![]() |
| Arte: Linda Cornelius |
Ventos Cruzados
Labels:
Dulce Morais,
Pensamento
Ventos Cruzados
Há poucas coisas no mundo que podem aquecer o nosso coração. O sol da manhã, quando a geada da madrugada seca lentamente nas folhas da vegetação, o sopro de uma brisa de verão que vem trazer-nos um pouco do calor do deserto, um poema de amor declamado em voz alta, subir uma montanha que nos parecia inalcançável e compreender que, afinal, podemos muito mais do que pensávamos, e surpresas de amigos que não hesitam em tomar uma parte do que nos preocupa para aliviar o peso dos nossos ombros.
Há os livros também. Aqueles que, antes de nos transportarem para mundos desconhecidos através das suas linhas, atravessam eles próprios oceanos de águas claras para vir pousar-se nas nossas mãos com delicadeza.
E, porque todos esses presentes da vida existem, todos merecemos ser felizes. Encontrar esse equilíbrio frágil, muitas vezes, só depende de nós.
Dulce Morais
“A partir desse aprofundamento da respiração, costuma vir uma sensação de tranquilidade, de quietude e de ausência de preocupação e de ansiedade”
Eliana Leal in “Você Tem Obrigação de Ser Feliz”
Read User's Comments(5)
Fé
Labels:
Gilberto de Almeida,
Poema
Quando sou matéria,
nada posso;
e a força que possuo,
não vejo.
Quando sou matéria,
tudo quero,
nada tenho,
apenas medos.
Mas quando sou espírito,
tudo se revela,
Depois volto a ser matéria,
e nada quero,
tudo tenho,
Tenho força
e não há medos!
Gilberto de Almeida
(29/11/2014)
Mensageiros de felicidade
Labels:
Claudiane,
Prosa poética
A coruja especial olhou para a minha cara boba:
Meu coração fez cócegas...
O sorriso escorregou num tobogã,
parou em folhas de caderno
Fui arrebatada!
Prossegui
Precisava ir a caverna
mania
abri
―Poupa-me os pormenores replicou Diágoras, ̶ O que não compreendo é como tudo isso se relaciona com...(1)
Mocho verde de patas castanhas
Junto às fotografias da família
As palavras vindas além-mar,
no lado esquerdo do peito
ninguém as roubará
Claudiane Ferreira
Guimarães Rosa tinha razão quando dizia:
‘‘Felicidade se acha é em horinhas de descuido”
1) fragmento do 4º parágrafo, de uma página qualquer in " A Caverna das Ideias" - José Carlos Somoza
Obrigada por vocês fazerem parte da minha vida.
Para Fernando Pessoa
Labels:
Carlos Neves,
Poema
Há pessoas
que voam
Há pessoas
que fazem voar
É pessoa que vem
É pessoa que vai
E assim se voa,
De pessoa em pessoa
Voa-se voa.
LitoNazareth
Bumerangue
Art July Macuada
Com o tempo você internaliza o quanto é essencial espalhar ...
Energia emitida, energia recebida.
Claudiane Ferreira
INQUISIÇÃO
Labels:
Marco Tisi,
Poema
INQUISIÇÃO
Fazia mais
de sete meses que não chovia,
e então foi
a maior chuvarada,
destas que
há muito não se via,
como
consequência a cidade, mais uma vez
e como
sempre ficou toda alagada.
Pudera, a
cidade esta toda impermeabilizada,
e apesar da
grande estiagem,
a prefeitura
não fez com que ela fosse higienizada.
Então o
rádio noticiou :-
todos os
bueiros estavam lotados de “ santinhos “
da ultima
eleição, aquela que como sempre,
elegeu e
reelegeu os políticos de sempre.
Esses
dementes, que nunca pensam na gente,
mas pra “
eles “ essa noticia foi um acinte,
imagina
informar isso para o contribuinte.
De pronto, “
eles “ fizeram uma comissão,
e foram para
Roma falar com o papa,
em uma
grande delegação.
Lá
reunidos, com o papa,
reclamaram
do S. Pedro,
por ter
enviado aquela chuvarada,
na região
errada.
Sendo assim,
eles querem o S. Pedro
queime na
fogueira,
pois a
chuvarada não caiu na Cantareira,
la onde o
supra sumo da gestão governamental,
é fazer
obra emergencial,
pra
administrar terra e poeira.
Sobrou pra
S. Pedro, esses políticos
com seus “
colarinhos brancos “,
não admitem
ninguém atingindo seus flancos,
não querem
nenhum comentarista analítico,
fazendo
comentário critico.
E a
delegação foi pra Paris,
esperar a
decisão papal,
se S. Pedro
vai pra fogueira,
por não ter
a chovido na Cantareira.
Marco
Aurelio Tisi
( 26/11/2014
)
... Presente + ideia + amigas = haicais
Uma imagem + citação = presente
um presente + uma ideia + amigas = haicais
Singela carícia
Efêmera razão
Só intuição
Claudiane Ferreira
Não é o vento
Que faz passar o tempo
Sou eu. És tu. Nós
Dulce Morais
Passagem breve
Rosto desconhecido
uma marca fica
Isa Lisboa
BAÚ ILUSTRADO
Labels:
Marco Tisi,
Poema
BAÚ
ILUSTRADO
Tenho um Baú
Ilustrado,
nele tenho
Amigos que me são tão Caros,
são Poetas,
Escritores, Pensadores, Compositores,
e outros que
tais, mas Eles tem muito preparo,
eles estão
em forma de caricaturas,
pois Deles
tenho uma ótima Literatura.
Esses Amigos
Prediletos,
não são
Graduados servis,
e muito
Deles são
Auto didatas
meritórios,
que só
incrementam
meu
Território.
É um Baú
sem fundo,
nele cada
vez mais,
cabe todo
mundo,
deste mundo
tão fecundo.
Tais Amigos
são Imortais,
não são
datados,
e o que
deles extraio,
só me tem
tocado.
E com tais
Amigos,
percebi que
neste nosso
pobre mundo,
com muita tecnologia,
houve certa
melhoria,
mas em
matéria de coexistência,
há muita
desinteligência.
Gosto de
partilhar,
o que deste
tais Amigos,
cada vez
mais, me faz pensar,
e
incrementar um saudável Filosofar.
Agora muito
é virtual,
e muito dos
Amigos que tenho,
são de
ótimo astral,
e com Eles
compartilho,
o pensar dos
habitantes
do meu Baú
Ilustrado,
que muito me
deixa encantado,
para enfim
não nos deixar prostrado.
Marco
Aurelio Tisi
(24/11/2014
)
Ventos...
Labels:
Cris Campos,
Poema
desse teu par de olhos
perscrutador sobre meus azuis
menos ainda
porque fostes
num tempo remoto
meu descontrole
mas pra suportar a melancolia
dessa ideia quimérica
desvinculada
de qualquer realidade
colho tuas flores.
BORBOLETA TRISTE
Labels:
Crônica,
Maristela Ormond
BORBOLETA TRISTE
(Por
Maristela Ormond)
Esperei
tanto tempo dentro de um casulo.
Fui
crescendo, desenvolvendo, virando, apertando...
Minhas
asas que estavam por se formar doíam a cada movimento.
Tive
que encontrar um esconderijo, para que não fosse predada por uma maldade
qualquer.
Foram
fases doloridas da metamorfose até que um dia ela aconteceu e pensei: Vou sair
e conhecer o mundo. Um mundo tão colorido quanto minhas asas.
Quando
consegui voar pelo mundo, pousei de flor em flor, retirando o néctar da vida.
Encontrei
muitos predadores, precisei de uma boa camuflagem para sobreviver a eles. Mas o
maior predador que encontrei, disse-me um amigo, se chama homem.
Foi
dele que tive que fugir e voar para muito, muito distante...
Observei
lá do alto que esse homem, era muito cruel, não só comigo como para outros
seres e principalmente para com os de sua própria espécie.
Pensei
muitas vezes, porque ele seria assim?
Será
que o sofrimento de sua metamorfose foi muito mais dolorida que a minha?
Pousei
então em mais alguns lugares e observei o mundo que pensava colorido, mas não
me agradou o que vi e torne-me uma borboleta triste, por tudo que vi e aprendi.
Minha
vida é muito curta e por isso tive que partir sem compreender...
Tomara
que esse homem tenha uma vida mais longa e possa mudar algumas coisas.
Tomara
que ele possa retirar o néctar da flor e saborear o vento doce em seu rosto e que
perceba que por mais longa que seja sua vida, precisa viver sem ser predado
pelo outro, para voar cada vez mais distante para um lugar chamado Felicidade.
Viajante
Imagem: José Zuzza Suassuna de Oliveira
Às vezes somos sol; muitas vezes sal
Somos instrumentos musicais...
Às vezes afinados; muitas vezes desafinados
Somos parte do Universo...
Às vezes transbordamos milésimos de
porção divina; muitas vezes ficamos aprisionados na matéria.
Talvez,
Sol seja irradiar feixes de gratidão a
todos
Instrumento afinado seja propagar o mais
puro amor
Transbordar milésimos de porção divina
seja perdoar
E amanhã, quando tiveres que deixar a
casca do casulo ...
E amanhã, quando tiveres que deixar a
casca do casulo ?
“Viva as perguntas agora. Talvez assim,
gradualmente, você sem perceber, viverá a resposta num dia distante” 1
Claudiane
Ferreira
(1)
Rainer Maria Rilke
VENTO ENCANTADO
Labels:
Marco Tisi,
Poema
VENTO
ENCANTADO
A coisa esta
apocalíptica,
a falta
d'água é critica,
na torneira
não há mais substancia,
dela só sai
vento encanado,
então é
mágico
e transforma
o vento em encantado,
e na
torneira o que goteja é Poesia.
Goteja
Poesia,
pra não
ficar na agonia,
sede agora é
de harmonia,
e o banho é
de fantasia.
Mazela de
falta d'água,
falta arvore
na natureza,
desmataram a
sutileza,
acabou a
Nascente,
não há
mais rio fulgente,
o clima não
esta clemente.
Mas ficou
fácil justificar,
o não
gerenciar,
a culpa esta
dogmatizada,
o santo
ficou com a moral amaldiçoada,
por não
mandar a chuva precipitada,
e a água
que se procura esta contaminada.
Torneira com
nova função
de expelir
Vento encantado,
nesse viver
esfalfado,
pra amenizar
resignado,
daquilo que
se estava habituado.
Sede de
harmonia,
banho de
fantasia,
no vento
encantado,
pra dar
sobrevida
a Poesia.
Marco
Aurelio Tisi
( 16/11/2014
)
A solidão que o tempo vai deixando...
Labels:
Manuel Marques,
Poema
Aprisionada dentro do meu peito
a minha saudade tem um mar de recordações
desde que nos separamos o tempo nunca mais parou...
Mas não importa o tempo que nos separa
há um (a)mar que nos une
que importa o despertar
se na tua saudade
eu sinto o sabor salgado
da água dos teus olhos!
Contigo sonho e sofro
vives em mim
corres-me nas veias...
Manuel Marques (Arroz)
a minha saudade tem um mar de recordações
desde que nos separamos o tempo nunca mais parou...
Mas não importa o tempo que nos separa
há um (a)mar que nos une
que importa o despertarse na tua saudade
eu sinto o sabor salgado
da água dos teus olhos!
Contigo sonho e sofro
vives em mim
corres-me nas veias...
Manuel Marques (Arroz)
Dropar ...
Imagem Saquarema -
Fonte: http://www.superframes.com.br/
Procuro,
não enxergo a luminosidade.
O que colar no papel?
Se “o todo” do meu Eu , resolveu brincar de polícia e
ladrão
Procuro,
em meio ao oásis,
água para saciar, o destempero,
erguer mais uma vez a lona poética
Procuro
O
cantar da cigarra
Ouço o dó, o ré, o mi,
o fá (lar) é fácil,
quando o sol não se encontra entre nuvens.
A inspiração lá na zona de arrebentação
o si fugiu da (ci)garra
garra
Surfei
Dropar 1 a tal onda
Surfei
Dropar 1 a tal onda
Claudiane Ferreira
" Se não estranhas mais as ilusões da sorte
teu tinteiro conterá a vida e a morte."
teu tinteiro conterá a vida e a morte."
Hsu Yun
(1) Dropar, termo utilizado no surf, indicando a descida de uma onda, da crista até a base.
NÃO ACELERAR TANTO
Labels:
Crônica,
Maristela Ormond
NÃO ACELERAR TANTO
(Por Maristela Ormond)
Meu pensamento está tão
acelerado que às vezes acabo acreditando que estou ficando louca...
Essa pressa, ou fome de fazer tudo
muito rápido, está mexendo com as emoções, com a aprendizagem das pessoas.
Estamos num ritimo tecnológico à velocidade da luz e nosso cérebro está
assimilando tudo isso de forma voraz.
O simples fato de pegar numa caneta
para escrever e “comer” metade das palavras por engano, ops! Por engano ou o
pensamento foi mais veloz que o corpo? A coordenação dos movimentos não está
seguindo concomitantemente ao movimento cerebral.
A quantos megas bites está meu
cérebro? E o seu?
Dia virá que comandaremos máquinas
com os pensamentos sem haver razão para nos movermos para isso. Mas será que
tudo isso que está acontecendo com os seres humanos é saudável? Parece-me que
estamos numa crise de ansiedade sem retorno, pois a rapidez que nos envolve não
nos deixa retroceder. Seria como voltar ao período da idade da pedra e jamais
nos submeteríamos a tal coisa, pois temos pressa, muita pressa.
Às vezes fico observando a correria
das pessoas e me pergunto para onde iriam com tanta pressa, tanta ansiedade.
Atrás do quê?
Estamos ameaçando nossa saúde,
ameaçando nossa convivência com os amigos, ameaçando perder nossos familiares
em nome da ansiedade, em nome de correr atrás de algo que nem mesmo nos damos
conta.
Seria o momento oportuno de parar e
observar em pouco mais que viver está sendo uma necessidade primordial, pois vamos
acabar atropelados pela imposição a que esta sociedade consumista está nos
levando e se isso não acontecer, tropeçaremos em nossos próprios pés sem
sabermos por que caímos e aí sim, paramos, por força do destino, por força da
imprudência.
Tirar o pé do acelerador é a meta.
Objetivo maior vida mais saudável. Será possível?
OS DIAS E AS NOITES SÃO RETRATOS DE TUA FACE
Labels:
Josué Brito,
Poema
Por todos os dilúculos declamo, sabem os ventos
Que urgem... As noites insones que a poesia me
Toma... são deleites indizíveis que clamam em voz
Flama, desejando o coruscante tocar...
Mais curtos se tornaram os dias, tornou-se diferente
O tempo, não mais em horas conto minha história...
As memórias todas, conto a partir do dia em que eu
Conheci um amor tão intenso e tão meu...
Tonaram-se todas as auroras de um rosicler mais belo,
Refletem os céus teus olhos... Na possibilidade quando
Penso que não é razão é amor... acalenta todas as
figuras...
Por isso não me deixes na amargura de sonhar de forma
Tão turva... Se é tão grande o que sinto eu, se é eterno
tenhas
A certeza, que espero ser um dia ser o ar dos pulmões teus...
Josué Brito
Paredes
Labels:
Dulce Morais,
Poema
![]() |
| Imagem da Web Autor desconhecido |
Paredes
Juntam-se as pedras
uma a uma se reúnem
num monte indistinto.
uma a uma se reúnem
num monte indistinto.
Fabrica-se a argamassa,
com cuidado se misturam
os elementos conhecidos.
com cuidado se misturam
os elementos conhecidos.
Horizontalmente se organiza a construção,
em gestos experientes ou descobertos,
uma pedra untada da cola preparada,
uma outra sobreposta
ao mesmo tratamento submetida.
em gestos experientes ou descobertos,
uma pedra untada da cola preparada,
uma outra sobreposta
ao mesmo tratamento submetida.
Juntam-se as mágoas,
traições e desilusões
amontoadas com o tempo.
traições e desilusões
amontoadas com o tempo.
Fabrica-se o desgosto
misturado com a amargura
das palavras por dizer.
misturado com a amargura
das palavras por dizer.
Verticalmente se ergue o edifício
em gestos repetidos,
numa tentativa desesperada
de proteger-se
das consequências das ações
que outros tomaram por si próprios.
em gestos repetidos,
numa tentativa desesperada
de proteger-se
das consequências das ações
que outros tomaram por si próprios.
Se a parede pode proteger
das chuvas e dos ventos,
esqueceu o pedreiro
que são necessárias janelas
para pode ver o Sol.
das chuvas e dos ventos,
esqueceu o pedreiro
que são necessárias janelas
para pode ver o Sol.
Se o muro pode evitar
novas dores de chegar,
esqueceu o humano
que as esperança é indispensável
para continuar a viver.
novas dores de chegar,
esqueceu o humano
que as esperança é indispensável
para continuar a viver.
Dulce Morais
Alguém para ouvir
Labels:
Conto,
EP. Gheramer
Alfredo continuou falando.
- Eu, lá em casa, fui ensinado que em primeiro lugar, antes
de qualquer coisa, vinha Deus. O homem era nada comparado a Deus e só pela
bondade dele é que eu vivia. Cresci com a certeza de que somente o bem
triunfaria e que a mentira não prevaleceria sobre a verdade, apesar de às vezes
demorar; que os maus seriam castigados por suas maldades...
Enquanto ele falava, Samuel não pode evitar pensar em seu
próprio coração despedaçado e sangrando, depois que vira seu mundo ideal desfazer-se.
Um mundo povoado pelo bem, pela bondade e tudo o mais que fora ensinado a
querer e dar valor. Agora tinha diante de si um mundo que desmoronara e que,
embora trágico, prenunciava o surgimento de outro, pois, somente das ruínas
pode surgir o novo. O parto que estava se dando, tanto poderia dar à luz a um
monstro ou a um ser maduro, mas nunca a um ser angelical.
- Sabe, professor, quando eu saí de casa para estudar, eu
vim achando que tudo seria maravilhoso e que eu poderia ajudar as pessoas em
suas vidas tristes. Foi assim que deixei minha casa, meus pais e irmãos que
também precisavam de mim. Procurei doentes no mundo enquanto deixava outros na
minha casa. Mas, em breve vim a descobrir que também tinhas as minhas próprias
necessidades; eu sempre ouvia as pessoas, mas não tinha ninguém para ouvir-me.
Mais uma vez, Samuel se lembrou do tempo em que sua casa
estava cheia de pessoas, de amigos que o procuravam em busca de ajuda e, por
encontrá-la ali, voltavam no dia seguinte e no outro e no outro, de modo que
sua casa estava sempre movimentada e barulhenta e a cada dia parecia-se menos
com um lar. Tornara-se um ponto de encontro e tão logo essas pessoas eram saciadas
em suas necessidades, iam embora deixando cinzeiros sujos e um cheiro azedo de
vinho. E era nesta atmosfera que ele, sua mulher e filhos iam dormir quando a
noite chegava. E foi assim que seu lar foi se transformando em casa e esta em
um ponto de encontro e depois nada. E ele não percebia isso naquela época.
Procurava convencer-se que era melhor poder ajudar as pessoas. E agora, depois
que tudo desmoronou, ficara estampado em seu rosto o retrato daquele que sabe
consolar, dar apoio e incentivar. Quando seu casamento se desfez, quando o
ponto de encontro acabou, os amigos seguiram seus próprios caminhos e nunca mais o procuraram. Aquelas pessoas que eram tão confusas
que tanto precisavam dele, já não precisavam mais. A razão disso ele nunca
compreendeu.
Novamente sua atenção voltou-se para o que aquele rapaz
dizia.
- Sim, é isso mesmo! Não te usam mais, não precisam mais de
você...
Enquanto falava, seu semblante se contorcia, num esforço
para chorar, para parir. Seus olhos foram enchendo-se de lágrimas e, como um
tumor que arrebenta e deixa sair aquele pus que exercia pressão, suas lágrimas
finalmente jorraram. Com o corpo deformado pela dor excruciante de um espírito
atormentado – a maior de todas as dores -, com a cabeça entre as mãos, ia
surgindo o inesperado nascimento.
Samuel já atendera a muitos pacientes, antes de abandonar o
consultório e tornar-se professor. Já estava acostumado com semelhante comportamento;
era previsível. Porém, aquele caso era diferente, pelo menos assim ele sentia.
O que aquele jovem aluno falava, deixando seu coração sangrar, era a realidade
com a qual ele se deparava pela primeira vez. Acordara. Samuel estudara para
tratar de pessoas que se encontravam fora do mundo real, mas, o que fazer
quando o paciente não é paciente? Quando o mundo descortinado, em certo momento
da vida, não é mais uma fantasia, uma ilusão? O que poderia ele fazer? Como
tratar alguém que não precisa de tratamento? Poderia dizer-lhe que a vida era
assim mesmo, onde há mágoas, decepções e que ele deveria saber controlar-se
para poder safar-se? E como tantos outros, ele fora criado para ser bom num
mundo mau? Que o mundo era feito para ovelhas e lobos? Desnecessário falar o
que aquele rapaz, de forma dorida, estava experimentando agora. Samuel sabia
que eram respostas que não precisavam de perguntas.
Samuel ofereceu-lhe um lenço para enxugar as lágrimas, já
que não podia enxugar aquela dor. Depois de usar o lenço, continuou a falar.
- Aos poucos, foi acontecendo algo que, no início, eu não
sabia explicar. Com o passar do tempo vi meus amigos tornarem-se maduros e
autossuficientes. Fui percebendo em seus rostos, enquanto falavam comigo, certo
despeito ou raiva. Não sei qual nome dar ao que eu sentia. Por que aquelas
pessoas, as quais eu sempre quis bem e ajudara, me tratavam assim? Acabei
perdendo a espontaneidade ao lado delas e passei a sentir-me mal e deslocado. Assim,
durante muito tempo mantive-me afastado delas, sentindo a dor da ingratidão. E
em pouco tempo eu não era mais nada. A dor não me abandonava. Ela era a minha
companheira desde quando acordava até a hora de dormir e, não satisfeita,
atormentava meu sono. Ficou sendo a substituta das coisas que eu havia perdido.
Foi minha companheira durante tanto tempo, que pude tirar dela todo o seu sumo,
tudo aquilo que ela podia ensinar. E agora aqui, conversando com o senhor, tudo
se tornou claro. Agora vejo que quando se dá, esperando algo, não estamos
dando, estamos fazendo uma troca, uma barganha. Mas chega disso. Darei por
dar, sem esperar nada em troca.
Fez-se silêncio. Tudo havia sido dito.
- Sabe professor – continuou a falar -, é bom quando se tem
alguém com quem se pode conversar e desabafar e achar que não está devendo nada
por isso... É mais ou menos isso, eu não sei direito. Só sei que agora me sinto
bem.
- Fique à vontade, sempre que precisar – disse Samuel.
- Bem, agora tenho que ir andando – falou rapaz. Tem alguém
me esperando lá fora e que está precisando de mim.
O rapaz levantou e dirigiu-se até a porta. Depois de
abri-la, quis dizer alguma coisa, mas limitou-se a sorrir. Samuel também
sorriu.
Já era tarde. No quarto, Samuel continuava sentado na
poltrona, lembrando-se do acontecido naquele dia. No quarto o silêncio emanava
das poucas peças de mobília. Uma imobilidade silenciosa, eterna e imutável,
parecendo querer dizer que tudo que é já
foi e tudo que será já é. Levantou-se e caminhou até a janela. A folhagem
da árvore em frente já se transformara no lar e abrigo dos passarinhos que
encontravam refúgio durante a grande sombra da noite. A pensão toda dormia. Só
o vento caminhava pelas ruas. Samuel olhou para o céu estrelado e pensou que já
estava chegando o Natal. Pensou em Maria e foi sentar-se à escrivaninha. Depois
de acender o abajur, pegou papel e caneta e começou a escrever uma carta.
Outono, terça-feira, madrugada.
Querida Maria.
Você sempre gostou do Natal. Não vou desejar-lhe o melhor
Natal do mundo, porque não creio que vá senti-lo assim. Seria hipocrisia.
Tantas coisas aconteceram... – E continuou escrevendo.
EP.Gheramer
Samuel - # Fragmento 02
Ninguém me roubará o sonho...
Labels:
Manuel Marques,
Poema
No meu sonho tu flutuas a cada passo
sinto-te a cada instante
e é na noite que toco a tua pele ...
E no ondular do sono a memória procura-te
quero encerrar-te nos meus sonhos para te ter
trazer-te dentro de mim como um destino
e os meus sonhos sufocados terão a noite para te amar...
Manuel Marques (Arroz)
sinto-te a cada instante
e é na noite que toco a tua pele ...
E no ondular do sono a memória procura-te
quero encerrar-te nos meus sonhos para te ter
trazer-te dentro de mim como um destino
e os meus sonhos sufocados terão a noite para te amar...
Manuel Marques (Arroz)
Seu Ângelo cantou
Labels:
Conto,
Gilberto de Almeida
Do lado direito havia flores. De quem entrava. Do lado direito de quem entrava naquele supermercado, havia flores. Não de todos, mas de vários, de vários tipos. Quem quisesse veria o cheiro. Delírios. Também de rosas e de perfume anônimo. Havia elegantes "bouquets" decorados, que, de coloridos, pareciam crisântemos de todas as flores. Pareciam begônias, Margaridinhas dos campos, também Margaridas e Cláudias e Verônicas.
Por entre os expositores, fregueses com seus carrinhos de compras zanzavam interessadíssimos em nada mais. Nada menos. Cada um se apropriava de uma lata de refrigerante, de um pacote de arroz, uma garrafa de qualquer coisa. E de todos que existiam, existia um só. Que era ele. O próprio, Aquele que fazia as compras. As outras pessoas... Ah! As outras pessoas estavam interessadíssimas em nada mais. Nada menos.
No açougue, seu Juvenal! Faca afiada nas mãos. Sim, ele mesmo. Porque todo açougue tem que ter um Juvenal. Se não tiver, deve ser um açougue vegetariano. Nem presunto. Nem carne branca. Ainda bem! Mas lá tinha. Que pena. Aliás não tinha penas, porque já estava sem elas... E desossada.
As moças da peixaria vendiam um permanente sorriso, sardônico. Mas das duas, sardinhas mesmo, só tinha uma. A outra, que se chamava Catarina, exibia uma pequena marca de nascença ao lado da sobrancelha. Mas isso não conta! Ela era da padaria e desinformava monotonamente alguns pãezinhos franceses, italianos e portugueses. Não sabia que todos eram nacionais!
Nas caixas registradoras, umas quatro. Da tarde. Também, filas. As funcionária vendiam um permanente sorriso, real. Também cartão de débito, também cartão de crédito! É fato quase indiscutível que cada um tem o sorriso necessário de cada dia! Além do verdadeiro, é claro, que esconde debaixo da tendinite (quando chora!). Mas um dia será diferente. Hoje é assim!
Na fila número três - na verdade não havia número - Dona Úrsula estava apressada. No relógio o tempo todo. Olhava como se pudesse adiantar o tempo. E batia o pezinho e suspirava. Dividia o interesse com o senhor de trás, que não tinha o menor estresse. Ou vice-versa.
*#---@?
Foi aí que Seu Ângelo cantou.
*******
Seu Ângelo já saía com suas compras, no corredor frontal do supermercado, quando inesperadamente, para surpresa de todos, estufou o peito e cantou, com sua amadurecida voz de tenor, num italiano incompreensível, mas belo, o trecho mais famoso de uma ópera que eu desconheço.
E aquele som que premiava a tarde como os primeiros raios da aurora premiam o amanhecer, foi encontrando seu caminho por entre as flores da direita, por entre as gôndolas repletas de mercadorias, foi tocando como brisa os ouvidos dos fregueses desinteressados, que silenciaram num encanto embevecido.
Foi nessa toada suave, inesperada, tranquila, mas cativante, que a música de Seu Ângelo, preenchendo completamente o ambiente, avisou seu Juvenal de que a carne era fraca, e o açougueiro abandou a rudeza de seu dia a dia para transformar-se num protagonista atento daquele fato.
Assim mesmo, com essa tranquilidade toda, essa voz empostada do cantor de improviso percorreu os corredores até chegar, afinadíssima, à funcionária sorridente da peixaria... E aquelas sardas que ela tinha no rosto se iluminaram como poesia enquanto a melodia docemente penetrante daquele canto inesperado fazia arregalar as sobrancelhas de Catarina, do outro lado da loja, cuja marca de nascença, agora, dançava alegremente!
Foi desse mesmo modo, nota a nota, timbre a timbre, som a som, que a voz vibrante de Seu Ângelo banhou a alma de todas aquelas pessoas silenciosamente embevecidas, fez com que Dona Úrsula esquecesse o relógio e que o senhor de trás esquecesse Dona Úrsula. E as quatro filas, diante das caixas registradoras, e as quatro funcionárias que as operavam, agora compunham uma plateia anonimamente enfeitiçada, na casa de espetáculos que emergira da vida cotidiana, e, por um momento, esqueciam-se de si mesmas e integravam a corte de atores e atrizes daquela ópera desconhecida, desembarcando da tragédia das próprias vidas para alçar voo na vibrante ousadia alheia.
E Seu Ângelo cantou.
E a ressonância fez vibrar as flores, que inundaram o ambiente com a doce harmonia de uma orquestra perfumada.
E Seu Ângelo cantou.
E a ressonância transformou em lágrimas as pequenas sardas que sorriam no rosto iluminado da funcionária da peixaria.
E Seu Ângelo cantou.
E a ressonância transformou o facão agudo de seu Juvenal na batuta firme do maestro que conduzia à distância a orquestração das flores.
E Seu Ângelo cantou.
E a ressonância transformou em coro arrebatado as vozes mudas da plateia que se formara em todo o ambiente.
E Seu Ângelo cantou.
Cantou, cantou e cantou.
Quando Seu Ângelo foi embora, com um sorriso largo de felicidade incontida a estampar-lhe o rosto, por algum tempo as pessoas ficaram imóveis. Não havia o que fazer, nem o que dizer. Aquele momento exclusivo em suas vidas deixara-as temporariamente sem ação. E permanentemente tocadas por um fato que jamais esqueceriam:
- o fato insubstituível em suas vidas, de que Seu Ângelo havia cantado!
Gilberto de Almeida
07/11/2014
Subscribe to:
Posts (Atom)
Publicações populares
-
Laura Moore O Caminho e a Lição Minh'alma tinha pressa de entender a renda da vida em toda sua profundidade e ângulos... Sent...
-
Vieram de longe Por esses caminhos revoltosos Faces de espírito apagado Conquistando a mais linda alegria Infelizmente tristes e dementes......
-
"Para encontrar a esperança é necessário ir além do desespero. Quando chegamos ao fim da noite, encontramos a au...
-
Por ti o meu desejo traz o perfume da tua noite por ti o meu sonho somos nós... Por ti semeei o sonho colhi o luar... Por ti ve...
-
Ela deitou-se suspirando em sua cama quente e fria, olhou para o teto fechando um pouco os olhos e por um instante pensou: ...
-
Imagem daqui Natal suspenso Não havia nem roupa bonita nem refeição especial. O Natal, há alguns anos, celebrava-se na solidão. C...
-
Dói-me a alma quando estou só tu chegas e o tempo escoa-se como num sonho amo-te,preciso de ti para ser eu... Ninguém conhece as noit...
-
afasta-te de mim não me toque não me beije não se aproxime o que queres de mim agora? (sugar meu sangue (?!)) não se ...














.jpg)












