo prazo, além de ser mais arriscado, pois concorreria com artistas de todo o mundo.
      Assim sua dúvida passou a ser esta e não mais se seria ou não selecionado. Ele já se via como a revelação dos últimos anos nas artes plásticas. Finalmente, chegara seu momento de fama. Todos se orgulhariam dele; seu filho sentiria orgulho do pai famoso. Seria o coroamento de uma vida dedicada às coisas com as quais ninguém se importa ou valoriza. Os outros – pensava Davi -, adoravam a riqueza e entregavam-se a trabalhos que detestavam para alcançá-la. Mas ele não! Ele fizera o caminho inverso e iria conseguir riqueza e fama, fazendo um trabalho que não era trabalho, porque era algo que fluía naturalmente de sua mente para suas mãos e destas para as telas, ganhando corpo, concretizando sonhos... Sim, mostraria a todos! Mostraria a seu filho que devemos fazer somente aquilo que gostamos de fazer, mesmo que os resultados não aparecessem logo; o dinheiro seria uma decorrência natural.
      Tais e muitas mais eram as coisas que se arquitetavam em sua mente que parecia não enxergar a realidade, o sistema; embriagada, não de álcool, mas de alegria.
Afinal, chegara aonde queria! – Pensava ele.

     Mas, não foi isso que aconteceu. Seus quadros não foram selecionados em nenhum dos Salões.

      Passado o primeiro momento, Davi procurou encarar o acontecido como algo que ele já esperava e que, de fato, já pensara quando recebera os primeiros incentivos para ousar voos mais altos, galerias famosas. Procurou racionalizar, para si mesmo que os conteúdos, temas daqueles quadros falavam de uma realidade que tinha, como principais culpadas, aquelas pessoas que moravam nos bairros mais ricos da cidade e onde os Salões se realizariam. E, portanto, só frequentados pela elite econômica que, através da mídia, era a dona das artes, da cultura, do modismo e responsável pela alienação do povo miúdo, etecetera, etecetera, etecetera. No caso do Salão Nacional, os responsáveis pela seleção eram empregados do Estado e isto queria dizer que se chegaram àqueles cargos, era porque pactuavam com o governo que é o verdadeiro responsável pela política econômica recessiva em que estava mergulhado o país e que barra o desenvolvimento, provocando o desemprego, a fome, a miséria, a doença, a violência e tudo isso para quê? – Davi perguntava e respondia: para pagar os credores externos que não se importam se vidas estão sendo ceifadas, desde que eles recebam o que acham que é seu! Custe o que custar, doa a quem doer...
      Com esses pensamentos, Davi achava que era normal que suas obras fossem recusadas.
      Porém, esta era a parte racional, o óbvio. Mas, e quanto à sua parte emocional, quanto aos castelos que ele erguera e que, de maneira inexorável, agora desmoronaram, evaporaram-se...
      - Oh! Deus! – Perguntava-se – Que faço eu aqui no fundo desse poço depois de ter sido elevado a tão grandes alturas?
      - Estou todo quebrado... Quanta dor, meu Deus! Ah!... – Lamentava-se Davi.
      Lutara contra tais sentimentos, forçara a razão impedira a explosão da emoção. Procurara ser realista, sensato, forte - como dizem. Mas o tombo se mostrou grande demais. Não bastavam mercúrio e band-aid e nem um pouco de sulfa; não fora somente um arranhão, um ralado no joelho, desses que cansamos de ter quando crianças e que logo, graças ao vigor – e inocência – ficam curados por si só. Não. Davi aguentara a dor colocando compressas o mais que pode, mas, aos poucos foi se abrindo à sua frente um vazio, um nada, um horizonte vazio, negro, sem mais nenhum castelo, nem mesmo suas ruínas... Ele era a ruína. Investira demais, sonhara demais, subira demais, fez tudo demais... caiu fundo demais. Fracassara. Não o entenderam, ou melhor, não quiseram entender. E não iriam nunca querer entender. Isso não interessa – dizem eles -, não precisamos de agitadores sociais; não queremos educar as massas; não precisamos da Arte consciente, não queremos Arte que levem as pessoas a pensarem sobre algo concreto, real. Queremos borrões de tinta nas telas onde cada um veja o que quisermos que elas vejam, isto é, nada... Queremos quadros que retratem a diarreia mental em que se encontra o “artista”, completamente alienado. É esse tipo de arte que queremos e que será entendido por outras mentes, também acometido deste mesmo desarranjo intestinal. Pintura “abstrata” – dizem eles! Isso é bom para um povo que não passa fome, tem escolas que, além das primeiras letras, também ensinem o indivíduo a descobrir-se e à realidade exterior, proporcionando uma vida em completa harmonia entre o fora e o dentro, porque é uma coisa só; é boa para um povo que não vê suas crianças assassinadas para que não sejam os bandidos de amanhã; para um povo que tem um teto para abrigar-se das intempéries do tempo, um chão seu para pisar e criar raízes para retirar a seiva e espalhar pelo frondoso tronco, em direção aos ramos com folhas e flores que se transformem em frutos, depois de fecundadas, e cresçam bonitos e suculentos graças à seiva que é retirada pelas raízes do solo que é seu. Seiva e fruto, informação e pessoa... relações diretamente proporcionais; a qualidade de uma depende da qualidade da outra. Não devemos falar de flores enquanto o jardineiro passa fome, diz o filósofo. Assim também deve ser com a Arte. Um verdadeiro Artista nunca é alienado.



     Assim, Davi conseguiu suportar mais de mês, porém, com o passar dos dias foi enfraquecendo.

EP.Gheramer

(1) UOL




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Eu, quando acordo...

Imagem Web - Van Gogh

Eu, quando acordo todos os dias,

logo de manhãzinha,
sinto-me abençoado e feliz.
Olho ao redor de mim
e tudo que vejo são as coisas
que o pensamento do homem tornou realidade
para tornar a vida de cada um de nós mais confortável.
A cama em que eu durmo;
A cadeira em que eu me sento;
O armário onde eu guardo as minhas roupas
que me vestem e os sapatos que vestem os meus pés;
A luz e a lâmpada que fazem a claridade do ambiente
quando já não há mais a luz do Sol;
A minha força de trabalho que me possibilitou
a aquisição de todo os bens que possuo;
A casa onde eu moro...
Este, o mundo real e possível do homem...
Mas, quando me ergo da cama e me aproximo da minha
janela do meu quarto de dormir e abro-a para o mundo lá fora,
aí o que eu vejo é o meu quintal e nele tudo o que há
é a expressão do pensamento de Deus!
Debruçado no parapeito da janela do meu quarto de dormir,
da casa onde eu moro, eu posso sentir,
ouvir e tocar as cousas de Deus!
As árvores, as flores, o perfume do ar
que entra em meus pulmões, as formas,
as mais variadas, de vida e de existência
e de permanência de Deus!
As cores dessas formas de vida,
também as mais variadas...
Tanto verde, tanto azul, tanto amarelo, tanto
colorido, tanto Sol e calor e luz do Sol numa manhã
que tem tanta vida quanto a vida que há em mim!
Nenhum lugar bonito deste meu planeta Terra e
deste Universo é mais bonito do que
o lugar do meu quintal da minha casa de morar.
Nenhum planeta possui as flores mais belas e
nem mais perfumadas do que as flores e o
perfume daquelas que eu posso ver e tocar aqui, no meu;
Nenhum Sol é mais Sol do que o Sol que ilumina e aquece
a minha vida aqui no meu planeta;
Não há qualquer alguém que seja mais feliz
do que eu porque não há nenhum alguém
que possui as coisas que eu possuo;
E nem há, também, nenhum alguém
que as ame mais do que eu;
Não há olhos de nenhum alguém
que as possam ver como eu as vejo;
Também não há nenhum alguém que
as possam sentir como eu as sinto, mesmo,
sabedor que sou, que elas não me pertencem e
que não sou eu o senhor delas.
Mas, tenho certeza absoluta que elas existem
para que eu seja exatamente o que sou,
e a minha vida seja significativa e maravilhosa como é!


Estou vivo e sinto que estou vivo!

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Quando doamos o nosso melhor, propagamos a felicidade?



                                                                Art People gallery

Fazer o outro feliz é o segredo do sucesso do casamento de um amigo.

A conversa logo me remeteu a uma imagem de uma senhora que já não se encontra mais na matéria.

Quando a conheci ela já estava viúva, nos momentos que tive a oportunidade de contato sempre me encantei com a maneira carinhosa na qual ela mencionava  seu marido, quase beirando a contos de fadas, isso sem contar que seus olhinhos ganhavam vida enquanto falava dele.

Em uma das nossas conversas ficou muito claro para mim a chave. Ela me falou que amava o amor que seu marido dedicava à ela. Suponho que quanto mais ele a fazia feliz, ela retribua em dobro e assim sucessivamente.

E esse laço de amor era tão forte que ao lembrar-se dele, dos seus cuidados durante o tempo que conviveram... Ela simplesmente metamorfoseava.

A última vez em que estivemos juntas, não foi em sua casa, estava atravessando a rua, ela me chamou para tomarmos um café. Nesse dia fiquei conhecendo um pouquinho mais desta senhora estilosa. Contou-me das inúmeras cantadas que levou, após ficar viúva aos trinta e poucos anos, e que nunca se arriscou a um novo relacionamento. 

                                                    Imagem: web


                                                                    laço afetivo

                                                             doação sem limites
                                                                   
                                                                   amor eterno

                                       
                       
                                                                       Claudiane Ferreira



 "Pois os sonhos são sonhos mais lindos, quando são feitos para te ver feliz..."
                                       
                                                                       Josué Brito




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Intensamente amantes!



Sinto dentro de mim o teu silêncio
mil vezes repito que te amo
na sombra da noite desejo
teu corpo nu ardente...

Toma o meu corpo transparente
num tempo sem amor nenhum
somos sombra sem luz...


Anda,vem... Por que te negas!



Manuel Marques (Arroz)

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Estou tão longe de mim...

Imagem da Web
Estou tão longe de mim que não consigo me enxergar como sou,
E a minha imagem (de mim) fica sem foco, difusa, embaçada,
E o que vejo deste eu de mim não é o mesmo eu que sinto que sou.
Estou trancado num egoísmo de mim para comigo.
Estou trancado dentro do meu eu,
Irritado, sombrio, taciturno,
Sem saída.
Qualquer tentativa de fugir de dentro do que sou,
Hoje, me faz ter medo.
Um medo que é de liberdade de ser o que nunca
Consegui ser: eu mesmo dentro de mim,
Um só apenas.
Ilusão, apenas, de o conseguir
Tentativas, apenas, de tentar.
Não ser. Eis o que sou.
Quando me convenço de estar só,
Alguma coisa se remexe em mim,
Desperta o meu sono de estar dormindo
Na minha vida,
Sacode de novo as minhas emoções já
Tão remexidas, já
Tão vividas nesse sonho onde não sou
Eu que sonho essa minha vida,
Mas, o que quer fugir,
O que quer escapar de viver a vida,
Para existir em vida.
Tudo são só palavras.
Tudo são só sentimentos de querer.
Mas não o querer somente,
Sozinho,
Essa coisa é só, apenas, isso.
É o que escrevo.
É o que penso para escrever.
Não mais que, apenas, isso.
Somente isso.
Sinto vontade de desvencilhar-me de mim,
De me desvestir desse fato vestido do que sou,
De arrancar a máscara, de um eu que não me cabe,
Grudada em meu rosto, grudada no meu corpo inteiro
Como uma outra pele de mim, grudada na minh'alma
Como uma outra alma de mim.
Quero me esquecer e não consigo.
Me levo sempre junto com o que já fui de mim,
Num tempo que era meu e eu era outro.


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Clara Luz

Conto fictício escrito em agosto último, para um concurso de Minas Gerais. Bem que eu queria que esse conto tivesse um final feliz...
JGCosta

Clique na imagem para ver de onde ela veio!


Clara Luz

Era uma vez uma menininha morena, com pele cor de jambo, que nasceu numa favela sem nunca conhecer o pai, já que nem sua mãe, mulher da vida, tinha certeza de quem ele era.
Essa menina era eu, essa menina ainda sou eu!
Nem sabia se eu tinha um nome, um registro no cartório, pois sempre fui chamada de neguinha pela minha mãe e pelos homens que a visitavam em nosso barraco estreito e mal cheiroso. Só descobri que me chamava Maria da Luz quando fui providenciar meus documentos pessoais, mas saiba, isso demorou muito tempo, contado no relógio do sofrimento.
A comida onde morávamos era escassa, então cresci seca feito um palito, nem sei como não sucumbi a alguma doença morando naquelas condições de falta de higiene e limpeza. Não tinha liberdade para ir a rua ver outras crianças e quando reclamei um dia sobre isso, levei um tapa tão forte no rosto que até fiquei zonza. Foi a primeira e última vez até hoje que eu me queixei de algo, simplesmente deixei a vida seguir seu rumo, até hoje...
Escola eu só fiquei sabendo que existia quando minha mãe morreu. Ela começou a emagrecer de um dia para o outro, já não mastigava nada, só fumava e bebia, não demorou muito para dizer adeus a esse mundo. Aceitei que aquilo era normal e não senti nada ao ver o pessoal do fundo social buscá-la. Nessa época eu também não sabia o que queria dizer mãe, para mim era só uma pessoa com quem eu convivi por dez anos por pura obrigação. Agora estava livre para viver na rua.
Segui os mesmos caminhos de quem me trouxe ao mundo, vivia de esmola ou pequenos furtos na feira que acontecia quase todos os dias pra lá do mangueirão. Quando meu corpo começou a se formar, um homem conhecido por Nego se apadrinhou de mim e me deu um cantinho, em troca de favores sexuais. Fui seguindo nessa vida, conheci as drogas aos 14 e fiquei grávida aos 17, de algum dos amigos do Nego, que viu em mim um bom negócio. Minha vida alucinada só parou quando dei entrada no hospital com uma barriga inchada que nem parecia carregar um ser lá dentro. Eu me alimentava mal, me cuidava pior ainda, se de dentro de mim saísse algo com vida, eu poderia acreditar que se tratava de um milagre, mas até essa palavra eu desconhecia naquela época, pois também nunca havia sido apresentada a Deus. É verdade! Mas Ele lá estava naquela noite em que eu berrava de pernas abertas naquele quarto branco de hospital.
Muitas horas depois de um enorme sofrimento, uma enfermeira risonha apareceu do meu lado com um montinho de pano no colo. Lá dentro se encontrava uma menina barulhenta e a enfermeira me informou que se tratava da minha filha que aguardava meu primeiro contato. Peguei aquele ser pequenino nos meus braços e ao olhá-la descobri que se tratava de uma branquelinha com olhos enormes e azulados. Fiquei ali um tempo olhando pra ela e ela pra mim, foi um momento muito bom. Senti algo diferente por dentro, me apertando a boca do estômago, algo que foi subindo por dentro, que passou por meu peito e chegou aos meus olhos. Aprendi a chorar.
A enfermeira quis saber o nome para colocar na pulseira da minha filha. Sem pensar respondi: ela se chamará Clara.
Depois desse maravilhoso acontecimento em minha vida, toda ela mudou. Fui para uma casa de abrigo para jovens mães solteiras, de onde passei a frequentar uma escola e a trabalhar no local, em troca de comida e um lugar para ficar. Descobri como era bom ser mãe, viver de ganhar e dar abraços, de beijos e de sorrisos, de repente eu vivia no paraíso.
Anos depois conheci o João, um homem muito bom que ensinou outro tipo de amor, mas a Clarinha foi a única contribuição que eu dei para o mundo, pelo menos do meu ventre, pois não podia mais engravidar. Adotamos um casalzinho de irmãos que tinha dois anos a menos que minha filha e tocamos nossa vida. No início eu fazia faxina para ajudar no orçamento, com o tempo mudei para serviços em lojas, depois indústrias, e finalmente após anos de estudo acabei parando, vejam vocês, numa instituição que cuidava de menores abandonados.
Nessa época eu trabalhava como Assistente Social e passei a retribuir para outras vidas tudo de bom que haviam feito pela minha.
Clarinha tinha 20 anos quando me deu de presente o primeiro neto, nessa época já trabalhava como enfermeira num hospital da região. Dois anos depois veio o segundo. É impossível demonstrar com palavras quantas alegrias esses novos seres me trouxeram. Minha Clara que já era linda, agora após se tornar mãe, parece que toda a beleza do mundo se concentrou nela.
Lembro-me bem na minha cabeça cansada, apesar de já fazer três anos, o dia mais triste que eu vivi. Imaginem vocês que a minha salvação para esse mundo foi quando me tornei mãe e descobri que o amor não era somente uma palavra pichada num muro de concreto, então me digam vocês o que eu posso ter sentido quando minha luz foi arrancada de mim.
Vocês todos aqui já sabem, mas eu vou repetir: era noite quando o bandido a seguiu, ela que tinha atravessado a noite no hospital e voltava caminhando para sua casa, que ficava a dois quarteirões de distância. O fulano a arrastou para um beco escuro, a estuprou em meio a arranhões e depois a matou por estrangulamento. Saiu dali como se nada tivesse acontecido, voltou para casa, tomou um café e foi trabalhar.
Longe dali acordei assustada de um pesadelo que não conseguia lembrar, com um aperto no coração que parecia até um infarto. Logo a dor passou, mas a notícia chegou como uma punhalada: minha Clarinha já não se encontrava entre nós.
Em algumas semanas a polícia fez muito bem o seu trabalho e prendeu provisoriamente o seu assassino. E hoje, tantos anos depois, eu lhe pergunto, Senhor Juiz, se uns poucos anos de cadeia irão fazer com que esse homem seja reintegrado à sociedade.
Ele tirou de mim toda a luz em forma de filha que eu ganhei do Bom Deus do Céu; ele tirou da família dela toda a alegria que ela irradiava; ele tirou do mundo o bem mais precioso e de imensurável valor: uma vida!
Digam-me então como é que esse homem poderá pagar o preço por algo que não pode ser valorado; convençam-me vocês que alguém que extrapolou por maldade todos os limites da razão e sem aparentar um mero remorso, busca recobrar a sua liberdade, a sua vida, tal qual aquela que ele ceifou com suas próprias mãos; digam-me vocês que castigo esse homem merece?
Pelas nossas frágeis leis logo ele estará livre, passeando na praça, quem sabe procurando outra vítima, mas para mim, meu caro Juiz e demais presentes, a prisão perpétua seria o melhor remédio para alguém que tem a coragem de realizar ações tão desumanas.
Imaginem vocês um tigre solto na selva, ele matará outros animais para se alimentar, essa é a sua natureza, e se for retirado do seu habitat comum, viverá a vida toda atrás de grades num zoológico. Por quê? Porque ele possui uma natureza animal.
Agora um homem, que pela sua sabedoria e inteligência deveria zelar pela vida das pessoas, faz justamente ao contrário, colocando um fim na vida de uma pessoa, de uma maneira bárbara, irracional, animalesca, esse ser eu lhes digo, tal o tigre, quando está fora de seu meio ambiente equilibrado, deverá ser mantido pelo resto da sua existência numa jaula, para que ele não possa ferir outros seres, para que ele, como foi no meu caso, não venha a ensinar outras pessoas a chorar de dor.
Meu bom Juiz dê o senhor a justa sentença, minha voz agora se cala, já me estendi demais, mas se daqui eu não sair com a certeza de que se fez justiça, pode acreditar que eu não me calarei jamais.

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... Depois a calma do amor

Imagem da Web

São dois prá lá, dois prá cá,
você sussurrava no meu ouvido,
meu rosto colado no teu,
entrelaçados, nossos dedos,
com força de desejo,
meu corpo e o corpo seu,
num procurar louco de paixão,
meu e teu o anseio
na ânsia de se tocar;
as mãos entrelaçadas
ao longo do corpo de nós,
a outra, minha, em suas costas,
a outra, sua, em minha nuca,
corpo meu, inteiro, no
corpo teu, inteiro,
apenas o movimento
que a musica faz existir,
nosso pensamento, são
sentidos por nós dois;
um prá lá,
um prá cá,
tão lentamente,
tão suavemente,
que mal  nos percebíamos,
apenas nos sentíamos;
(o mundo à volta...?)
meu corpo inteiro,
cada pelo meu,
cada centímetro de
minha pele
podia sentir
cada milímetro da tua;
cada respirar que o peito
consegue suportar, é
intenso, carregado de mim
e do meu desejo e
eu sou inteiro
em cada uma delas,
sem me repartir;
meus lábios e minha
boca próximos,
colados em tua orelha,
te repassava essa sensação
minha, do meu respirar;
é uma sensação única
essa de querer e
ser querido,
respirar o cheiro de
você,
me entregar sem
medo,
te possuir sem
receio teu;
tudo é mais que um,
só o momento é único,
só o sentir é o mesmo;
então,
olho no olho,
boca na boca,
língua na língua,
ela
e ele, gozo
no gozo,

prazer em UM!

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CRIATIVIDADE

CRIATIVIDADE
(Por Maristela Ormond)

curiosidadesnanet.com


               



                Criança pobre tem muita imaginação, pouco dinheiro, nenhum brinquedo a não ser aqueles que ela mesma fabrica e complementa com sua imaginação fértil.
               Criança pobre sempre tem muitos irmãos e esses acabam sendo seu brinquedo predileto, seus parceiros nas infinitas artes de inventar, construir, trocar e é claro, brincar. Quando não arruma também uns bichinhos (coitadinhos!), como gafanhotos puxando carrocinhas de caixa de fósforos. Cigarras, que amarradas ao pescoço voam até onde se deixar.
 Vagalumes que dentro de um vidro fazem sucesso como lanterninhas para brincar de noite.
               Martinha, menina esperta, bonita e de muita inteligência, sempre inventava seus brinquedos e gostava demais de jogos, mas seus pais não tinham como comprá-los, mas é claro que Martinha dava um jeito. Sempre que via algum jogo interessante e não tinha dinheiro, corria até uma loja que ficava perto de sua casa e lá pedia para ver o tal jogo. Espiava, via o preço, contava as peças, e ia fotografando em sua mente aquilo que via para que depois pudesse reproduzir em casa, principalmente se fosse feito em papel, porque papel sempre se arruma em casa de pobre. E lá ia ela feliz da vida para casa porque o seu Joaquim havia deixado que olhasse o brinquedo e ele já estava em sua cabecinha.
               Chegava a casa, arrumava restos de cartolina e o jogo estava feito. Normalmente não deixava mais ninguém em paz, porque a partir de sua obra concluída todos tinham que jogar.
               Explicava as regras e punha todos a brincar, querendo ou não querendo. Ai de quem lhe dissesse um não. Este estaria fadado as suas perseguições constantes, quando não tomava uns croques bem dados e acabava se rendendo e tendo que ser companheiro de jogo...
               Certa noite, sem sono, resolveu que deveria jogar até que o sono chegasse. Como a casa era pequena para acomodar tantas crianças, havia no pequeno quarto, quatro beliches em que dormiam dois irmãos em cada uma. Um dormia nos pés e outro na cabeceira da cama.
               Martinha acordou os irmãos e pediu para que fossem jogar com ela, mas como todos dormiam ninguém queria. O sono era mais forte. Mas ela não desistia, dava um “chutinho” daqui, uma “pisadinha” dali, e ia infernizando a turma para acompanha-la e, na negativa, ameaçava que no dia seguinte iriam se ver com ela. Era aterrorizante saber que no dia seguinte o que os esperava era uma boa briga.
               Conclusão: madrugada e todos jogando como se a animação fosse o mais importante naquele momento de descanso.
               Consequências do jogo: Quando o pai acordava com o barulho, era uma tamanha correria para o quarto, pois mais forte que Martinha era o pai que muitas vezes resolvia a situação naquela mesma hora...  Então só restava correrem todos ao mesmo tempo e dormir ou ao menos fingir que dormiam para que a coisa não ficasse mais feia.



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Hoje... O que sinto que sou

Imagem da Web
Hoje eu não estou sentindo nada daquilo que sou.
É como se eu não estivesse aqui, em mim.
É como se meu corpo não existisse.
É igual a não ter pernas para andar,
ou mãos para sentir e tocar as formas das coisas,
ou como se eu não tivesse meus olhos,
e assim não pudesse ver as cores e os contornos que as coisas têm.
É um sentir de só sentir.
É o sentir que então eu sou hoje.
É como se todo eu fosse apenas
o que os meus sentimentos conseguem ser.
Sinto-me. Percebo-me.
Mas, não como uma forma,
uma coisa em si mesma que tivesse vontade,
que sentisse, que pudesse ver e que por isso sente,
mas somente como uma vontade
que tem o gosto do sentir e que por isso
consegue ser, consegue ver.
Um sentimento apenas.
Meu resumo e conclusão.
É a unica coisa que eu sou hoje. Agora.
Sinto-me tão preenchido que não
há espaços em mim para mais nenhuma coisa.
Não me importam os braços, nem as pernas,
nem meu peito, nem minhas mãos.
Sequer dou atenção se tenho um coração
a palpitar uma vida em mim, ou
não me preocupo se tenho pulmões.
Se há sangue em minhas veias?
Quem se importa?
Só me importa esse sentimento que me preenche como um todo.
Eu sou ele e ele é o que eu sou.
Se eu ando, não sou eu que ando,
é ele que me faz andar;
Se estou chorando, não sou eu que choro,
mas, é ele que me faz chorar em mim;
Se rio como se fosse o mais feliz dos mortais,
não sou eu que rio, nem sou eu que sou feliz,
é ele, somente ele, que me dá a alegria de poder rir
e a felicidade de poder ser feliz;
Se estou de mãos dadas e de bem com a vida,
não sou eu quem caminha assim,
mas é ele, esse sentimento que sou hoje,
esse sentimento que me sinto ser hoje,
é que me deu a sua mão
e que caminha comigo no meu caminhar
sem pernas e sem braços e sem corpo,
mas tão mais repleto de mim mesmo,
tão completo me faz me sentir e
tão mais vivo que estou certo não precisar de mais nada.

Só amar!

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Um jeito meu de existir...


Eu sempre, desde que vivo neste meu lugar de morar,
durmo com as janelas, do meu quarto, abertas.
Há nisso uma concordância do meu corpo com minh'alma
e a cama onde me deito e a noite que me acolhe no seu silencio de me fazer dormir.
Sensações, por vezes, vem me sacudir o sossego,
vem me mostrar coisas que quando estou lúcido e acordado
não consigo enxergar, nem mesmo sentir.
Fico de olhos abertos no escuro.
Nada vejo porque a escuridão é completa,
até nos meus sentidos.
Que é feito daquilo que sou, ali, diante de um nada
que meus olhos veem?;
Diante da ausência de formas e de cores do mundo,
este mesmo mundo que só existe como eu o penso
e vejo, quando há luz?
A ausência da luz só permite-me me sentir como vivendo
porque me penso existindo.
Todas as outras coisas que fazem parte do meu quarto de dormir
e que me mostram que eu existo e vivo de um jeito meu,
não estão ali em forma e em cor,
apenas em minha memória é que sobrevivem.
Nada mais estranho do que essa sensação de se saber existindo
apenas porque me penso existir;
Nada mais estranho do que olhar pela janela aberta do meu quarto
de dormir e distinguir apenas vultos e sombras
de tudo aquilo que meus olhos veem todos os dias:
as folhas das palmeiras, que eu sei que são, mas, apenas por
conhecê-las antes e sabê-las ali, naquele lugar do quintal
do meu lugar de morar;
as árvores, tão minhas conhecidas e companheiras de todo dia,
cada uma com seu verde folha distinto e único,
agora são só o volume de qualquer coisa que se parece com árvores,
que eu sei que são, mas, apenas por conhecê-las antes e sabê-las ali
naquele lugar do quintal do meu lugar de morar;
os agapantos, os lírios, as dálias, as rosas, todas elas
flores do meu jardim, só as reconheço por uma memória minha
de forma colorida e diversa...

Foto: Ronaldo Savazoni
Apenas uma sensação de que são as mesmas,
mas, nenhuma certeza de ver;
Só prevalece a certeza de suas existências porque reconheço os vultos
com que suas silhuetas marcam o lugar onde eu as vejo sempre
coloridas e cheias de vida.
Todos os matizes do verde dos meus jardins são vivos apenas
porque há um fio memória que me une a eles,
o rosa das rosas; o amarelo dos lírios; o branco e o azul dos agapantos;
são cores, mas apenas cores nesse pedaço meu de memória,
Hoje. Aqui. Agora.
Há apenas o indistinto quando olho no entorno de mim e para mim.
Que é feito, então, de mim quando não me vejo,
mas apenas me sinto?

Apenas me penso?
Assim sem relação com qualquer coisa de meu,
sem relação de espaço,
sem relação de formas,
sem relação de cores?
A luz refletida em meus olhos me traz de volta àquilo
que chamamos de realidade; traz de volta
aquilo que chamo de realidade minha para o mesmo de mim.
Um fato científico,
a luz refletida nos meus olhos é que permite a existência
das cores, das formas;
existência das coisas;
existência minha para as coisas minhas;
existência das coisas minhas para o mesmo de mim.
Eu acredito ser esta a maneira mais simples que Deus criou
para que o indistinto se tornasse único;
para que eu fosse único quando existisse para a realidade de muitos;
para que cada um dos muitos fosse único quando
existisse para a minha realidade;
para que eu pudesse distinguir a coisa da minha realidade
que eu chamo de lírio amarelo;
para que qualquer um dos muitos também pudesse distinguir
a coisa da realidade de todos nós que chamamos, todos nós, de agapanto azul, e as rosas de rosas, e as árvores de árvores, e as palmeiras de palmeiras;
para que eu tivesse pé assentado sobre a realidade
da existência e pudesse reconhecer o meu existir
reconhecendo a existência de todas as coisas,
indistintamente, com suas formas e cores;
para que eu O reconhecesse não pela Sua Forma e Cor,
mas, pelas formas e cores que Ele colocou em suas obras
para mim e todos nós!

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