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POSSESSÃO







O que posso concluir depois de tudo o que passei é que antes eu era um, depois fui dois e agora voltei a ser um, mas de uma natureza diferente daquela que eu fora.

Quando estava dividido, a impressão que tinha era a de que minha alma estava sendo disputada por espíritos de naturezas diferentes. O desenrolar desta disputa, numa alternância de vencedores que parecia não ter fim, ora sob o jugo de um, ora sob o jugo de outro, tomando minha alma e habitando este meu corpo, fazia com que eu experimentasse tanto a confusão da semiescuridão quanto a desorientação completa da escuridão total das trevas. Porém, muitas e incontáveis as vezes em que me senti confuso e também desesperado; como o pêndulo de um relógio que não para de oscilar, minha alma ora pertencia a um, ora pertencia a outro; com isso, minha mente ficava dividida entre um extremo, em que era capaz de, neste corpo, levar a cabo as mais inexprimíveis maldades e outro, onde ficava a culpar-me das maldades que cometia no primeiro, embora não tivesse consciência do que eu tanto me acusava; havia apenas um sentimento de culpa abstrato que me atormentava a existência. Hoje, sinto que sou peregrino neste corpo e nesta terra; eu escrevo o que vejo através destes olhos. Nada, além disto. Eu apenas olho, vejo e escrevo.

A experiência que narrarei aconteceu muito antes que eu pudesse formar, digamos, uma pálida opinião a respeito e em seguida expressá-la nas palavras do último parágrafo que o leitor acabou de ler. Porém, a impressão mais forte, a sensação indizível e que jamais se apagará de minha memória, esta, não conseguirei escrevê-la; a que experimentei quando, depois que tudo acabou, eu abri os olhos e pude, então, chorar.

Nesta história eu serei o autor, o narrador e o protagonista; os demais personagens e os acontecimentos poderão ser reais ou fictícios. Excetuando a minha pessoa, tudo o mais poderá levar a divagações devido à ambiguidade, ou não, e à maneira como será percebido pelo leitor inconsciente, aquele que lê ao mesmo tempo em que o leitor consciente, mas que, diferentemente deste, penetra na supra realidade. Comecemos.

No dia onze de junho de 200..., exatamente às onze horas, entrei na livraria, no centro da cidade. Meu objetivo era específico e a intenção há muito determinada: comprar o livro de Waldemar Ribeiro, intitulado “Cura em Cafarnaum” e outro chamado “Concordância bíblica”. Depois de folheá-los, mais por hábito do que por curiosidade, entreguei-os à vendedora que preencheu a nota de venda; depois, dirigi-me à caixa para efetuar o pagamento e foi aí que aconteceu uma coisa que veio tirar da rotina todo o resto daquele dia e de muitos outros depois dele: a moça da caixa, depois de ler o preço a ser pago, falou para outra a seu lado, encarregada da seção de embrulhos, que aquele era o número da besta. Despertado por aquelas palavras e mais ainda pelo tom com o qual elas foram pronunciadas, perguntei-lhe o que estava acontecendo e ela, trêmula, respondeu-me que o valor a ser pago correspondia ao número da Besta, que estava na Bíblia. Achei curiosa a coincidência e, se não fosse a agitação que percebi nas duas, aquilo teria sido esquecido ali mesmo. Paguei e ao estender o braço para pegar o embrulho notei que a balconista segurava-o com as pontas dos dedos, parecendo querer evitar que minha mão tocasse na sua. Foi num misto de encabulado e confuso que apanhei os livros e saí da livraria, pretendendo nunca mais voltar ali, mas não sem antes verificar que havia guardado e bem guardado, a nota de venda; queria olhá-la com calma enquanto estivesse na barca que fazia a travessia da baia, levando-me de volta para casa. E assim fiz.

Acomodei-me numa das cadeiras do andar de cima da barca, junto à janela e, depois de colocar a pasta e o embrulho sobre a cadeira vazia ao meu lado, retirei a nota de venda do bolso e passei a examiná-la: o papel era branco e as letras impressas na cor preta; escritos a caneta estavam a data, os nomes dos livros, os valores e, ao pé da nota, no canto direito, o total a pagar com o desconto: 148,666 reais. Nada mais; uma nota como outra qualquer, não fosse o acontecido na loja por causa do número. Dobrei papel e recoloquei-o no bolso. Cruzei os braços, olhando através da janela distraidamente e pensei na bobagem que era aquilo tudo. Porém, curiosamente, embora eu tenha ficado a pensar também em outras coisas durante o tempo da travessia da baia, aquela bobagem não saia da minha cabeça, como acontece com outras coisas que pensamos e que daqui a dois minutos são substituídas por outros pensamentos. Era como se algo de concreto, e não de abstrato como um pensamento, houvesse entrado em minha mente e agora ocupasse um lugar discreto e obscuro, bem lá no fundo, com os olhos a mirar o meu interior, como que a fazer o reconhecimento do lugar onde, daquele momento em diante, passaria a habitar e, horror dos horrores, a agir.

Desde este maldito dia, eu não consigo executar meu trabalho. Todas as vezes que tentei escrever algo, o fazia durante o dia inteiro para, logo chegada à noite, reler e atirar dentro de uma gaveta destinada a “Escritos não concluídos – ideias”; muitos manuscritos sem encadeamento ou uma ideia central foram ali colocados; apenas escritos doloridos e confusos de uma alma que vivia em permanente inferno, pois, como se verá adiante, o que eu queria escrever, isso não o fazia, mas o que não queria era o que eu escrevia. Junto aos editores já não tinha mais crédito e há muito meus livros foram relegados ao esquecimento. Não só não conseguia dirigir o que escrevia como, também, nada mais me distraia ou me dava alegria. Quando em frente ao espelho, desespero é o que eu via em meus olhos; não eram mais meus olhos, não era mais o meu olhar. Era algo que passou a habitar o meu interior e que aos poucos foi deformando o meu corpo, provocando-me rugas, muitas rugas em meu rosto e rachaduras em meus lábios e por entre os meus dedos – e como doíam!  E eu queria chorar e não conseguia; sentia o choro subir e ser barrado na garganta, preso... A cada choro não chorado, sentia meu corpo e principalmente minha cabeça inchar de ar, de desespero e de agonia.

Até os amigos mais chegados se afastaram de mim; era grande a minha solidão e o meu desespero, pois nem mesmo a minha própria voz era a mesma e as palavras que pronunciava careciam de sentido. Quando me olhava no espelho, o que me parecia era que a minha verdadeira imagem refletida estava embaçada, deixando a nitidez para uma visão horrenda que eu não conseguia encarar por um mínimo de tempo que fosse. Eu sabia que havia alguém ou alguma coisa lá, algo que eu conhecia, mas que me negava a encarar; não queria ver a máscara que agora cobria meu rosto real, se é que um dia o fora – até disso eu duvidei. Era triste, não queria ver-me; desviava o olhar do espelho e encontrava comigo em pensamento. Sabia que deveria olhar de frente a verdade da qual sempre fugira, mas tinha medo.

Um dia, já não sei mais quando, obriguei-me a ficar em frente ao espelho; foi logo depois de, mais uma vez, eu tentar chorar e não conseguir. A força para isso foi encontrada no meu desespero. Então, olhei bem para a imagem nítida, enquanto mantinha meu pescoço e minha cabeça vacilantes eretos, e vi que não era eu; era outra pessoa que andava – eu pressenti – perdida num passado do qual eu me esquivava de lembrar. Aos poucos, obrigando meu corpo àquela posição, sentindo uma dor infernal, consegui perceber que havia mais alguém – agora com certeza – dentro de mim que, inexplicavelmente, estava a me olhar; era uma presença que eu não conseguia determinar ou localizar, mas sentia estar ali comigo. Era algo feio, nascido do húmus da maldade que espreitava e sorria... Ria... Gargalhava! Agora eu era dois!

Ledo engano o meu; ao continuar olhando, consegui perceber uma legião dentro de mim. Então, eu me indagava, onde a unidade dentro de mim, onde o indivíduo... Onde o ser único que sempre ouvi dizer que cada pessoa é? Sentia que estava desintegrando-me a cada momento que passava. E estes pensamentos estranhos feriam minha mente, fazendo-a sangrar; já há muito não conseguia mais me controlar, manter a unidade mais simples de um único pensamento que fosse meu de verdade. Ah! Que verruma era aquela que penetrava em mim querendo arrancar meus rins e meu coração, minhas últimas gotas de sanidade e minha já tão minguada alegria de outrora?

Já não suportava mais tanto sofrimento físico e mental. Minha carne estourava em furúnculos que depois de abriam, deixando sair o prurido amarelo e nauseante; não se fechava e não cessava de sangrar e arder e eu tentava chorar, mas as lágrimas não saíam. Tinha o meu corpo coberto de chagas, chagas superficiais resultantes de uma luta que estava se travando dentro de mim e da qual eu só conseguia sentir a dor, mas nunca participar; meu corpo era apenas a arena de um confronto muito grande, não em tamanho, mas em profundidade e de que meu pensamento lógico não conseguia formar uma apagada ideia.

Assim, encontrei-me neste estado, não sei se no corpo ou fora dele, não sei se dormindo ou acordado, pois já não conseguia separar o real do irreal, assim. Neste estado, certa vez tive uma visão: estava diante do espelho e ouvi, saindo de dentro de mim, pelos olhos (única janela ainda aberta para o exterior em que não havia chagas, apenas dois buracos enevoados), uma voz que ora parecia ser a minha, para logo em seguida, misturar-se com outras. Foi quando ouvi um som que me pareceu de trombeta e que saia do meu interior como a voz de muitas águas caindo:


  1. “Sei bem o que queres, já descobri teu novo ardil. Prostrado está esse corpo sobre o leito por causa de nossa luta. Deixaste-o com uma pergunta sem resposta e o pensamento confundiu-se e o corpo caiu extenuado. E então tomaste as rédeas e colocou outro pensamento em sua mente, um pensamento de que não adianta lutar nesta vida, de que não há felicidade, de que não há solução e o que existe é nada e confusão e desespero e um debater-se em vão – falaste certo, pois falaste do que é próprio de ti, pois és o pai da mentira. Mas, como sempre, cometeste um erro: esqueceste que todo ser humano é habitado por um espírito, que pode ser de luz ou de trevas e este esta ocupado pelo de luz, embora, por causa de nosso confronto, pareça ser de semiescuridão; e enquanto te preocupavas em trazer a confusão a este ser, eu me fortalecia na fonte de água viva desde o nosso último encontro e agora eis-me aqui novamente. Se nosso confronto impede que este homem coordene o pensamento, farei com que ele narre nosso encontro, segundo seus símbolos. E tu, espírito de Asmodeu, não selarás as palavras desta boca e nem prenderás a mão que as escreverá. O corpo está fraco, mas narrará, mesmo sem o saber, para que todos saibam e fiquem conhecendo o que é o tormento de uma mente dividida. Tal escrito parecerá estranho, extremamente estranho, beirando mesmo as raias do absurdo e da loucura, pois esta, a loucura, é a mente dividida. É necessário saber que se trata de uma luta travada no interior do ser, uma luta entre a Luz e as Trevas, entre a Alegria e a Tristeza, entre o Bem e o Mal... entre Deus e o Diabo e, por isso, nem sempre inteligível – pelo menos por enquanto. É a luta da Vida contra a Morte. É o retrato em preto e branco do que acontece dentro de cada ser humano, sempre que tiver que escolher entre dois valores... Deus e o Diabo lutam por almas, destruindo corpos. Durante a transcrição deste combate, a disputa pela posse desta alma não cessará e por isso a escrita oscilará entre a extrema lucidez e também – infelizmente – a extrema escuridão e incompreensão. Não sei em que estado ficará este corpo material depois de finda a batalha, mas haverá orgulho por parte do autor que escreve, e também um sentimento de vitória por ter o privilégio de estar parcialmente consciente, nesta vida terrena e passageira, daquilo que é vedado conhecer à maioria dos mortais: a luta entre o Bem e o Mal. Esta mente dirá com orgulho: 'que se realize em mim a tão atroz e antiga disputa; sinto satisfação – ele dirá nesta sua narrativa e nas posteriores – e agradeço ao Senhor da luz o privilégio de poder presenciar como as coisas acontecem, verdadeiramente, dentro de cada ser humano'.”


25 de agosto
Agora sei que estou são, pois tenho medo de ficar louco. Quando minha mente é atacada por espíritos malignos, o espírito de luz que em mim habita vem em meu socorro. É uma coisa horrenda ser o campo de luta onde se trava a batalha pela posse de minha alma. O doutor Inglaterra disse que uma pessoa louca não consegue escrever seus próprios pensamentos; se é verdade, então eu não estou louco. Isso me faz lembrar que o meu editor não me tem mandado o pagamento pelos meus escritos que tenho lhe enviado.

26 agosto
Percebo que a poesia não passa pelo intelecto, ela sai direto dos rins e do coração para o papel. Hoje recebi um e-mail contendo um poema; fiquei com medo de abrir porque minha boca começou a sangrar e apareceu um furúnculo logo abaixo de meu olho esquerdo; dói, mas eu não sei se quero chorar. Abri o e-mail e constatei que eu estava certo: era uma mensagem do Diabo. Respondi imediatamente com aquilo que me ocorreu no momento. Acho que minha missão começou hoje. Os meus inimigos serão os da minha própria casa.

27 de agosto
Mandei hoje a resposta para o Diabo; não coloquei endereço porque ele já sabe o que está escrito. Tenho uma cópia do e-mail e vou transcrevê-la neste meu diário. Ei-la:
'Neste mundo... Acreditar que a moeda só tem uma face é estar vulnerável à outra! Se no tempo presente uma prevalece sobre a outra, é para mostrar que em toda afirmação está contida sua negação! Neste mundo... Se andarmos na escuridão, é porque desconhecemos a luz; quem é da noite, anda nas trevas, quem é do dia, anda na luz. Existem os que querem mais do que a luz comum! Existem os que buscam a luz plena e já a vislumbraram; estes trazem no peito o escudo em espelho e contra tais as trevas não prevalecerão! Chegará o dia, e agora já é, em que deixaremos de ver somente as aparências e em espelho! Neste dia, e agora já é, conheceremos plenamente, como plenamente já somos conhecidos! E este dia chegou, e este dia já é... E nos veremos face à face e o som da primeira trombeta já soou! Está declarada a batalha da Luz contra as Trevas e contra aquela, estas não prevalecerão! Os despojos pertencem ao Vencedor! E para a alma que das trevas será libertada, tudo se fará luz! A morte foi vencida! O clarim da batalha já soou. '

28 de agosto
Leio bons livros e a cada dia que passa, à medida que vou escrevendo, caracterizando os personagens, vou, ao mesmo tempo, percebendo com mais fineza os caracteres das pessoas que conheço. Não posso dizer que as acho mais bonitas interiormente; o que tenho achado é mais tristeza e poucas alegrias, sendo estas passageiras, fruto de pensamentos fugazes que hoje valem e amanhã já não prestam mais.
Definição de Homem: um sonho que uma personagem de uma narrativa está sonhando.

29 de agosto
Hoje lavei o meu quarto para ver se consigo melhorar o “clima” dentro de minha cabeça. Eu poderia explicar agora qual a relação que uma coisa tem com a outra, mas estou sentindo muitas dores por causados furúnculos que apareceram atrás a orelha e debaixo do queixo; também não escrevo, porque, quando abaixo a cabeça para escrever, o papel fica todo pingado de sangue; qualquer dia, em qualquer hora, coloco novamente a situação diante de uma personagem e aí ela que se preocupe com as explicações, justificativas ou seja lá com o que ela quiser. E pronto.

30 de agosto
Tenho andado com minha atenção desperta desde que recebi aquele e-mail desafiando-me para lutar pela posse de minha alma. O desafio foi aceito.
Tento não me irritar e nem deixar que este espírito do mal me distraia de meu ofício. Devo procurar conhecer bem as maneiras de que se utiliza para melhor poder escrevê-las em meus livros que não devem falar do particular, mas do universal. Mas é difícil para meu intelecto apreender o que está acontecendo na esfera espiritual.

31 agosto
Uma coisa estranha aconteceu hoje de manhã: sai para comprar um livro sobre os mitos da antiga Ásia e que há tempo encontrava-se esquecido e empoeirado na prateleira de um antigo Sebo e ele havia desaparecido; indaguei do dono e ele não se lembrava de ter aquele livro na livraria. O que me dirá esse livro? Devo ser cauteloso em meus julgamentos. 'Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos. '

32 agosto
Terminei o meu noviciado no dia em que fiz oitenta e dois anos; foi o tempo que levei ouvindo, vendo e aprendendo. Agora, sinto que estou sendo submetido a provas para saber se sou digno de tornar-me um Iniciado. Por outro lado, sei que isto não depende de mim; sou apenas terreno de peleja. A primeira prova já veio; outras mais virão e eu não sei se passei na primeira. Desde ontem sinto que meu espírito descansa; há calmaria dentro de mim, mas não sei se o inimigo se prepara para outro ataque. Digo “inimigo” porque as provas para a iniciação constituem-se de enfrentamentos com as forças do mundo inferior: ou se é derrotado e aí – ai de mim! - ou se é vitorioso e inicia-se uma nova fase. Estou em estado de alerta. Porém, sei que de nada adianta eu me preocupar, porque na hora da peleja, será o espírito divino que em mim habita quem irá lutar. Eu, por mim mesmo, nada posso fazer, só me resta esperar.

33 de agosto
Sinto que o inimigo está à espreita, como fera acuada. Talvez o ataque venho hoje ou amanhã. Se vier hoje, estou atento, porém volto a dizer para mim mesmo que quem está escrevendo estas palavras não é o espírito divino que em mim habita; quem está alerta – atitude vã – é minha mente, minha razão, meu intelecto – arma inútil e, às vezes, até aliada ao mal. Quem tem ouvidos ouça o que o espírito diz ao seu templo humano.

34 de agosto
Urinei na cama durante a noite passada. Acho que o espírito divino, durante a luta, abandonou o meu corpo, deixando-me à mercê do espírito infernal, que fez com ele o que quis, para mostrar o seu poder e a sua força. Não sei o que aconteceu durante o sono. De qualquer maneira, hoje, a minha consciência não me acusa de nada, isto é, o demônio não me flagela. Estou bem.

35 de agosto
A luta, que parecia haver cessado, continuou no silêncio, impedindo-me de fazer qualquer coisa. Queria chorar, mas “ele” não deixa; tenho medo e sinto dor. O pai da mentira usa pessoas inocentes, entrando em seus corpos e fazendo com que elas, sem o saberem, trabalhem para ele. Seu objetivo é ganhar a alma. Agora me ataca diferente, não é mais cara a cara; agora, tira minhas forças criativas, enfraquecendo meu corpo e minha mente, tomando conta de minha alma. Quem virá em meu socorro? Ó Espírito Divino, senhor dos céus e da terra, Deus todo poderoso! Vinde em auxílio de minha alma; livrai-me dos espíritos infernais dando-me o poder de exorcizá-los! Fortalecei minha alma levando-a para mais perto de vossas asas protetoras e então terei forças para continuar a lutar. Vinde em meu socorro, não me deixeis naufragar novamente! Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?!”.


Estas anotações, em forma de diário, foram encontradas dentro da gaveta de “escritos não concluídos...”; tenho a certeza de que não as escrevi antes daquele dia onze de junho, mas a caligrafia é minha. Além do que acabei de contar, só uma coisa mais resta a narrar e que me devolveu a alegria de viver: o que senti um pouco antes de abrir os olhos. Neste momento, senti meu corpo todo ser sacudido e depois ser suspenso no meio da escuridão das trevas do que me pareceu ser o Abismo e nem o meu próprio corpo, eu conseguia enxergar. A única certeza que eu tinha era a de que havia um pensamento e esse pensamento era eu; sentia que era fortemente puxado para cima e para baixo; senti o que acho ser meu próprio corpo ser partido ao meio; no mesmo instante, uma voz vinda de dentro de mim gritou, não para mim, mas para outro alguém que estava fora de mim: “que temos nós contigo? Vieste destruir-nos? Bem sabemos quem sois”. E logo em seguida ouvi uma grande voz, como a voz de muitas águas, que imperativamente falou: “cala-te e sai dele!”. Foi então que senti meu corpo sendo convulsionado pelo que falara primeiro e que, gritando com grande voz, foi arrancado de dentro de mim e jogado de volta ao Abismo. Neste exato momento, abri os olhos e senti uma grande paz e vi que estava deitado em minha própria cama e tinha as vestes rasgadas e sujas de sangue, mas por baixo delas, o meu corpo estava são.

Levei as mãos ao rosto e, então chorei.



EP. Gheramer

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E o HOMEM criou deus





A Bíblia relata que Jesus veio instaurar uma nova etapa na evolução da humanidade - a etapa Espiritual! Parafraseando as lendárias palavras de Buda: “A noite do erro deixou de ensombrar a alma do homem: levanta-se no horizonte o sol da sabedoria; estão aferrolhadas finalmente as portas que levam à existência angustiosa e miserável; patenteia-se a estrada do céu.".
Oh! Como é enganosa a ideia que fazemos de nós mesmos, como seres humanos que somos. E, se isso é verdadeiro, como poderemos transcender a condição por demais superficial e artificial que é a condição humana? E como essa condição, enquanto aceita passiva e resignadamente, impede o homem de ter experiências em esferas mais altas, infinitas e eternas do viver pleno para o qual foi destinado originalmente?
Chegamos a um ponto de altíssimo desenvolvimento tecnológico. A Ciência penetra em todos os campos do conhecimento humano - quer na exploração das profundezas dos mares, quer na exploração do espaço sideral. No entanto, ainda é pouco, ainda é muito pouco. Encontramo-nos neste ponto. Não há mais aventuras a serem empreendidas pelo homem. E a população aumenta e o mundo vai ficando pequeno demais e podemos até pensar que chegará o dia em que seremos tantos, que a cada um caberá um metro quadrado, se tanto. Aí então, se entredevorar-se-ão mutuamente. Aliás, já podemos perceber os prenúncios de tal estágio no presente. Porém, há um mundo quase que totalmente desconhecido ainda, que é o nosso próprio mundo interior. Houve um ponto na história em que o homem errou o caminho e enveredou - para não dizer escolheu - pelo caminho que nos levou até este ponto em que estamos. Dirão alguns que a Psicologia, já há muito tempo, nos descobriu este mundo. Mas, não é deste mundo que desejo falar, pois ele é demasiadamente humano. Então de qual "mundo" estou falando? E se existe como chegar lá? Há algo lá? É possível?... O que nos é desconhecido instiga nossa curiosidade e nos enche de perguntas. Que bom que é assim.
Apesar de todo o progresso da Ciência, do Saber, da Técnica que o homem possui, é pouco... Quase nada se tem conseguido para chegar a este Mundo do qual estou falando. O instrumental que o conhecimento humano nos proporciona não é suficiente para alcançá-lo. É preciso, antes, transcender este cárcere conhecidos sentidos humanos para começar a entrar em contato com a plenitude a que temos direito. Chega de viver uma vida monótona, cheia de tédio e de insatisfação, enfim, uma vida que não é Vida! O tato, o olfato, o paladar, a audição, a visão e o sentido somestésico são apenas alguns dos sentidos que conhecemos e desenvolvemos e, por isso, só conhecemos o que nos permitem tais sentidos. Aí então, vamos vivendo a nossa vida como se aquilo que percebemos fosse a verdadeira Realidade.
Porém, e isso é fundamental, possuímos muitos sentidos além dos que usamos; são dezenas, centenas, milhares... Somos um corpo inteiramente sensitivo, voltado para a recepção de todas as forças e energias do universo e, no entanto, ficamos restritos à meia dúzia de maneiras para apreender a Realidade e, então, com estas mínimas, vulgares, quase desprezíveis percepções forjamos, para nossa própria segurança psicológica, uma realidade falsa e por isso, mentirosa e enganadora e, portanto, irreal! Mas alegremo-nos! Já é possível dar o salto para uma Evolução Criadora, aliás, este salto já foi dado e está a nossa disposição há mais de 2000 anos. Como assim? Quem deu esse tal salto? - Alguns podem estar se perguntando e alguns outros já sabem a resposta.
Há dois mil anos atrás, mais ou menos, Jesus deu este salto e deixou o caminho aberto para quem quiser. O caminho para uma evolução criadora, para uma vida plena e abundante. Ele nos abriu as portas do Reino de Deus, embora tal Reino já estivesse dentro de nós, mas era preciso que Ele viesse para nos abrir a porta. Trata-se do Salto Espiritual.
Uma enorme interrogação surge em nossas mentes: "Se a porta foi aberta há dois mil anos por que não foi vista?”. E eu respondo - ela foi vista, por poucos, é verdade, mas foi vista.
Não foi vista por todos porque a interpretação dos judeus - Jesus era judeu - a respeito do Reino de Deus era somente terrena, por demais de acordo com a natureza humana, sem nenhuma centelha divina aparente ainda não se evidenciara, mas com a chegada do Messias, começou a manifestar-se no interior do homem e já podia começar a acender-se. Deus não pensa pequeno, como nós.  Então é preciso deixar este Reino que está dentro de nós, manifestar-se como tal: ESPIRITUAL! É o Espírito que fala de agora em diante, deixando a estreiteza do pensamento humano e penetrando na largueza do pensamento divino. Embora ainda num corpo material, não deve ser mais a matéria (os sentidos) que continua a falar apenas. Que se dê a palavra ao Espírito, ao imaterial que, na verdade, sempre esteve em nós, animando o corpo humano material - é o sopro da Vida, dado pelo Criador desde o início dos tempos, mas que somente com o advento de Jesus - e através dele - passa a manifestar-se, pois, antes d'Ele, vivíamos sob o domínio da Lei, dada por Deus e escrita em papel perecível - éramos apenas carnais. E somente com a Lei era impossível dar o salto para o Espiritual – o salto no absurdo da fé.
Com o caminho já aberto por Jesus, um novo pacto foi feito, com a boa notícia trazida por Ele. Isso se tornou possível - o Reino de Deus chegara para habitar dentro de nós. Diante de tal Reino, de tal maravilha, somente nos resta apontar nossos passos para trilhar este Novo Caminho que, por ser novo, pode muitas vezes ser mais difícil caminhar - e até mesmo encontrá-lo -, porque o ser humano prefere o velho caminho no qual já está acostumado, apesar de irreal; estamos, ouso dizer, como que viciados no velho e largar um vício não é fácil, principalmente por tratar-se do que se trata, ou seja, deixar a maneira material de pensar a vida, solidificada por milênios de tradição, para abraçar o Novo Caminho - o do Evangelho - o qual só pode ser trilhado andando pelo Espírito. Mas isso não é difícil para aquele que se dispuser a colocar-se nas mãos sempre estendidas do Espírito Santo de Deus. E elas estão sempre estendidas aos homens, pois, fomos criados segundo os propósitos de Deus, para sermos a sua mais preciosa obra, à sua perfeita semelhança.
Qual é a ideia que fazemos de Deus? Ela tem sua origem em nossa parte humana ou divina? Material ou imaterial? Será que fazemos Deus à nossa imagem, como faziam os gregos com os seus deuses? Se o fazemos, então devemos apagar o que está escrito em Gênesis, capítulo 1, versículo 27 e, em seu lugar, escrevermos "E o Homem criou deus à sua imagem...". Outra pergunta se impõe: Em que tipo de Deus quer que acreditemos? É aquele criado pelos homens religiosos e que pretendem encerrá-lo num templo físico, erroneamente chamado de igreja?
Não é tarefa fácil responder a estas perguntas. Porém, não nos esqueçamos de que tal como os discípulos que no princípio acompanhavam Jesus e viam tudo o que Ele fazia, custaram a perceber que Ele era o Messias, quão mais difícil é para nós, hoje, perceber isso. Assim, não desanimemos porque, há seu tempo, Ele se revelará àqueles que o procuram. Apenas tenhamos paciência - o Tempo de Deus não é igual ao tempo do homem.
Deus se mostra aos poucos - ele usa conta-gotas!

EP. Gheramer
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PRESUNÇÃO





Lucas 21. 29-36

O Quebra-cabeça há muito estava montado. Mas, uma única peça ficara fora do tabuleiro e para ela não se achava lugar. Somente o seu inventor poderia saber por que assim o era. Mas, quem conhecia a mente dele? Quem primeiro deu a ideia a ele para que possa lhe dizer?
E quanto àquela peça sozinha, sem lugar para ela no grande tabuleiro da vida? Ela sentiu até medo de pensar. Mas é natural que sentisse. Tinha medo de expressar o que pensava daquilo tudo. Mas, se estiver certo seu pensamento? Não, não pode ser... É loucura pensar o que pensava – dizia para si mesma.  Mas o que pensava? Será possível ao ser mortal conhecer ou sequer imaginar o que é ser imortal?  Ter a vida eterna?

O Cristo conhecido é o próprio Anticristo! Como escapar do desespero causado por este pensamento? Somente será livre se receber, por revelação do próprio Deus, que esse é o Cristo pregado pelas religiões criadas pelos homens, só assim poderá se ver livre da agonia de uma existência deslocada. Satanás é tão astuto que deixou nas religiões a mentira de que o Anticristo um dia chegaria ao mundo quando, na verdade, ele sempre esteve no mundo, desde um tempo que não se consegue imaginar. Neste caso a palavra bíblia deve ser escrita com letra minúscula porque, na verdade, não é a palavra de Deus, é a palavra do Diabo!

Neste caso, que o Verdadeiro Deus ajude ou destrua o justo, pois, ele pensa contrariamente ao que toda a espécie humana pensa e acredita desde sempre. Mas a situação pela qual a Humanidade está passando e sempre passou, só pode ser fruto diabólico! Não é parecido com o belo e prometido narrado na Bíblia.

De cabo a rabo a Bíblia descreve a desgraçada vida do homem sobre a face da terra. Segundo ela, tudo teve seu início no Éden, quando o ser humano preferiu acreditar nas palavras do ser maligno que lhe dizia que não morreria se comesse da árvore do Conhecimento, antes, pelo contrário, teria o mesmo Conhecimento do Bem e do Mal, seria como o próprio Deus.

Desde então, desprovido de sua imortalidade, o homem foi lançado fora do tabuleiro edênico e desde então vive como peça deslocada porque fora do belo quebra-cabeça. Não encontra lugar para si e é obrigada a enfrentar e aceitar sua mortalidade. Seu nome é Presunção e toda sua existência seria pautada pelo falso conhecer do que é o Bem e o Mal. Assim, e até os dias de hoje, todo seu julgamento parte de uma premissa falsa que é a de possuir o verdadeiro Conhecimento. Por toda a Bíblia encontramos o homem desgarrado de Deus e praticando o mal, achando que pratica o bem. O conhecimento que possui é falso porque veio do pai da mentira.

E tudo vem se repetindo, desde então. Também foi assim nos dias de Noé e depois dele, quando aqueles que saíram da arca continuaram a praticar o mal pensando que faziam o bem, pois, ainda carregava em sua natureza o mesmo falso conhecimento. E a morte continuou a reinar!

Estamos na Primavera e logo aparecerão as flores em toda a sua exuberância. Afinal, é a estação das flores e o anúncio da chegada do verão.

Na leitura do texto de hoje, Lucas fala na forma de parábola, sobre a vinda do reino de Deus. Ele nos adverte para que tenhamos cautela; para que os corações dos discípulos não fiquem “sobrecarregados com as consequências da orgia, da embriaguez e das preocupações deste mundo”, para que a sua vinda não venha “sobre nós repentinamente, como um laço, pois há de sobrevir a todos os que vivem sobre a face da terra.”.

Mais uma vez a história se repete. Mais uma chance é dada ao homem. Não posso deixar de imaginar o profundo sofrimento contido no lamento de Jesus-homem e Deus quando, do alto de um monte e tendo à sua frente Jerusalém, ele diz:


“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que a ti foram são enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que a vossa casa vos ficará deserta. Declaro-vos, pois, que, desde agora, já não me vereis, até que venhas a dizer: Bendito o que vem nome do Senhor!”


Como das outras vezes, nos é oferecido uma escapatória: devemos vigiar e orar para estar em pé quando ele vier.

 Voltando um pouco, ainda em Lucas, encontramos a chamada “Oração Sacerdotal”, onde Jesus pede ao Pai, referindo-se aos seus discípulos: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guarde do mal.”; e mais: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio de sua palavra.”.

Como vimos no texto do dia 13 passado, esse dia virá como um “relâmpago, fuzilando” e brilhando de “uma a outra extremidade do céu.”.

Mas o homem, ainda carregando a sua presunção, não tem paciência para esperar e diz consigo mesmo: “meu senhor tarda em vir” e continua praticando a maldade. E, como nós que vivemos hoje, os discípulos queriam saber quando ele voltaria. E a resposta é a mesma: “Cuide que não sejais enganados”. Mas, pela sua misericórdia, ele nos diz que “Levantar-se-á nação contra nação, e reino contra reino; haverá grandes terremotos, epidemias e fome em vários lugares, coisas espantosas e também grandes sinais do céu.”. E mais: Antes, porém, “lançarão mão de vós e vos perseguirão... E sereis entregues até por vossos filhos, irmãos, parentes e amigos..., Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; sobre a terra, angústia entre as nações com perplexidade por causa do bramido do mar e das ondas; (...) Os poderes dos céus serão abalados. Então se verá o Filho do Homem vindo numa nuvem, com poder e grande glória. Ora, ao começar a suceder, exultai e erguei a vossa cabeça; porque a vossa redenção se aproxima.”.

Ora, de todos os sinais acima, qual - ou quais - ainda não se vê? Sim, porque quase todos eles já acontecem nos dias de hoje; não há quem ligue a televisão ou olhe à sua volta e não veja o que já acontece. A corrupção de Israel, relatada pelo profeta Miquéias, não é diferente da que vemos nos dias de hoje no mundo todo.

Os complicados estudos e comparações feitos pelos estudiosos dão a entender que os discursos pronunciados por Miquéias foram feitos após o ano de 722 a.C. Não obstante, é impossível datar com exatidão seus discursos.
As injustiças sociais eram notórias nos dias de Miquéias – nos dias de hoje - e por esta razão já ia surgindo no horizonte profético a ameaça do exílio babilônico do povo de Israel.

Entre os pecados por ele denunciados no seu tempo, podemos salientar os seguintes: a idolatria, a cobiça dos nobres que se iam apossando dos campos dos pobres; a desconsideração para com os direitos da herança; visitantes estrangeiros eram assaltados e roubados. Infelizmente, são os mesmos que vemos nos nossos dias. Porém, o pior de todos os pecados denunciados por Miquéias era a prática de sacrifícios humanos! (Miquéias 6.7 e II Reis16. 3 -40).  Já no seu tempo Miquéias nos diz que “pereceu da terra o piedoso, e não há um entre os homens que seja reto; o príncipe exige condenação, o juiz aceita suborno, o grande fala dos males da sua alma.” E nos aconselha: “Não confiais no amigo, nem confiais no companheiro. Guarda a porta de tua boca àquela que reclina sobre o teu peito. Porque o filho despreza o pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra a sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa.” - o mesmo acontece hoje!  Qualquer semelhança com os dias de hoje não é coincidência.

Eu, na minha falta de conhecimento, penso que só falta surgir “grandes sinais do céu.”. Então eu saberei que chegou a hora.


Ah, Homens com suas Religiões! Quantos males causam com sua Presunção!

Esta será a última vez?

A Bíblia diz que sim.


EP. Gheramer

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Por que me desamparaste?



Lucas 24. 44 – 45

“Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os morto no terceiro dia...”.
Hoje o espírito de Benjamim está abatido e, por isso, escreveu em seu diário:
Lendo o texto acima, eis fico espantado com ele porque, em todos os evangelhos e por muitas e muitas vezes, Jesus dissera que “deveria padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia.”. Pois bem. Somente agora, Jesus “lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras” – “o que estava escrito na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos sobre Jesus.”.
Somente agora compreendo os momentos de admiração experimentados pelos seus discípulos, diante dos milagres realizados por Jesus em suas presenças. Penso que, na verdade, eles não tinham a certeza de que Jesus era o enviando prometido lá no Antigo Testamento. E por quê? Porque eles tinham o entendimento fechado para compreenderem os prodígios realizados por Jesus. Somente mais tarde, um pouco antes de ser crucificado e morto, é que Jesus “lhes abriu o entendimento.”. Disso se conclui que se Deus não quer que entendamos muitas das coisas que nos acontece na vida, nós ficamos com o entendimento fechado - por vontade dele.
É assim que me sinto em relação a certas coisas que acontecem na minha vida – estou com o espírito fechado. E fechado por Jesus e, portanto, ninguém pode abrir senão ele.
Pela existência e comportamento de uma só pessoa em minha vida, eu sofro e me angustio e, por mais que peça que ele, em sua misericórdia, tome a vida dessa pessoa em suas mãos e resolva-a para mim, ele não a soluciona. Que mais devo eu fazer, se tudo já fiz para ajudar essa pessoa e não o consegui. Está além de minhas forças, de minha capacidade.
Este é um lamento por constatar minha impotência para solucionar o problema. Já lhe confessei inúmeras vezes sem obter uma resposta.
Esta não pode ser a cruz que tenho que carregar para poder segui-lo. Penso assim porque se a cruz é minha, por que ela envolveria o sofrimento de uma segunda pessoa?
Se nas Escrituras estão todas as respostas e eu ainda não a encontrei, só me resta acreditar que meu entendimento ainda não está aberto para compreender.
Benjamim fechou a página do dia de hoje.


EP. Gheramer

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Como o Relâmpago


Mateus 17. 20 – 37

Quando será? Como será? Onde será?

Quando virá, não sabemos. Sabemos como virá: “Assim como o relâmpago, fuzilando”, ele brilhará de uma extremidade à outra no céu e, em outra parte é dito que “Todo olho o verá.”. Ora, se fossemos “terraplanistas”, isto é, se acreditássemos que a Terra é plana e não esférica, ficaria fácil entender que todos os homens, em qualquer lugar em que esteja o verão.

Por outro lado, nos é dito que ele não virá com “visível aparência”. Isto me leva a pensar que não será de forma material, mas, sim, de forma espiritual e, também, não virá de fora, pois, nos é dito que ele “está dentro” de nós. Assim,  penso que está presente em todos os homens, sem qualquer tipo de distinção – seja de raça ou crença e outras.

Acontecerá num dia em que não sabemos. O que sabemos é que estaremos no meio de nossas atividades diárias comuns: comprando, vendendo, comendo, falando, casando, jogando na loteria, tomando sorvete, comendo pizza... Enfim, tudo aquilo que fazemos cotidianamente. E, então, “bum!” – ele virá!

Se “está dentro” de nós ele virá para fora de nós. Mas, com tal afirmação estamos supondo o homem é formado “de corpo e espírito”; e podemos pensar que o espírito sairá e, uma vez supondo que é ele, o espírito, que anima e dá vida ao corpo, restará o corpo sem vida. Em assim acontecendo, este corpo – que é a parte material do homem - sem vida apodrecerá e, como é dito no fim do texto de hoje, “Onde estiver o corpo, aí se ajuntarão os abutres.”.

Fico a imaginar os bilhões de corpos apodrecendo sobre a face da Terra...

Será que a união dos espíritos humanos encontrando-se com Deus, que é Espírito, será o “reino de Deus”?
 
O texto de Mateus nos conta que Jesus nos adverte para que, quando ele se manifestar, os aqueles que estiverem no terraço não devem descer para pegar seus pertences; quem estiver no campo não deve voltar para casa; dois estarão deitados na cama e um será levado e o outro será deixado (seu espírito?). E por quê? A resposta, segundo nos relata Mateus, é dada por Jesus: “Quem quiser preservar a sua vida, perdê-la-á; e quem a perder de fato a salvará.”. O que estas palavras, na verdade, querem dizer? Voltando ao texto do dia 4 de setembro, eu leio: “... já consegui saber que esta crosta de personagens e fantasias que vesti até hoje, não sou eu; esta crosta é o “si mesmo” de que fala Jesus. Este não sou eu.”. É do “si mesmo” que Jesus nos fala, esta é a “vida” que não devemos querer salvar, pois, se o quisermos, nós perderemos a verdadeira vida, o nosso verdadeiro “eu” -  o nosso espírito.

Por hoje, fico por aqui; um dia de cada vez...

EP. Gheramer




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Negar a Si Mesmo


Mateus 16. 24

“Então disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.”.

Benjamim vem meditando nestas palavras desde o dia primeiro de setembro e está se sentido muito confuso. Num passado distante, ele escrevera em seu diário:
Afinal, quem sou eu? Quem eu fui? E a resposta é que nunca fui eu mesmo. Vivi papéis, interpretei personagens, aliás, muitos personagens, mas nunca fui eu mesmo.
Desde cedo em minha vida, logo depois de nascer, comecei a vestir fantasias e a interpretar papéis. Comecei a ser personagem, um depois do outro, e foram tantos que, hoje, olho para trás numa esperança de me achar e não encontro nada. Perdi, deixei escapar a chance de viver a minha própria vida; nunca fui eu.
E falando sobre onde vou buscar material para meus escritos, continuei:
Encontro o material para meus escritos no interior de mim mesmo, onde está a essência que anima meu corpo material. É aí que vou buscar o conteúdo de minhas obras, através das quais procuro revelar que é extremamente superficial e radicalmente enganosa a ideia que o ser humano faz de si mesmo. Nos textos procuro mostrar que não somos nada daquilo que pensamos ser; que nada daquilo que já se escreveu ou pensou até hoje, se aproxima da Verdade. Antes, o homem está se afastando cada vez mais dela. É acreditando nisso que vou até esta região abissal, que promete o supremo prêmio do encontro comigo mesmo, saindo da pasmaceira enfadonha e tediosa, na esperança de encontrar a Verdade que me libertará.
Ser personagem é fácil, difícil é não ser.
Mas eu não desisto e continuo a me procurar. Só uma pergunta me encanta: quando chegar a hora de me encontrar, como reconhecerei que sou eu se nunca fui eu de verdade?
Uma sensação de desperdício me acompanha ao mesmo tempo em que a esperança ainda teima, desesperadamente, de esperançar.
***
Pois bem. O tempo passou e sinto que hoje encontrei comigo mesmo, com o eu que nunca fui e, confirmando o que já escrevera no passado, não reconheço este eu que encontrei, porque nunca o fui de verdade - sempre fui o “si mesmo”.
Refletindo nesta passagem em que Jesus disse a seus discípulos: “se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.”.
Pois bem, quero seguir a Jesus porque, segundo sua promessa, quem o seguir terá “vida e vida em abundância”. É justamente isto que desejo: viver plena, abundantemente, mas, segundo a passagem de hoje, primeiro é preciso “negar a si mesmo”. Estou tentando e já consegui saber que esta crosta de personagens e fantasias que vesti até hoje, não sou eu. esta crosta é o “si mesmo” de que fala Jesus. Este não sou eu.
Porém, ao despir-me desta crosta, para minha surpresa e espanto, não encontro nada, isto é, não encontro o eu que na verdade eu sou. Confirma-se o que escrevi décadas atrás: “quando chegar a hora de me encontrar, como reconhecerei que sou eu se nunca foi eu de verdade?”.
Sinto-me meio-triste porque já sei quem eu não sou: não sou esta crosta de personagens e fantasias que vesti durante toda a minha vida; mas, por outro lado, fiquei despido e sem saber quem eu sou.
Será esta a minha cruz? E que devo toma-la para depois segui-lo? Será que, ao segui-lo, finalmente descobrirei quem eu sou?
São perguntas que aguardam revelação.

EP. Gheramer



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Quem disse que seria fácil?


Marcos 15. 33 - 38

A mente de Benjamim busca a certeza de certas coisas e não tem mais paciência para fazer investigações e é francamente anti-intelectual na abordagem do conhecimento.
Quer que a revelação bíblica seja suficiente e perfeita. Mas, por outro lado, essa crença é algo semelhante a um dogma, ou seja, ter que aceitar isso como certo e indiscutível, cuja verdade deve ser aceita sem questionamento... Benjamim não conseguia fazer isso! Não é isso que ele está buscando; ele anseia por um conhecimento perfeito...
Nos últimos dias, andava desanimado porque pensava que este tipo de conhecimento não deveria ser resultado de uma busca permanente, eterna, mas que fosse um ACONTECIMENTO único, DIVINAMENTE dado a ele.
Agora mesmo, leu no evangelho de Marcos quando ele fala da morte de Jesus: “Mas Jesus, dando um grande brado, expirou. E o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo.”. Benjamim ficou curioso em saber que “véu” era esse e por que havia se rasgado. Então, consultando sua Bíblia, lá no Antigo Testamento, descobriu que este era o véu do santuário que separava o lugar chamado “santo” do outro chamado “santo dos santos”. Ficou sabendo que isso aconteceu porque, ao morrer, Jesus entrara, de uma vez por todas, na presença de Deus e, com seu ato, abriu o caminho para todos os homens; não mais sendo necessária a intermediação de sacerdotes para chegar à presença de Deus.
Um pouco antes Marcos conta: “Clamou Jesus em alta voz: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. No passado Benjamim tivera variadas interpretações para tal grito, porém, nenhuma delas foi suficientemente satisfatória. Aliás, agora, nesta sua procura por Deus, já não bastava que fosse satisfatória – tinha que entrar e explodir em seu coração de modo PERFEITO!

Mas, quem disse a ele que seria fácil?!

EP. Gheramer


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