NÃO ACELERAR TANTO
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Crônica,
Maristela Ormond
NÃO ACELERAR TANTO
(Por Maristela Ormond)
Meu pensamento está tão
acelerado que às vezes acabo acreditando que estou ficando louca...
Essa pressa, ou fome de fazer tudo
muito rápido, está mexendo com as emoções, com a aprendizagem das pessoas.
Estamos num ritimo tecnológico à velocidade da luz e nosso cérebro está
assimilando tudo isso de forma voraz.
O simples fato de pegar numa caneta
para escrever e “comer” metade das palavras por engano, ops! Por engano ou o
pensamento foi mais veloz que o corpo? A coordenação dos movimentos não está
seguindo concomitantemente ao movimento cerebral.
A quantos megas bites está meu
cérebro? E o seu?
Dia virá que comandaremos máquinas
com os pensamentos sem haver razão para nos movermos para isso. Mas será que
tudo isso que está acontecendo com os seres humanos é saudável? Parece-me que
estamos numa crise de ansiedade sem retorno, pois a rapidez que nos envolve não
nos deixa retroceder. Seria como voltar ao período da idade da pedra e jamais
nos submeteríamos a tal coisa, pois temos pressa, muita pressa.
Às vezes fico observando a correria
das pessoas e me pergunto para onde iriam com tanta pressa, tanta ansiedade.
Atrás do quê?
Estamos ameaçando nossa saúde,
ameaçando nossa convivência com os amigos, ameaçando perder nossos familiares
em nome da ansiedade, em nome de correr atrás de algo que nem mesmo nos damos
conta.
Seria o momento oportuno de parar e
observar em pouco mais que viver está sendo uma necessidade primordial, pois vamos
acabar atropelados pela imposição a que esta sociedade consumista está nos
levando e se isso não acontecer, tropeçaremos em nossos próprios pés sem
sabermos por que caímos e aí sim, paramos, por força do destino, por força da
imprudência.
Tirar o pé do acelerador é a meta.
Objetivo maior vida mais saudável. Será possível?
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OS DIAS E AS NOITES SÃO RETRATOS DE TUA FACE
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Josué Brito,
Poema
Por todos os dilúculos declamo, sabem os ventos
Que urgem... As noites insones que a poesia me
Toma... são deleites indizíveis que clamam em voz
Flama, desejando o coruscante tocar...
Mais curtos se tornaram os dias, tornou-se diferente
O tempo, não mais em horas conto minha história...
As memórias todas, conto a partir do dia em que eu
Conheci um amor tão intenso e tão meu...
Tonaram-se todas as auroras de um rosicler mais belo,
Refletem os céus teus olhos... Na possibilidade quando
Penso que não é razão é amor... acalenta todas as
figuras...
Por isso não me deixes na amargura de sonhar de forma
Tão turva... Se é tão grande o que sinto eu, se é eterno
tenhas
A certeza, que espero ser um dia ser o ar dos pulmões teus...
Josué Brito
Paredes
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Dulce Morais,
Poema
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| Imagem da Web Autor desconhecido |
Paredes
Juntam-se as pedras
uma a uma se reúnem
num monte indistinto.
uma a uma se reúnem
num monte indistinto.
Fabrica-se a argamassa,
com cuidado se misturam
os elementos conhecidos.
com cuidado se misturam
os elementos conhecidos.
Horizontalmente se organiza a construção,
em gestos experientes ou descobertos,
uma pedra untada da cola preparada,
uma outra sobreposta
ao mesmo tratamento submetida.
em gestos experientes ou descobertos,
uma pedra untada da cola preparada,
uma outra sobreposta
ao mesmo tratamento submetida.
Juntam-se as mágoas,
traições e desilusões
amontoadas com o tempo.
traições e desilusões
amontoadas com o tempo.
Fabrica-se o desgosto
misturado com a amargura
das palavras por dizer.
misturado com a amargura
das palavras por dizer.
Verticalmente se ergue o edifício
em gestos repetidos,
numa tentativa desesperada
de proteger-se
das consequências das ações
que outros tomaram por si próprios.
em gestos repetidos,
numa tentativa desesperada
de proteger-se
das consequências das ações
que outros tomaram por si próprios.
Se a parede pode proteger
das chuvas e dos ventos,
esqueceu o pedreiro
que são necessárias janelas
para pode ver o Sol.
das chuvas e dos ventos,
esqueceu o pedreiro
que são necessárias janelas
para pode ver o Sol.
Se o muro pode evitar
novas dores de chegar,
esqueceu o humano
que as esperança é indispensável
para continuar a viver.
novas dores de chegar,
esqueceu o humano
que as esperança é indispensável
para continuar a viver.
Dulce Morais
Alguém para ouvir
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Conto,
EP. Gheramer
Alfredo continuou falando.
- Eu, lá em casa, fui ensinado que em primeiro lugar, antes
de qualquer coisa, vinha Deus. O homem era nada comparado a Deus e só pela
bondade dele é que eu vivia. Cresci com a certeza de que somente o bem
triunfaria e que a mentira não prevaleceria sobre a verdade, apesar de às vezes
demorar; que os maus seriam castigados por suas maldades...
Enquanto ele falava, Samuel não pode evitar pensar em seu
próprio coração despedaçado e sangrando, depois que vira seu mundo ideal desfazer-se.
Um mundo povoado pelo bem, pela bondade e tudo o mais que fora ensinado a
querer e dar valor. Agora tinha diante de si um mundo que desmoronara e que,
embora trágico, prenunciava o surgimento de outro, pois, somente das ruínas
pode surgir o novo. O parto que estava se dando, tanto poderia dar à luz a um
monstro ou a um ser maduro, mas nunca a um ser angelical.
- Sabe, professor, quando eu saí de casa para estudar, eu
vim achando que tudo seria maravilhoso e que eu poderia ajudar as pessoas em
suas vidas tristes. Foi assim que deixei minha casa, meus pais e irmãos que
também precisavam de mim. Procurei doentes no mundo enquanto deixava outros na
minha casa. Mas, em breve vim a descobrir que também tinhas as minhas próprias
necessidades; eu sempre ouvia as pessoas, mas não tinha ninguém para ouvir-me.
Mais uma vez, Samuel se lembrou do tempo em que sua casa
estava cheia de pessoas, de amigos que o procuravam em busca de ajuda e, por
encontrá-la ali, voltavam no dia seguinte e no outro e no outro, de modo que
sua casa estava sempre movimentada e barulhenta e a cada dia parecia-se menos
com um lar. Tornara-se um ponto de encontro e tão logo essas pessoas eram saciadas
em suas necessidades, iam embora deixando cinzeiros sujos e um cheiro azedo de
vinho. E era nesta atmosfera que ele, sua mulher e filhos iam dormir quando a
noite chegava. E foi assim que seu lar foi se transformando em casa e esta em
um ponto de encontro e depois nada. E ele não percebia isso naquela época.
Procurava convencer-se que era melhor poder ajudar as pessoas. E agora, depois
que tudo desmoronou, ficara estampado em seu rosto o retrato daquele que sabe
consolar, dar apoio e incentivar. Quando seu casamento se desfez, quando o
ponto de encontro acabou, os amigos seguiram seus próprios caminhos e nunca mais o procuraram. Aquelas pessoas que eram tão confusas
que tanto precisavam dele, já não precisavam mais. A razão disso ele nunca
compreendeu.
Novamente sua atenção voltou-se para o que aquele rapaz
dizia.
- Sim, é isso mesmo! Não te usam mais, não precisam mais de
você...
Enquanto falava, seu semblante se contorcia, num esforço
para chorar, para parir. Seus olhos foram enchendo-se de lágrimas e, como um
tumor que arrebenta e deixa sair aquele pus que exercia pressão, suas lágrimas
finalmente jorraram. Com o corpo deformado pela dor excruciante de um espírito
atormentado – a maior de todas as dores -, com a cabeça entre as mãos, ia
surgindo o inesperado nascimento.
Samuel já atendera a muitos pacientes, antes de abandonar o
consultório e tornar-se professor. Já estava acostumado com semelhante comportamento;
era previsível. Porém, aquele caso era diferente, pelo menos assim ele sentia.
O que aquele jovem aluno falava, deixando seu coração sangrar, era a realidade
com a qual ele se deparava pela primeira vez. Acordara. Samuel estudara para
tratar de pessoas que se encontravam fora do mundo real, mas, o que fazer
quando o paciente não é paciente? Quando o mundo descortinado, em certo momento
da vida, não é mais uma fantasia, uma ilusão? O que poderia ele fazer? Como
tratar alguém que não precisa de tratamento? Poderia dizer-lhe que a vida era
assim mesmo, onde há mágoas, decepções e que ele deveria saber controlar-se
para poder safar-se? E como tantos outros, ele fora criado para ser bom num
mundo mau? Que o mundo era feito para ovelhas e lobos? Desnecessário falar o
que aquele rapaz, de forma dorida, estava experimentando agora. Samuel sabia
que eram respostas que não precisavam de perguntas.
Samuel ofereceu-lhe um lenço para enxugar as lágrimas, já
que não podia enxugar aquela dor. Depois de usar o lenço, continuou a falar.
- Aos poucos, foi acontecendo algo que, no início, eu não
sabia explicar. Com o passar do tempo vi meus amigos tornarem-se maduros e
autossuficientes. Fui percebendo em seus rostos, enquanto falavam comigo, certo
despeito ou raiva. Não sei qual nome dar ao que eu sentia. Por que aquelas
pessoas, as quais eu sempre quis bem e ajudara, me tratavam assim? Acabei
perdendo a espontaneidade ao lado delas e passei a sentir-me mal e deslocado. Assim,
durante muito tempo mantive-me afastado delas, sentindo a dor da ingratidão. E
em pouco tempo eu não era mais nada. A dor não me abandonava. Ela era a minha
companheira desde quando acordava até a hora de dormir e, não satisfeita,
atormentava meu sono. Ficou sendo a substituta das coisas que eu havia perdido.
Foi minha companheira durante tanto tempo, que pude tirar dela todo o seu sumo,
tudo aquilo que ela podia ensinar. E agora aqui, conversando com o senhor, tudo
se tornou claro. Agora vejo que quando se dá, esperando algo, não estamos
dando, estamos fazendo uma troca, uma barganha. Mas chega disso. Darei por
dar, sem esperar nada em troca.
Fez-se silêncio. Tudo havia sido dito.
- Sabe professor – continuou a falar -, é bom quando se tem
alguém com quem se pode conversar e desabafar e achar que não está devendo nada
por isso... É mais ou menos isso, eu não sei direito. Só sei que agora me sinto
bem.
- Fique à vontade, sempre que precisar – disse Samuel.
- Bem, agora tenho que ir andando – falou rapaz. Tem alguém
me esperando lá fora e que está precisando de mim.
O rapaz levantou e dirigiu-se até a porta. Depois de
abri-la, quis dizer alguma coisa, mas limitou-se a sorrir. Samuel também
sorriu.
Já era tarde. No quarto, Samuel continuava sentado na
poltrona, lembrando-se do acontecido naquele dia. No quarto o silêncio emanava
das poucas peças de mobília. Uma imobilidade silenciosa, eterna e imutável,
parecendo querer dizer que tudo que é já
foi e tudo que será já é. Levantou-se e caminhou até a janela. A folhagem
da árvore em frente já se transformara no lar e abrigo dos passarinhos que
encontravam refúgio durante a grande sombra da noite. A pensão toda dormia. Só
o vento caminhava pelas ruas. Samuel olhou para o céu estrelado e pensou que já
estava chegando o Natal. Pensou em Maria e foi sentar-se à escrivaninha. Depois
de acender o abajur, pegou papel e caneta e começou a escrever uma carta.
Outono, terça-feira, madrugada.
Querida Maria.
Você sempre gostou do Natal. Não vou desejar-lhe o melhor
Natal do mundo, porque não creio que vá senti-lo assim. Seria hipocrisia.
Tantas coisas aconteceram... – E continuou escrevendo.
EP.Gheramer
Samuel - # Fragmento 02
Ninguém me roubará o sonho...
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Manuel Marques,
Poema
No meu sonho tu flutuas a cada passo
sinto-te a cada instante
e é na noite que toco a tua pele ...
E no ondular do sono a memória procura-te
quero encerrar-te nos meus sonhos para te ter
trazer-te dentro de mim como um destino
e os meus sonhos sufocados terão a noite para te amar...
Manuel Marques (Arroz)
sinto-te a cada instante
e é na noite que toco a tua pele ...
E no ondular do sono a memória procura-te
quero encerrar-te nos meus sonhos para te ter
trazer-te dentro de mim como um destino
e os meus sonhos sufocados terão a noite para te amar...
Manuel Marques (Arroz)
Seu Ângelo cantou
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Conto,
Gilberto de Almeida
Do lado direito havia flores. De quem entrava. Do lado direito de quem entrava naquele supermercado, havia flores. Não de todos, mas de vários, de vários tipos. Quem quisesse veria o cheiro. Delírios. Também de rosas e de perfume anônimo. Havia elegantes "bouquets" decorados, que, de coloridos, pareciam crisântemos de todas as flores. Pareciam begônias, Margaridinhas dos campos, também Margaridas e Cláudias e Verônicas.
Por entre os expositores, fregueses com seus carrinhos de compras zanzavam interessadíssimos em nada mais. Nada menos. Cada um se apropriava de uma lata de refrigerante, de um pacote de arroz, uma garrafa de qualquer coisa. E de todos que existiam, existia um só. Que era ele. O próprio, Aquele que fazia as compras. As outras pessoas... Ah! As outras pessoas estavam interessadíssimas em nada mais. Nada menos.
No açougue, seu Juvenal! Faca afiada nas mãos. Sim, ele mesmo. Porque todo açougue tem que ter um Juvenal. Se não tiver, deve ser um açougue vegetariano. Nem presunto. Nem carne branca. Ainda bem! Mas lá tinha. Que pena. Aliás não tinha penas, porque já estava sem elas... E desossada.
As moças da peixaria vendiam um permanente sorriso, sardônico. Mas das duas, sardinhas mesmo, só tinha uma. A outra, que se chamava Catarina, exibia uma pequena marca de nascença ao lado da sobrancelha. Mas isso não conta! Ela era da padaria e desinformava monotonamente alguns pãezinhos franceses, italianos e portugueses. Não sabia que todos eram nacionais!
Nas caixas registradoras, umas quatro. Da tarde. Também, filas. As funcionária vendiam um permanente sorriso, real. Também cartão de débito, também cartão de crédito! É fato quase indiscutível que cada um tem o sorriso necessário de cada dia! Além do verdadeiro, é claro, que esconde debaixo da tendinite (quando chora!). Mas um dia será diferente. Hoje é assim!
Na fila número três - na verdade não havia número - Dona Úrsula estava apressada. No relógio o tempo todo. Olhava como se pudesse adiantar o tempo. E batia o pezinho e suspirava. Dividia o interesse com o senhor de trás, que não tinha o menor estresse. Ou vice-versa.
*#---@?
Foi aí que Seu Ângelo cantou.
*******
Seu Ângelo já saía com suas compras, no corredor frontal do supermercado, quando inesperadamente, para surpresa de todos, estufou o peito e cantou, com sua amadurecida voz de tenor, num italiano incompreensível, mas belo, o trecho mais famoso de uma ópera que eu desconheço.
E aquele som que premiava a tarde como os primeiros raios da aurora premiam o amanhecer, foi encontrando seu caminho por entre as flores da direita, por entre as gôndolas repletas de mercadorias, foi tocando como brisa os ouvidos dos fregueses desinteressados, que silenciaram num encanto embevecido.
Foi nessa toada suave, inesperada, tranquila, mas cativante, que a música de Seu Ângelo, preenchendo completamente o ambiente, avisou seu Juvenal de que a carne era fraca, e o açougueiro abandou a rudeza de seu dia a dia para transformar-se num protagonista atento daquele fato.
Assim mesmo, com essa tranquilidade toda, essa voz empostada do cantor de improviso percorreu os corredores até chegar, afinadíssima, à funcionária sorridente da peixaria... E aquelas sardas que ela tinha no rosto se iluminaram como poesia enquanto a melodia docemente penetrante daquele canto inesperado fazia arregalar as sobrancelhas de Catarina, do outro lado da loja, cuja marca de nascença, agora, dançava alegremente!
Foi desse mesmo modo, nota a nota, timbre a timbre, som a som, que a voz vibrante de Seu Ângelo banhou a alma de todas aquelas pessoas silenciosamente embevecidas, fez com que Dona Úrsula esquecesse o relógio e que o senhor de trás esquecesse Dona Úrsula. E as quatro filas, diante das caixas registradoras, e as quatro funcionárias que as operavam, agora compunham uma plateia anonimamente enfeitiçada, na casa de espetáculos que emergira da vida cotidiana, e, por um momento, esqueciam-se de si mesmas e integravam a corte de atores e atrizes daquela ópera desconhecida, desembarcando da tragédia das próprias vidas para alçar voo na vibrante ousadia alheia.
E Seu Ângelo cantou.
E a ressonância fez vibrar as flores, que inundaram o ambiente com a doce harmonia de uma orquestra perfumada.
E Seu Ângelo cantou.
E a ressonância transformou em lágrimas as pequenas sardas que sorriam no rosto iluminado da funcionária da peixaria.
E Seu Ângelo cantou.
E a ressonância transformou o facão agudo de seu Juvenal na batuta firme do maestro que conduzia à distância a orquestração das flores.
E Seu Ângelo cantou.
E a ressonância transformou em coro arrebatado as vozes mudas da plateia que se formara em todo o ambiente.
E Seu Ângelo cantou.
Cantou, cantou e cantou.
Quando Seu Ângelo foi embora, com um sorriso largo de felicidade incontida a estampar-lhe o rosto, por algum tempo as pessoas ficaram imóveis. Não havia o que fazer, nem o que dizer. Aquele momento exclusivo em suas vidas deixara-as temporariamente sem ação. E permanentemente tocadas por um fato que jamais esqueceriam:
- o fato insubstituível em suas vidas, de que Seu Ângelo havia cantado!
Gilberto de Almeida
07/11/2014
Samuel
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Conto,
EP. Gheramer
Já passava das seis da tarde. Samuel caminhava devagar pela
rua que o levaria até a pensão. Já se habituara à caminhada que se tornara algo
que aguardava com satisfação antecipada durante um dia de trabalho, naquele lugar
em que lecionava.
O chão de barro vermelho da estradinha era orlado de um lado
por vegetação rasteira e por esparsas árvores frondosas e antigas e, do outro
lado, havia a areia e o grandioso mar que tanto o fascinava. O céu estava azul
e as estrelas, as mais assanhadas, encrustavam-se nele como se não pudessem
esperar pelo anoitecer propriamente dito – parecia um manto real. A temperatura
era agradável.
Enquanto caminhava, os mesmos pensamentos de quando ali
chegara, há dois anos, ainda estavam em sua mente. Eram cenas de um passado
longínquo, de um tempo em que não estava sozinho. O vento que soprava do mar
trazia imagens de pessoas que riam, enquanto brincavam na areia de outra praia.
O rosto de mulher sorria para ele enquanto seus filhos corriam na areia. Era
uma cena feliz e que era revivida com grande alegria. Por que tudo aquilo
acabara? – Ele se perguntava.
Chegou mais cedo do que os outros dias na pensão, pois sempre chegava mais tarde. Como já
acontecera outras vezes, seu prato estava preparado sobre o fogão. Neste dia, Samuel
só tomaria banho depois de comer, pois a fome era maior que seus hábitos de
higiene. Depois de cumprimentar a dona da pensão, que ainda arrumava a cozinha,
ele lavou as mãos e sentou-se à mesa esperando o feijão esquentar. Dona Nina
não gostava quando seus hóspedes se atrasavam para as refeições. Porém, naquele
dia ela não se importou. Teria alguém para ouvir seus planos para o dia de
Natal que se aproximava. Assim, enquanto lavava a louça ia falando da ideia que
tivera de comprar uma televisão para colocar na sala, após o jantar, onde
ela - e quem mais quisesse - poderia assistir às novelas e, aos domingos, aos
programas de calouros dos quais ela tanto gostava.
- Quando... – Continuou falando.
Mas Samuel já não ouvia mais, pois caíra em seus pensamentos.
Lembrava da época em que morava com a esposa e seus filhos em um
apartamento na zona sul da Capital. Apartamento grande e de frente para a rua
principal. Logo este lugar transformara-se num lar. Seus filhos corriam a
brincar, sua Maria estava junto dele e ele a abraçava. Era noitinha. Ele
acabara de chegar do trabalho...
- O senhor está me ouvindo? – Falou dona Nina, interrompendo
e trazendo-o de volta àquela cozinha, tão diferente daquela outra que ele gostava
de lembrar.
- Sim, é claro que estou ouvindo – Respondeu ele,
sobressaltado.
- Pois é, professor. Vou remodelar a pensão para o Natal;
vou comprar um ar condicionado para colocar na sala e... - Continuou ela.
Dona Nina era fina e educada para uma pessoa que morava naquele
lugar, mas, quem sabia da sua vida antes de vir a morar ali? – Pensou Samuel.
Terminado o jantar, ele se recolheu, mas não sem antes dizer
para ela que também estava ansioso para o Natal chegar. Deu boa noite e subiu
para seus aposentos. Era um cômodo grande. De um lado havia uma estante de
estilo antigo onde guardava seus muitos livros; uma cama encostada na parede
oposta, uma escrivaninha a um canto e uma poltrona em frente à janela que dava
para a lateral do prédio. Havia comido mais do que o habitual naquela noite.
Sentou-se na poltrona confortável e ainda sem acender a luz, ficou entregue aos
seus botões, olhando o céu e sentindo a delícia do ar puro e fresco que entrava
pela janela, vindo do mar que ficava próximo.
Deixou-se ficar assim por algum tempo. Por sua mente
passavam os acontecimentos daquele dia na escola. Um de seus alunos queria
conversar em particular e perguntou se poderia esperá-lo em sua sala, durante o intervalo das aulas. Terminada a terceira aula, Samuel encaminhou-se
para sua sala. Ficou surpreso ao ver um aluno caminhando em sua direção. Já
não se lembrava. Sem saber por qual razão sentiu uma tontura que o obrigou a
apoiar-se na parede do corredor. Ele tivera a nítida impressão, embora
passageira, de ver o seu próprio rosto, como em espelho, refletido no rosto
daquele aluno. Logo recobrou o equilíbrio e recebeu o rapaz com um sorriso, na
intenção de disfarçar seu espanto. Com o cenho
franzido, perguntou se poderia conversar com ele em particular. Samuel disse
que sim e convidou-o a entrar em sua sala. Logo percebeu que havia no semblante
daquele rapaz a expressão de uma emoção que, a princípio, não conseguiu
identificar, mas que lhe pareceu familiar.
Depois de fechar a porta, convidou o estranho personagem a sentar-se na poltrona diante da mesa, ao
mesmo tempo em que sentou do outro lado. Houve um momento de silêncio, seguido
por algo que podemos chamar de explosão, tal a força categórica com que ele
falou.
- Eu fui enganado!
Samuel continuou olhando para ele, procurando entender o que
poderia estar por trás daquela explosão.
- Sabe, professor, eu pensava que Deus existia.
Novamente o silêncio, desta vez parecendo maior porque ele
não sabia o que dizer àquele rapaz.
Somente agora, ali sentado em seus aposentos, Samuel
percebeu que aquele rapaz estava precisando era de alguém que o ouvisse, para conseguir
colocar seus pensamentos em ordem. Podia-se notar que se tratava de algo com
raízes profundas em sua vida e que dizia respeito somente a ele.
EP.Gheramer
# Fragmentos
Imagem: Night flight above the clouds - Imagens de Vídeo Stock
Sabiá
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Gilberto de Almeida,
Poema
Ah! Sabiá...
Sabiá, sabiá, como eu queria
ser como você!
Você no meio fio,
enquanto a vida dos outros
passa apressada
e a sua ainda
nem começou...
Você que nem nasceu ainda
e não cometeu erros,
só viveu!
Você que pode, sabiá,
- veja bem, porque esse é um conselho que lhe dou;
um conselho de quem não pode
e de quem não sabe,
mas se atreve -
você que pode, sabiá,
quando nascer pela primeira vez,
suba ao céu em linha reta,
sem parar em parte alguma:
- não descanse no poleiro
da ilusão;
negue-se a si mesmo a desventura de pousar no lodo
do egoísmo;
Esqueça o repouso passageiro
no galho da árvore venenosa
do orgulho;
mas antes de tudo isso,
porque você pode, sabiá,
quando nascer pela primeira vez,
estenda as mãos
- que terá! -
aos corações necessitados e viva
em comunhão com o céu que te espera!
Se digo isso, é porque já não posso;
já trago as cicatrizes de quem
descansou
e pousou
e repousou
e não estendeu
e não viveu!
Você que pode,
siga direto!
Nem pare para me dizer olá,
que eu, daqui, que não posso,
tentarei ser sabiá!
Gilberto de Almeida
07/11/2014
ENERGIA PURA
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Maristela Ormond,
Poema
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| Imagem colhida na Web |
ENERGIA PURA
(Por Maristela Ormond)
Energia que vem do céu,
Que emana das ondas do
mar.
Não há como ficar ao léu,
Pois todos podem buscar.
Serve a todo ser humano.
Que compreende esse poder.
Não se deve passar um ano,
Sem que dela se abastecer.
Cura todas as feridas,
Do corpo externo e
interno.
Trás recordações queridas,
Que vem do ventre materno.
Dele somos filhos também,
Choramos, suamos, com o
mesmo sabor.
E tudo isso vai muito
aquém,
O contato é um momento
acolhedor.
Um dia alguém me disse,
Que o mar é uma
necessidade,
E isso não é crendice,
Há entre nós uma
compatibilidade.
Somos filhos da natureza.
Criados por um Criador.
Temos a mesma beleza,
E um poder edificador.
Contigente
Imagem: José Suassuna
Hermann Hesse
Átimo
de emoção
Exílio
ao sabor do vento
Uma carícia, tentativa de
unção
Poético experimento
Claudiane Ferreira
Para a arte de viver, é preciso saber a arte de ouvir, sorrir e ter paciência... sempre."
Hermann Hesse
SEDUÇÃO
Labels:
Osny Alves,
Poema
Um lindo anjo caiu do céu
E cá embaixo despencou...
E desde que aqui desceu
Semeia o mimo que pecou!
E desde que aqui desceu
Semeia o mimo que pecou!
Ela desfila tão sedutora
Com os encantos da tentação...
Sua mensagem é promissora
Qual o veneno da sedução!
Com os encantos da tentação...
Sua mensagem é promissora
Qual o veneno da sedução!
Seu charme seduz os Homens
E de igual modo as mulheres...
Quem a olha vive nas nuvens
E perdem os seus valores.
Suas amigas tão perversas
De igual modo insinuantes
Se vê logo suas conversas
Chegam ser atenuantes...
É difícil estarem juntas
Pois vendem um falso amor...
Suas malícias já são muitas
E o remorso é o seu sabor!
Usam mentira como elogio
E a falsidade é algo essencial...
Tiram de nós o nosso brio
E diz que isso é crucial!
O mundo as segue as cegas
E não veem em nada o seu mal
Mas no fosso ao inferno que levas
O fim de um cansativo bacanal!
E não veem em nada o seu mal
Mas no fosso ao inferno que levas
O fim de um cansativo bacanal!
Osny Alves
A brisa
(a minha amiga Dulce Moraes,
feliz por seu regresso)
A Dulce, então, vem...
- Que doce surpresa a trouxe?
Bons ventos do além...
Gilberto de Almeida
05/11/2014
CAFÉ COMPRIDO
Labels:
Marco Tisi,
Poema
CAFÉ
COMPRIDO
Já é meio
de semana é Quarta Feira,
ainda
querendo que a semana seja faceira,
ponha água
pra ferver na chaleira,
vou fazer um
Café Comprido,
com pó
Extra Forte bem curtido,
pra não
ficar com o dia comprimido.
Vou colocar
o Café na garrafa térmica,
pra ir
tomando com uma certa métrica,
pra fazer
desta Quarta, bem Poética.
E de cada
xícara, uma lembrança,
algumas de
um sonho de aliança,
outras de
querendo sempre ser criança,
e de que
havia uma furtiva segurança.
É um
gostoso Café Comprido,
que é bem
sorvido,
mas que não
será com ninguém dividido,
e fico com
isso com o pensamento perdido,
mas desta
situação tem que ser bem absorvido.
É Assim Que
É, o Viver esta premido,
melhor não
tentar nada, para não ficar abatido,
o que
importa é o Café não estar fervido,
e que nada
seja fingido,
e o coração
fica calmo e contido.
É Quarta
Feira,
a semana há
de ser faceira,
com o café
comprido,
pra essa
Vida fazer sentido.
Marco
Aurelio Tisi
( 05/11/2014
)
Soltar as amarras
![]() |
| http://1.bp.blogspot.com/_QBIsdzMW-Es/TAwr3YbdTPI/AAAAAAAAB2Y/GSy9kHOVhcM/s320/2247012944_405202c212.jpg |
Já senti vontade de largar tudo e sair por aí sem rumo, sem norte
Talvez eu não pudesse contar com a sorte
Além do mais, a sorte sempre me faltou
O que vem em minha mente agora é buscar uma melhora
Sentir a vida sendo vivida genuinamente
Já senti vontade de sumir, já tive raiva do mundo
Já pensei em me desfazer de tudo, por um segundo
E deixar tudo acontecer de forma qualquer
Sem planos, sem nexo
Todas essas vontades foram temporárias
Talvez por falta de coragem para realizá-las
Porém, uma coisa é certa: Está na hora de soltar as amarras
E colocar em prática cada sonho, cada anseio,
Quem sabe assim a felicidade volte a morar em meu peito!
Marcilane Santos, 02 de setembro de 2014.
Fica
Labels:
Claudemir Men@,
Poema
Art: Rafael Murió
Fica...
fica comigo nem que seja hoje
por mais um tempo apenas para sempre
por mais um pouco e que somente
eu saiba que nunca vai embora
Fica...
fica eternamente como a brisa
que toca em minha face e acalenta
os sonhos que minh'alma se alimenta
ama, se apaixona e se enamora
Fica...
fica das ausências a companheira
da minha constante solidão a única parceira
que comigo nem que seja mais um pouco
bem pouco, somente a vida inteira
Fica...
fica como as ondas de um mar
que em todas praias as areias vai beijar
indo embora porque logo vai voltar
e que sabe que prá sempre irá ficar
Men@
®
http://meninosemjuizoemversos.blogspot.com.br/
O gato
Essa é uma das minhas poesias mais simples e também uma das que mais gosto, devido, é claro, a sua simplicidade...
JGCostaO gato
Com sete vidas ele nasceu
Seis vidas ele perdeu
Foi quase parar no céu
Pois quase se escafedeu
Com tantos acidentes que sofreu
Um embaixo da bicicleta
Outro caindo da mureta
Mais um tropeçando no atleta
Outro sob um carro que não breca
Mais um andando na cerca elétrica
Outro brincando com o menino sapeca
Através do carinho que ganhou
Das pessoas que ele acariciou
Com aquela vida que sobrou
As outras seis ele recuperou
E toda a história reiniciou!
MISTERIOSA
Labels:
Maristela Ormond,
Poema
MISTERIOSA
(Por Maristela Ormond)
Entre duendes e fadas,
No meio da mata se esconde,
Uma linda deusa alada,
Que a muitos chamados responde.
Dizem que não tem nome.
Atende por um assobio,
Também não tem sobrenome,
E quando chega, há um calafrio.
Ela vem bem de mansinho,
E pergunta o seu desejo.
Ri num sorriso baixinho,
E te lança um pestanejo.
Nesse momento, você pede,
E ela logo te acode,
Dá um sorriso e se despede.
Alça voo e então eclode.
Mas não tenha medo não.
Ela só quer te ajudar.
Pelos homens tem afeição.
E só vem pra cativar...
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