.jpg) |
| Imagem Web |
Eu não sei se gosto de escrever.
Às vezes as ideias se me
atropelam em meu cérebro,
e numa tal velocidade que não
consigo encostar as ideias à escrita.
Muito de mim se perde nesses
intervalos.
Fico incompleto.
Tal qual estava antes.
Por isso, talvez, eu relute em
escrever.
O sentido de mim mesmo fica
perdido,
porque meus pensamentos sobre
todas as coisas
que quero fazer e ser e penso,
são tão mais rápidos
do que posso torná-los
compreensíveis pela escrita.
Também não gosto de rimas.
Falar os pensamentos
escrevendo-os e rimando-os é
formar um entendimento onde o
entendimento deixa de existir.
É não ser natural.
É não ter a espontaneidade que
tem a vida e o ato de viver.
É negar o movimento e o tempo, o
descuido, o informal, o impetuoso,
o único, o inconveniente, o
rápido, o verdadeiro, o real.
A rima torna a poesia incompleta
no seu verdadeiro sentido.
A minha vida não tem rimas, por
isso o seu sentido é completo para mim.
Não há concordância entre os
versos que compõe o meu dia-a-dia.
Ninguém jamais conseguiria me
biografar
utilizando a concordância, ou a
métrica, ou a harmonia e a cadencia
de uma poesia com rimas,
clássica, enfadonha, previsível.
Não existem, apenas, versos
decassílabos, ou dodecassílabos,
nem mesmo versos alexandrinos ou
redondilha maior ou menor
que possam dar vida à minha vida.
Por isso não gosto de rimas em
poesia.
Porque minha vida e minha
existência é real.
Eu não forço a minha vida
a existir e nem existo em vida,
forçosamente.
Eu sinto tudo fluir no entorno de
mim.
Eu próprio sou um fluido de mim
mesmo,
alguma coisa que se acumula em si
mesma,
que nunca é igual em nenhum
instante do viver,
mas que, na essência do existir,
é sempre o mesmo.
Às vezes quero ser diferente do
que sou,
ou ser o que sou e pensar
diferente do que penso.
Nunca há, em mim, uma
concordância entre o que sou
e o que penso que sou de mim
mesmo.
Sempre tenho comigo a nítida
sensação de ser mais que um
e o meu todo é sempre dividido
entre eu e o que sou de mim.
(Muitas vezes aquele que já fui
vem dizer “olá!” àquele que estou sendo, e
aquele que quero ser muitas vezes
sente medo
de querer ser e volta a ser o que
estou sendo agora.)
Pensar o futuro ou desejar coisas
que estão ainda por acontecer
é transformar o presente que
estou vivendo,
porque todo futuro é consequência
do presente,
dos meus atos e pensamentos de
agora,
e todo o meu passado também o é
porque já existiu como presente.
Passado é o presente que deixou
de existir e
o futuro é o presente que ainda
não me dispus a concretizar.
(Hoje eu já pensei tantas coisas
que eu queria escrever, e
já formulei em meus monólogos
internos tanta poesia, e
já conversei comigo mesmo na
forma de poesia tantas coisas, e,
no entanto, agora, já de
noitinha, não me recordo de coisa alguma
que pudesse ter algum
significado, além do significado de só existir!)
Eu gosto das coisas que eu penso,
na forma e conteúdo de como eu as
penso,
e sinto vontade de as partilhar e
aos meus
momentos de lucidez e consciência
viva.
São instantes de clareza, de objetividade
e que me fazem
sentir a vida de uma forma
diferente daquele modo habitual
ao qual eu estou acostumado.
É assim como se as verdades, ou
as coisas que compõe a verdade,
saltassem aos meus olhos e então
eu me sinto verdadeiro, real, certo,
tão absolutamente certo como se
Deus estivesse revelado em mim;
tão certo como se todas as leis
do Universo tivessem sido sancionadas,
promulgadas e ditadas por mim.
(E eu sei que isto não é, nem de
longe, nenhuma verdade!)
Convicção. Verdades. Certezas.
Dogmas. Teorias.
Realidade. Onde estão?
Onde encontrar a convicção de
estar convicto?
Ou a verdade da própria verdade?
E, ainda, como ter certeza da
própria certeza?
Não. Eu não me importo com isso
tudo.
O que, deverás tem importância
para a vida são os opostos;
O Real e Irreal. O Feio e Belo. O
Largo e o Estreito. O Fundo e o Raso.
O Certo e o Errado. O Alto e o
Baixo. A Luz e as Trevas. O Frio e o Calor.
O Amor e o Ódio. O Pequeno e o
Grande. A Alegria e a Tristeza.
O Eu e o mesmo de Mim.
Eu tenho que ter em mim todo o
contraditório das coisas que existem.
São elas mesmas que me permitirão
exercer o poder
da escolha entre o eu que tenho
comigo, escondido de mim, agora
e o eu que já estou sendo hoje,
ontem...amanhã, talvez!