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Reprises de um filme sem fim
Eis um conto para os amigos escrito em 2009 que dispõe sobre os "círculos viciosos" que tomam conta da nossa breve existência...
JGCosta
João acordou cedo...
Desde quando nasceu todo dia mesma coisa: palavrões, gritos,
tiroteios...
Agora com 12 pensou muito e chegou a uma conclusão:
“Essa vida não é pra mim!”
Estudou e se formou, arranjou emprego bom e cresceu
profissionalmente.
Agora doutor com casa bela e bem localizada, visitava a mãe
vez em quando na favela. Ela dizia que lá era seu lar e de lá só sairia num
caixão.
E numa dessas visitas de João foi isso mesmo que
aconteceu...
Mais uma vez cenas conhecidas de sua infância se repetiram e
uma das munições se perdeu do seu destino e encontrou o peito da velha mãe.
De novo João muito pensou e a uma nova conclusão chegou:
“Saí daqui para driblar o sofrimento, mas foi inevitável
deparar-me com ele. E o que foi que realmente eu fiz para mudar esta
realidade?”
Ao invés de se revoltar, vendeu a casa, voltou pra favela e
foi cuidar dos pequenos, ensinando para muitos como era a cara da esperança, um
fantasma que assombrava outros cantos e que ali já se tornara lenda.
Ficou conhecido, arranjou esposa, teve um filho, o Junior,
um novo João.
O novo João cresceu e um dia pensou que ali não era seu
lugar. Estudou, para longe mudou e como o velho João doutor se formou.
E também numa de suas visitas ao pai aconteceu uma reprise e
agora seu velho agonizava no chão de tábuas do barraco, com um presente de
grego cravado no peito e antes que o ar lhe faltasse e a visão embaçada se
apagasse ele agarrou o novo João pelo braço e após muito pensar chegou a sua
última conclusão:
-- Filho, eu quis fugir e conheci um mundo diferente. Voltei
e descobri que nada mudou! Não importa o tempo que passe, parece que existe uma
força maior por aqui ou talvez seja assim mesmo que tudo tenha que ser. Eu sei
no que está pensando, pode crer, eu sei! Pensa em voltar e tentar fazer algo de
importante para que outros tenham a possibilidade de se encontrarem um dia num
mundo melhor, eu sei disto tudo e lhe faço um pedido: continue sua vida longe
daqui, constitua família e seja feliz, como eu tentei e acho que fui...
O velho João se foi. O novo João pensou muito, decidiu ficar
e acabou formando uma família e...
É, isso mesmo, até hoje a história se repete e a só uma
conclusão eu chego:
“Às vezes vale a pena tentar mudar, nem que seja para morrer
tentando...”
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01 - FORASTEIRO e PEREGRINO
Labels:
Conto,
EP. Gheramer
Por trás de montes e
vales, em terras distantes, há uma cidade pela qual passa um trem apenas uma
vez a cada quarenta anos. E, ao passar, só para na estação se houver algum
passageiro para embarcar ou para desembarcar, e nunca houve. Da última vez em
que o trem parou, quarenta anos atrás, se algum passageiro desceu ou subiu
ninguém sabia; só quem sabia era o próprio que, porventura, embarcara ou
desembarcara.
Assim também aconteceria daqui a cinco dias,
quando se completariam os quarenta anos desde a sua última passagem daquele
trem por aquele lugar. Quem embarcaria? Alguém desembarcaria?
Ali, embora todos se
conhecessem, cada um não sabia os nomes dos demais habitantes. Cada um cuidava
da sua própria vida; quanto ao mais, não era da conta de ninguém.
Os cinco dias se
passaram e logo pela manhã, a locomotiva despontou na curva, lá longe na linha
férrea, onde a vista mal alcançava e parou na velha estação, com suas paredes
envelhecidas pelo tempo, depois de dar dois apitos que puderam ser ouvidos por
todos, onde quer que esteja cada um de seus habitantes, pois a cidade era
pequena. Porém, sua parada fora rápida e em seguida, com mais dois apitos,
continuou seu trajeto. Parou somente o tempo necessário para um passageiro desembarcar.
Parado na estação
deserta, Benjamim acompanhou com os olhos a partida do trem até perdê-lo de
vista. Em seguida, tomando sua mala, até então apoiada no chão ao seu lado,
pôs-se a andar pela estação em direção ao que lhe pareceu ser a rua principal
da cidade. Ao chegar encontrou-se numa rua comprida, com o asfalto desgastado e
com apenas uma casa à sua margem, do lado direito. Não ficou surpreendido,
pois, era justamente o tipo de lugar que esperava encontrar. Depois de andar
por algumas horas foi encontrando, aqui e ali, pequenas construções separadas
umas das outras por grandes distâncias, mas, não viu viva alma enquanto
caminhava.
O lugar parecia-se
com aquelas Cidades de Refúgio sobre as quais havia lido e que existiam nos
países antigos que eram, essencialmente, medidas judiciais auxiliares, para
ajudar o escape dos homicidas involuntários. Visto que o código de vingança era
forte, os parentes de uma pessoa morta por outrem matavam sem misericórdia o
culpado pelo homicídio, sem temer qualquer ação da parte da lei. A lei da retribuição, em Israel, requeria
punição igual ao crime.
Ocorreu-lhe que não
era muito diferente daquilo que acontecia nos dias de hoje nos grandes centros
urbanos, com seus apelos ao preconceito racial, sexual, religioso, ao fervor
nacionalista raivoso que perseguiam aqueles que tinham uma conduta diferente da
moral estabelecida. As pessoas tinham a necessidade de se agarrarem a certezas,
porque tinham a necessidade de pertencer a alguma coisa, a algum grupo. É a
necessidade de dividirem sua incapacidade de serem elas mesmas sozinhas. Era a
questão do quem eu sou, se sou bom ou mau, bem sucedido ou não. E sempre fora
assim, a presunção de saber o que é o Bem e o que é o Mal levou o homem a ter
uma existência marcada pela culpa e pela vergonha, ao mesmo tempo em que roubou
a paz de ser uma pessoa e impingiu uma moral coletiva que impede de prosseguir
para uma consciência de ser enquanto indivíduo. Mas, diferentemente dos tempos
antigos, não encontram refúgio como encontravam nas igrejas, santuários e nos
lugares considerados santos, de todas as variedades religiosas. É uma ilusão a
segurança encontrada hoje em tais lugares, porque só a encontra na moral
coletiva e fora dela não há salvação. Ou você faz parte ou fica só, torna-se um
forasteiro e peregrino. E isto pode ser insuportável...
Continua...
EP. Gheramer
Desafio de Natal 2015 - O presente de Ana Clara - Gilberto de Almeida
O mundo de Ana Clara, para quem pudesse penetrar os labirintos de seus pensamentos, era um recrudescer de memórias que a transportavam para outros tempos, outros lugares. Quem a via ali, sentada no sofá da sala, muda e solitária, enquanto as outras crianças se espalhavam em irreverente algazarra pela casa, não poderia ter noção do que se passava no universo íntimo daquela pequena rolinha que parecia caída de um ninho existente em outra dimensão, não nesta.
O pensamento de Ana Clara ia pelos natais passados, quando a mãe ainda era viva. Não tinha lembranças do pai, nem muitas informações sobre ele. Essas eram reminiscências que a querida mãezinha parecia guardar com ternura infinita, a sete chaves, no templo sagrado de seu coração.
Todas as lembranças de natal, que não eram muitas na juventude de seus nove aninhos, vinham-lhe à mente, de certo modo, como reedições do mesmo quadro de simplicidade e doçura. Em companhia da mãe, na véspera do aniversário do querido Jesus, dirigiam-se, com um grupo de pessoas, a certa rua de sua cidade, onde ela cooperava até alta madrugada com aquela gente tão simpática que servia sopa quente aos pobres e aos necessitados. Quando aparecia uma criança (e apareciam muitas!), sempre tinham uma pequena lembrancinha, embrulhada lindamente, para presentear-lhe. A cada sopa e a cada lembrancinha entregue, aquelas pessoas boas faziam questão de dizer:
- Esta sopa e esta lembrancinha são presentes do nosso amigo Jesus!
Ana Clara lembrava nitidamente daqueles rostinhos, alguns de crianças da sua mesma idade, outro um pouco mais velhos ou mais novos, porém, a maioria, com uma aparência sofrida, triste! A pobreza era notável pelas roupas, às vezes até por um não sei quê no aspecto de sua pele, no cheiro... Algumas, às vezes, pareciam com ela mesma quando ficava adoentada. Mas quando recebiam um prato de sopa, um presentinho, um carinho daquelas pessoas que chamavam a si mesmas de "voluntárias", a menina parecia ver uma alegria escondida brotar de dentro e iluminar aqueles olhares ensombrecidos pela tristeza da vida!
Como era bom aquele amigo Jesus, que trazia luz à escuridão da noite interior!
Mas logo, logo, Ana Clara deixava de lado a tarefa de servir sopa e se entretia com alguma brincadeira ou conversa com aquelas crianças que tanto comoviam seu coraçãozinho infantil.
Madrugada adentro estavam ela e a mãezinha voltando ao lar. Aí era o momento de íntimo contentamento, após o trabalho gratificante e as aventuras caridosas daquela noite. Quando chegavam à casa encontravam a árvore de natal, que ambas haviam enfeitado modestamente, à qual se ajuntava uma das lembrancinhas, que a mãe sempre trazia da atividade noturna. O seu, como o das outras crianças, era um presente entregue por aquele Jesus carinhoso e amado! Felizes, as duas sentavam-se ante uma pequena mesa onde uma vela natalina colorida e perfumada, iluminava candidamente o ambiente.
Então a mãe se punha a contar à filha amada as histórias de vida do Aniversariante Celeste, com tamanha ternura na voz, que ambas, extasiadas pela serenidade acolhedora daquela hora, pareciam levitar por sobre os limites da vida cotidiana, atingindo, pelo menos em seu íntimo, as alturas que sonhamos serem habitadas somente pelos anjos. E nesse estado de êxtase sublime passavam sagrados minutos que poderiam bem ser horas, pois ninguém conseguiria medir, com os ponteiros do relógio, o tempo em que um ser humano se entrega a outro em verdadeira comunhão amorosa.
Depois, uma pequena refeição, uma oração de agradecimento àquele meigo amigo Jesus e um sono pacífico até a manhã seguinte. Durante esse sono, Ana Clara costuma sonhar com aquele Anjo feito homem, que a acolhia em seu colo no alto de uma colina, à sombra de grande mangueira. A brisa fresca vinda da pradaria, balançava suavemente a túnica alva que vestia o corpo esbelto do Divino amigo. Seus cabelos castanho-avermelhados dançavam candidamente ao canto de rouxinóis invisíveis que teciam, no vento, sua sinfonia de amor. Os olhos doces e azulados de seu protetor dos sonhos contemplavam-na com infinita candura, como se lhe dissessem que no mundo não havia nada a temer; que, no mundo, tudo seria paz enquanto estivesse acomodada em seus braços... Ao amanhecer a menina guardava a impressão viva de que havia estado realmente nos braços do benfeitor dos pobres, dos oprimidos e dos necessitados... E assim passava dias de felicidade com aquela sensação de acolhimento em seu coraçãozinho esperançoso...
Essas eram as recordações felizes da pequena rolinha descida de seu venturoso ninho.
Depois, não demorava muito, e vinham as imagens tristes da ocasião em que a mãezinha adoecera. A menina, pequena criança assustada àquela época, via a mãe querida emagrecendo dia a dia, seus cabelos rareando, a ossatura tornando-se proeminente, mas nada compreendia. Na fisionomia sofrida da genitora, pressentia dores terríveis às quais a mãe parecia resistir com esforço heroico, para nada demonstrar. Ao contrário, dizia-lhe para ser forte, que estava tudo bem!
Um dia, sua mãe, já num dos últimos momentos em que passariam juntas, chamou-a ao quarto, e anunciou com extrema ternura:
- Eu terei que viajar para longe daqui, minha filha. Ficarei esperando... Um dia nos reencontraremos. Enquanto isso, sua tia Elisa irá cuidar de você. Você ficará feliz por tê-la como amiga. A tia Elisa é um anjo que Deus está colocando na sua vida...
A menina compreendeu o que ficara nas entrelinhas e chorou amargamente ao ouvir essas palavras. Mas de nada, evidentemente, adiantou! Poucos dias depois, estava morando com sua tia Elisa. E poucos dias mais, estava agora sentada na sala dessa tia, à véspera do natal. Sua mãe tinha ido encontrar-se com Jesus. Isso a consolava. Imaginava Jesus segurando a mãezinha no colo, da mesma maneira como fizera com ela em seus sonhos de natal. Assim tinha certeza de que tudo estava bem, de que não havia nada a temer, de que, no mundo de sua mãe querida, tudo seria paz enquanto estivesse acomodada nos braços desse Jesus amado....
Foi quando soou a voz estrondosa de seu Augusto, marido da tia Elisa, arrebatando abruptamente a pensativa Ana Clara de seus sentidos devaneios:
- E, agora, aquele que todos estavam esperando acaba de chegar! - bradou o tio - A pessoa mais importante da noite!
Ana Clara, de um salto, sentiu seu coraçãozinho disparar! Aquele que todos estavam esperando! A pessoa mais importante da noite! Quem seria? Só poderia ser uma pessoa! Seria possível? Pensava com toda a naturalidade de seu raciocínio infantil, que, em todos esses natais nas ruas de sua cidade Ele nunca aparecera pessoalmente... Mas agora havia um bom motivo! Provavelmente seu querido e amado Jesus viera até ali, hoje, na casa de sua tia, que era um Anjo, segundo palavras de sua própria mãe, para trazer notícias da mãezinha querida! O Semblante de Ana Clara iluminou-se, em maravilhado êxtase!
- Com vocês, o Papai Noel! - prosseguiu o tio Augusto!
A pronúncia dessas palavras teve efeito quase alucinatório na assembleia de crianças que se agrupara na sala maior, onde estava a árvore de natal. Foi uma gritaria geral, um frenesi que a muito custo se acalmou. Logo, Ana Clara pôde ver entrando pela porta da frente uma figura opulenta, de barbas e cabelos brancos, olhos negros e vestida de cetim vermelho. Em nada lembrava a pessoa delicada de seu Divino Amigo, de cabelos cor de ouro, olhos cor de poesia e vestes de luz...
A decepção transparecia no semblante da menina. Flagrante contraste entre sua rigidez marmórea e a efusão de entusiasmo que apropriou-se da meninada! Ana Clara, por certo, sabia bem quem era Papai Noel, apesar dessa figura alegre, embora espalhafatosa, nunca haver participado do rito singelo de seus outros natais. Mas não atinava com o motivo pelo qual o velhinho de barbas brancas fora anunciado como a pessoa mais importante da noite! Deveria haver algo de muito especial, de muito bom naquele velhinho, para ele ser ainda mais importante que o seu querido Jesus... Para ela, aquilo era muito estranho, mas os adultos - esse era o modo de pensar da menina - deveriam saber o que diziam!
Seguiram-se momentos animados em que todos receberam presentes. Depois, o velhinho foi-se embora, as pessoas serviram-se de uma farta e saborosa ceia e, pouco a pouco, os convidados despediram-se.
Mais tarde, madrugada adentro, no quarto improvisado em que estava instalada, Ana Clara não conseguia dormir. Aquele primeiro natal com a família de sua tia Elisa tinha sido uma experiência muito diferente de tudo quanto aprendera e vivera antes e, portanto, uma experiência muito perturbadora. No meio dessa inquietação, tomou uma decisão: levantou-se, tomou papel e lápis e começou a escrever...
Na manhã seguinte, tia Elisa, sempre a primeira a levantar-se, reparou naquele inesperado envelope dependurado na árvore de natal. Intrigada, tomou o envelope e leu: "Ao papai noel".
Tomada de curiosidade, leu a seguinte carta de poucas linhas:
"Senhor Papai Noel,
aprendi hoje que o senhor é a pessoa mais importante da noite de natal,
por isso acho que só o senhor pode me ajudar.
Eu queria que o senhor trouxesse para mim,
neste natal,
o meu amigo Jesus.
Obrigada,
Ana Clara."
Tia Elisa pensou, então, no que a irmã lhe dissera pouco antes de seu desencarne:
"- Você ficará feliz por tê-la como amiga. A Ana Clara é um anjo que Deus está colocando na sua vida..."
E dua lágrimas brotaram-lhe dos olhos.
Esse cartão é para você
https://www.pinterest.com/source/umacasaigualasua.com.br
Ela usou todo o seu melhor na confecção daquele cartão... Ao representar a raiz de branco fez no sentido de demonstrar a possibilidade de que se as raízes tiverem a essência da paz, por mais que as folhagens tenham dias escuros, de uma forma ou de outra, haverá de aprender iluminá-las (afinal, a paz é um exercício diário).
Gostou do efeito das nuances e do pensamento de que ficaria muito feliz se as cores representadas no pinheiro viesse provocar reflexão, renovação...
Agradeceu a Deus pelas pérolas que por hora enfeitam seu próprio pinheiro e sem mais delongas, escreveu:
Não está fácil para ninguém... Mas, não devemos esquecer que o nosso melhor presente será sempre o Amor e a Caridade.
Feliz Natal!
Claudiane Ferreira
Gostou do efeito das nuances e do pensamento de que ficaria muito feliz se as cores representadas no pinheiro viesse provocar reflexão, renovação...
Agradeceu a Deus pelas pérolas que por hora enfeitam seu próprio pinheiro e sem mais delongas, escreveu:
Não está fácil para ninguém... Mas, não devemos esquecer que o nosso melhor presente será sempre o Amor e a Caridade.
Feliz Natal!
Claudiane Ferreira
A todos os leitores, autores e amigos faço votos que tenham um Natal caloroso e que reflitam os versos do Gilberto que deixei de presente para mim e também para vocês.
... se o homem, mais humilde (e sábio), um dia
primeiro sem tentar mudar o mundo,
buscasse a luz da própria melhoria!
... se o homem, mais humilde (e sábio), um dia
primeiro sem tentar mudar o mundo,
buscasse a luz da própria melhoria!
Natal suspenso
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| Imagem daqui |
Natal suspenso
Não havia nem roupa bonita nem refeição especial. O Natal, há alguns anos, celebrava-se na solidão. Claudia recordava cada instante daquele ultimo Natal preparado segundo a tradição.
Cinco anos antes, enquanto se dedicava à preparação do jantar que iria ser saboreado em família e aguardava a chegada do seu marido, cantava ao provar o molho que cozinhava. Pensava no quanto era feliz por estar na sua casa, recebendo os seus pais e sogros. Todos ansiavam pela chegada do seu marido, filho e genro para iniciar a refeição.
Quando o som do telefone a despertou dos seus preparativos, nada a alarmou. Nada lhe deu qualquer indicio sobre o correspondente nem sobre o assunto da chamada. Alguns instantes depois, a sua vida tinha sido suspensa à voz que lhe anunciara a notícia. Já não haveria Natal. Nunca mais haveria um sorriso no seu rosto ao acolher o André. Tinham terminado os abraços e o carinho que a vida lhes tinha permitido partilhar durante seis anos. O André não chegaria a casa. A vida terminava ali.
Desde então, apesar da insistência dos seus pais e sogros, dos amigos, da restante família, Claudia vivia o Natal fechada na memória do seu amor.
Quanto aos presentes, não comprava nenhum, mas havia sempre quem lhe enviasse uma lembrança, um postal, uma carta, entre outras provas de afeto. No entanto, nenhum se juntava àquele que estava ali há cinco anos.
Ao pé da Árvore de Natal, apenas um presente sobrava. Um pequeno cartão identificava o destinatário: “Para quem tem mais valor".
O cartão apresentava a letra de André, escrita cinco anos antes. A frase tinha sido objeto de sorrisos por parte dos presentes naquela sala de jantar, antes da notícia que tudo mudara.
E Claudia, este ano como os outros desde então, continua a observar o embrulho cuidadosamente preparado para ela e hesita. Se o abrir, sabe que jamais poderá sentir a doce expetativa que representa para ela receber um presente do André. Mas, se não o abrir, jamais poderá saber o que ele escolheu para ela nos últimos dias da sua vida.
Mais um ano passará e Claudia continuará a observar o presente. O futuro sendo incerto, nada nos diz se e quando o abrirá. Talvez seja necessário que ela abra de novo o seu coração ao mundo, antes de poder desembrulhar o laço que o enfeita.
Dulce Morais
Desafio Natal 2015 - Para quem de mais valia - Carlos NNeves
" Ao pé da
Árvore de Natal,apenas um presente sobrava. Um cartão identificava o
destinatário:
Para quem tem mais valor"
No meio da noite tudo fica cheio de silencio, de olhar retrospectivo.
Tudo o que passou fica como que paralisado, impresso em cada enfeite, em cada símbolo naquela árvore.
Chegou o grande momento!!
E o coração esperançoso, desejoso de recuperar, dalí pra frente, muita coisa daquilo que se perdeu.
Tudo está preparado e todo coração sente seu encanto e nenhum, quase nenhum, consegue privar-se disso.
E o coração esperançoso, desejoso de recuperar, dalí pra frente, muita coisa daquilo que se perdeu.
Tudo está preparado e todo coração sente seu encanto e nenhum, quase nenhum, consegue privar-se disso.
Diante daquela árvore, daquele presente, daquele tempo, "uma cálida corrente de amor inunda toda a terra"... "todos preparam a festa e tentam irradiar um raio de alegria", sejam eles fieis, ou incrédulos, ateus ou devotos...
Esperança renovada em um tempo advento onde os sinos da Missa do Galo proclamam:
“Nasceu o Deus menino, um Filho nos foi dado... e o Verbo se fez carne”.
E brilha na noite escura a estrela guia pra mim e pra você, para nós e os pequeninos, Santos Inocentes de logo depois...
E brilha na noite escura a estrela guia pra mim e pra você, para nós e os pequeninos, Santos Inocentes de logo depois...
Vinde, adoremos!!... Paz na terra aos homens de boa vontade.
Do maior
ao pequenino
ao pequenino
festa, amor
e alegria
brilha a estrela
do Menino
e alegria
brilha a estrela
do Menino
ao que é
de maior valia.
de maior valia.
Ref.: Edith Stein - Teu coração deseja mais - Reflexões e Orações
Desafio Natal 2015 - Uma visita no Natal - JGCosta
Como vão todos?
Hoje pela madrugada escrevi a minha participação, postei primeiramente num fórum de games que participo (Condado Braveheart), pois também existia um Desafio similar por lá e agora venho disponibilizá-la aqui para os amigos, junto com o desejo sincero das melhores festas neste Natal e Ano Novo...
JGCosta
UMA VISITA NO NATAL
Não sei com quantos anos deixei
de acreditar em Papai Noel...
Mas foi bem depois daquela noite,
uma bem estranha por sinal, que algumas vezes fico com um grande desejo de
contar os detalhes do que aconteceu para meus filhos ou amigos ou parentes ou
ao meu psicólogo, mas logo deixo pra lá, pois vão falar que tudo foi obra da
minha imaginação, afinal, ganho a vida vendendo rabiscos, então não os poderia
culpar quando me brindassem com a seguinte frase: “Você inventou isso!”
E é bem por esse motivo que nunca
contei o ocorrido para ninguém, mas isso não me impede de compartilhar um texto
anônimo na Internet... Quem sabe alguém dá crédito ou veracidade para a
história?
Se me recordo bem, eu tinha uns
oito anos e morava com minha família numa fazenda afastada da cidade. Estávamos
na década de 70 e a energia elétrica ainda não fora instalada em nossa
propriedade, então a nossa diversão quando a noite chegava era sentar junto ao
fogão de lenha com os adultos e ficar ouvindo suas histórias.
Numa noite meu avô, pai do meu
pai, já bem velhinho e com uma barba branca grande e que cobria todo seu rosto,
era o contador nomeado da noite. Ele nos estava visitando naquele início de
primavera pela última vez, pois um mês depois acabaria falecendo dormindo, sendo
convocado pelo Deus Maior para o merecido descanso, de uma vida toda só de
trabalho, assim dizia minha mãe. Mas naquela noite em questão ele nos brindou
com uma história de Natal, cujo final eu e meus dois irmãos caçulas gêmeos
conhecíamos de cor e salteado: seja um bom garoto e vai ganhar um presente
especial do Bom Velhinho...
Tem algo que preciso contar: eu
não era uma criança muito fácil de lidar, não que eu fosse rebelde ou
malcriado, mas era bem teimoso e quieto, como alguns garotos dos sítios do interior
costumam ser, mas o meu avô me compreendia perfeitamente, dizendo que eu
herdara todos os seus traços, então mantínhamos uma excelente amizade, e foi
ele quem me ensinou a nadar, pescar, ordenhar, cuidar bem da terra e muitas
outras coisas que me lembro. Contudo ele também sempre me aconselhou:
“Você precisa mudar o seu jeito
de ser, senão também vai se tornar uma pessoa que nem eu mesmo fui, até quando
me casei: sozinha no mundo, sem amigos, sem ninguém!”
Eu até tentava, mas com oito anos
acredito que ainda não me empenhava o suficiente para ter algum êxito nisso,
então simplesmente seguia com a vida.
Depois que meu avô morreu eu
sofri muito, pois como eu disse, éramos muito ligados. O final de ano chegou
logo, o país estava passando por mudanças, meu pai não andava muito bem dos
bolsos, se é que você me entende, e nos informou com antecedência que aquele
Natal seria um pouco mais triste, primeiro pela falta das histórias de meu avô
e segundo por necessitarem economizar, então não haveria presentes nesse ano.
Por sermos filhos sensatos, não
houve a menor queixa de nossa parte. Montamos uma pequena árvore com um
pinheiro colhido na propriedade para simbolizar a data e na véspera do dia 25
de dezembro, fizemos nossa oração em família e fomos nos deitar. Acredito que
passava da meia-noite quando uma voz conhecida veio a me acordar. Sentei
assustado na cama, ouvi meus dois irmãos roncando, mas fora isso estávamos
sozinhos no quarto. Escutei um barulho vindo da sala e acreditei que era um dos
meus pais, então me levantei para tomar uma caneca de leite puro.
Ao sair para a sala vislumbrei um
homem vestido de vermelho parado em pé em frente do pinheiro que plantamos numa
caixa de madeira e que se encontrava no meio do cômodo. Creio que ele me ouviu
chegar e se virou na minha direção. Era o meu avô que me disse sorrindo: “Feliz
Natal meu filho...”
Recuei assustado para o quarto,
depois tomando uma coragem que ainda não sabia que existia em mim, voltei para
a sala, mas esta agora se encontrava vazia. Balancei a cabeça com força, tendo
certeza de que andara dormindo até ali e imaginara coisas, então fui até a
cozinha, tomei meu leite e voltei voando para a cama, acordando somente na
manhã seguinte por volta das 6 horas.
Antes de sair para tirar leite,
encontrei minha mãe toda contente, que me presenteou com um abraço, coisa meio
rara entre nós.
“Parece que o Papai Noel nos
visitou...”
Fui entender o que ela estava
falando quando vi pedaços de embrulhos de presentes espalhados pela sala. Ao pé
da nossa improvisada Árvore de Natal, apenas um presente sobrava. Um pequeno
cartão identificava o destinatário: “Para quem tem mais valor!”
No fim meu pai pensou que minha
mãe tinha dado um jeito de comprar os presentes e fazer aquela surpresa e minha
mãe, por sua vez, pensou o mesmo de meu pai. Só eu sabia a verdade dentro do
meu coração, ao desembrulhar o presente e encontrar lá dentro uma foto minha
com meu falecido avô, que se fantasiara do Bom Velhinho que fora durante toda a
sua vida e viera, de alguma forma que jamais saberei explicar, nos fazer uma
última visita no Natal.
Eu sei, você vai me dizer: “Você
inventou isso!” – afinal, eu sobrevivo de rabiscos, mas no fundo, bem no fundo,
certeza mesmo você não vai ter, principalmente se conseguisse me ver agora, que
estou tão próximo do ponto final desta história, com os olhos úmidos de
emoção...
Desafio Natal 2015 - Degraus - Claudiane Ferreira
![]() |
| Art: Jéssica Peixoto http://www.mafuahchic.blogspot.com/ |
Os autores do Tubo foram desafiados a criarem uma obra inspirada na frase abaixo:
" Ao pé da Árvore de Natal,apenas um presente sobrava. Um cartão identificava o destinatário: Para quem tem mais valor"
Subindo Degraus
Annie sempre que tinha um tempo livre durante a semana aproveitava-o colocando em dia as leituras de alguns blogs que seguia. E o pontapé inicial do grande rebuliço provocado pela matriarca nesse Natal só ocorreu porque ela fora tocada pelo "Soneto de Natal", publicado no Tubo de Ensaio Laboratório de Artes, de autoria do Gilberto de Almeida.
A partir da reflexão dessa e também de outras postagens de cunho natalício do mesmo autor houve, por assim dizer, um despertamento de atitudes , ideias...
Exato um mês antes do Natal, Annie enviou e-mails aos seus filhos, genros, noras e netos comunicando as regras para quem viesse passar o natal com ela.
1- Assim que recebesse o e-mail deveria todas as noites fazer uma oração e, como Salomão, pedir a Deus sabedoria.
2- Na semana do Natal, cada um deveria ir a um supermercado comprar alimentos de primeira necessidade para montarem uma cesta e confiando na sabedoria adquirida deveria fazer a entrega a uma pessoa que estivesse precisando.
3- As lembrancinhas ofertadas aos familiares teriam que ser confeccionados por cada um.
4- Poderia também gravar alguma apresentação artística ou até mesmo fazer ao vivo no dia.
Observação: Os itens 2 e 3 teriam que ser passo a passo registrado com fotos. Estas deveriam ser impressas, pois seriam o passaporte para o melhor de todos os Natais.
Os netos que ainda não trabalhavam deveriam usar da própria mesada para a compra dos alimentos.
Sentia em seu coração uma alegria, estava prestes a proporcionar a sua família um Natal diferente, com certeza seria o marco de uma nova mentalidade... Sendo assim, não mais justificava uma árvore de natal de quase quatro metros.
Preferiu ir pessoalmente buscá-la no porão, fazia anos que não entrava lá, logo de cara bateu o olho no estrado de uma cama e foi desse jeito que ela encontrou e deu vida à sua nova árvore de natal.
O grande dia chegou e na medida em que entravam entregavam as fotos ao mordomo, essas eram colocadas em um envelope com nome e depois penduradas em uma estranha árvore de galhos secos que fora colocada no meio do salão.
Em princípio, a maioria achava que Annie havia enlouquecido...No lugar da grandiosíssima árvore e enfeites glamourosos, aquela de galhos secos e uma outra de estrado com meia dúzia de penduricalhos. Até o tradicional amigo oculto foi abolido, isso sem contar o cardápio simples que seria servido na ceia.
Certa hora, Annie pediu que todos fizessem um círculo em volta da árvore de galho seco e que contemplassem sua aparente simplicidade... Após alguns minutos pediu que todos retirassem seus respectivos envelopes e retornassem ao grande círculo, também comunicou que não iria esperar até meia noite para entregar a lembrancinha que fizera e foi assim que aos poucos o colorido tomou conta do círculo. Quando todos haviam recebido as almofadas, pediu que sentassem e retirassem um papelote da bandeja que Sara estava a servir. Quem pensou que não haveria amigo oculto errou... Não haveria presente melhor do que compartilhar as emoções, aprendizados e reflexões proporcionadas pelas tais regras e também pela metáfora que havia no centro do círculo humano.
E ficaram sentados ali durante horas até que Julia sua neta de 16 anos perguntasse:
― Vó, que estranho... Todos estão com os presentes do amigo oculto, então , de quem será o envelope que continua na árvore?
Que tal você ir até lá e conferir.
Hummm, no envelope está escrito " De Annie e sua família -
Para quem tem mais valor . Vovó, você é mesmo muito sábia...
E de repente o espírito do verdadeiro Natal se fez, como se tivesse sido combinado, todos levantaram , deram as mãos e cada um de sua maneira reverenciou aquele menino simples de luminosidade grandiosa que nasceu em um estábulo lá em Belém.
Claudiane Ferreira
Convido-os a visitarem ou revisitarem as postagens natalinas do autor que foi mencionado nesse conto.
http://tubodeensaio-laboratorio.blogspot.com.br/2015/11/soneto-de-natal.html
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O PROJETO -Capítulo 10
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Conto,
EP. Gheramer
- Como dizia anteriormente, muitas coisas eu tenho
para vos dizer e parte delas teve seu início antes dos tempos dos séculos e
para as quais ainda não estais preparados para ouvir, porque tendes o
entendimento cauterizado pela mentira deste mundo em que viveis. Tornai-vos
impenetráveis à verdade. O conhecimento que tendes e sobre o qual construístes
todo o edifício do vosso Saber é ilusório. Eu vos direi uma verdade e não tenho
dúvidas de que a rejeitareis imediatamente, com toda a força do vosso entendimento,
pois, estais presos na memória, nos costumes e na cultura de tal forma que é
impossível esquecer, superar ou deixar de lado vossas necessidades de ter
certezas inquestionáveis e permitirem-se ao questionamento. Eu vos digo que a
Terra não é redonda, ela é plana.
E como Quiriat previra, podia-se sentir a presença da
incredulidade no silêncio que pairou naquele exato momento, naquela pequena
sala onde estavam reunidos.
- Vistes como vêm às vossas mentes inúmeras “provas”
científicas que contestam esta afirmação? Pois bem, imaginai se eu vos falasse
de outras semelhantes a esta? Mas, não vos deixarei sem nada vos contar. Sabeis
por que estais assim? Pois vou dizer-lhes a causa. É por haverdes construído o
mundo sobre um falso conhecimento, sobre uma mentira.
Quando Quiriat percebeu que todos queriam se
manifestar, ele pediu que não o fizessem. Que o deixassem falar sem ser
interrompido.
- Seres vindos de um lugar ao qual chamais de céus,
misturaram-se aos seres humanos que aqui já existiam e dessa mistura resultou
seres diferentes dos humanos, porque tiveram seus códigos genéticos alterados.
E eles se multiplicaram e desde então, povoaram a terra. A perfeição original
foi contaminada e em seu lugar produziu o engano e a mentira. Porém, alguns
poucos foram guardados para o grande dia em que a humanidade será refeita e a
perfeição original restaurada. Mas, antes seria necessário que muitas coisas
acontecessem e outras ainda viessem a acontecer. Devem estar se perguntando
como eu sei disso. Eu sei por que vim do mesmo lugar que eles vieram, mas, fui
resguardado para não me deixar contaminar. Não jurei sobre o livro de suas
leis, que mandava disseminar a discórdia e o empobrecimento da espécie humana,
originalmente perfeita.
- Mas... – Alves ameaçou falar.
- Não, não... Eu pedi para não ser interrompido e há
uma razão para isso. Não peço que acreditem em mim, pois, não poderiam mesmo
que quisessem. Peço apenas que me escutem até o final – disse Quiriat. Pois
bem, como todas as civilizações pré-adâmicas, a atual também está cega pela
mentira deste mundo ilusório em que vive. Mas, tenham paciência e conservem a
esperança, pois, aproxima-se a hora em que despertareis e, quando isso
acontecer, conhecereis a verdade e terão a oportunidade de decidirem se querem
ser libertados. E não fiqueis admirados com o que vos falo, pois, esta
civilização e todas as pré-adâmicas tiveram seus genomas modificados. Vocês não
são os primeiros. E, por enquanto, somente para facilitar vosso entendimento,
podem pensar que isto é o que vocês chamam de “pecado original”. Estes seres
angelicais são portadores do mal e o seu líder, o maior de todos, pois é o pai
da mentira, atravessou o muro daquilo que conhecem como Jardim do Éden e relacionou-se
sexualmente com o ser humano e desta forma introduziu o pecado no mundo,
figurado pela serpente ofertando a maçã para que comessem. Assim, o “comer a
maçã e dá-la para ser comida pelo outro”, possibilitou que o seu código
genético maligno, através do ato sexual, fosse transmitido aos filhos e filhas,
passando de geração em geração. A expulsão do Éden foi um ato espiritual, uma
tomada de consciência dos prazeres que advém da prática de atos egoístas e,
portanto, são maus, porque são atos que não levam em conta o que podem causar ao
outro ser humano, que é seu semelhante. Assim, a maldade entrou no mundo. A
princípio, originou seres disformes, verdadeiros monstros, se comparados com os
seres humanos. Mas, a própria natureza tratou de eliminá-los através de
sangrentas lutas travadas com os humanos remanescentes e pelos dilúvios que
sobrevieram à terra. Porém, mesmo após tais catástrofes globais, alguns desses
seres continuaram a existir, com o poder que lhe fora dado por seu príncipe,
assumindo as mais diferentes formas e, principalmente, a forma humana. Isso
permitiu que as batalhas cessassem a nível carnal, mas, continuaram espiritualmente.
Cônscios de seus propósitos, não mudaram sua intenção, mas executariam o
empreendimento originalmente projetado e juraram todos juntos. Assim, em
virtude da fragilidade de todos os poderes terrenos, acreditavam que seu poder
seria mais duradouro do que qualquer outro, porque seria invencível, pois
estará tão enraizado que o poder humano não poderá destruir. Dizem em sua
arrogância: “a Violência deve ser um princípio; nossa palavra de ordem é a Força
e a Hipocrisia, uma regra para todo aquele que não queira nos entregar sua
coroa.”. Seus agentes, recrutados dentre os homens ávidos pela cobiça do poder,
infiltraram-se nos Governos, ocupando postos de real influência e prestígio,
permitindo-lhes dirigir o rumo das nações. Como tudo teve sua origem no pai da
mentira, tudo foi construído sobre esse alicerce, de forma que aquilo que se
vê, não foi feito do que parece ser. Foi assim que teve início a Elite, este
grupo do mal composto de seres híbridos criados desde a infância, para governar
de forma autocrática o mundo. E sempre,
desde as civilizações pré-adâmicas até a atual, criaram situações sociais
malignas para subordinar as nações ao seu poder que residia na riqueza, na
posse do ouro. Já tinham a vacina, agora era necessário espalhar a doença. Que
situações sociais são estas? São aquelas criadas por criminosos que acreditam
estar trabalhando em prol de alguma ideia política, utilizando-se de meios
violentos, mas que, na verdade, não são motivados por tal ideia. Eles desculpam
seus atos sobre esta base. Eles falam em termos de “restaurar o dinheiro ao
povo”, quando furtam os “bancos capitalistas”. Mas eles consideram “povo”
somente a eles mesmos. Também existem os verdadeiros terroristas políticos,
cujos atos de violência têm por objetivo debilitar as instituições
governamentais existentes. Esses usam o dinheiro, adquirido com seus atos, para
fomentar outras atividades. E não faltam os terroristas religiosos, que atuam
contra governos ou instituições que consideram hostis à sua causa.
Infelizmente, há livros sagrados que transpiram violência, não sendo difícil
encontrar neles textos de prova que toleram o terrorismo com todos os crimes
dai resultantes. Que Israel adquiriu o seu território mediante atos de terror
fica claro nos próprios registros bíblicos, embora isso pareça chocante para
muitos. Muitos cristãos fundamentalistas não sentem dificuldade em adorar a um
Deus guerreiro; mas, há muitos cristãos nos dias atuais, que simplesmente
consideram este um conceito “primitivo” de Deus, que foi retido em vários
pontos. Mas, quando falo contra esse conceito de Deus, estou apenas negando a
validade desse conceito, e não desejo blasfemar o nome de Deus. É possível
alguém rejeitar um conceito de Deus sem blasfemar-lhe o nome. Por outro lado,
esses conceitos não aparecem somente na Bíblia. Também aparecem no Alcorão, e
Maomé conseguiu impor-se mediante a espada desembainhada. Os árabes
fundamentalistas ou ortodoxos também são assim. A moderna escalada terrorista
reflete uma maneira doentia e impensada de tentar produzir a mudança social
através de insensatos atos de violência, como destruição de bibliotecas e a
matança praticada contra pessoas inocentes, como os turistas (que não podem ser
confundidos com soldados), têm assinalado as ações terroristas. E assim, aquilo
que os terroristas imaginam serem atos promotores de justiça, não passa de atos
covardes. É evidente que o ódio sem motivos reais e mentes malignas está por
trás desse tipo de atividade. O homicídio continuará sendo homicídio, sem
importar se os homens o rotulem de qualquer outra coisa.
Aproveitando um breve intervalo de silêncio feito por
Quiriat, todos quiseram falar, mas Alves falou mais alto e prevaleceu sua
palavra.
- Agora mesmo, atos de terror irrompem por todo o
mundo. Em cada um dos países afetados, a mídia se encarrega de exercer seu
papel de informar à população dos acontecimentos, dando nomes aos responsáveis
por tais atentados e assim as populações se revoltam e tremem diante dos
horrores desses atos brutais e gritam todos pelas ruas “Quem nos salvará?!”. Se
considerarmos como verdade o que nos falou, podemos ver o que acontece ao nosso
redor com um novo olhar e que nos permite compreender tais atos brutais, pois,
até então, uma muralha nos separava quanto ao entendimento das causas dos
acontecimentos. E pudemos observar atentamente a situação em todo o mundo- disse
Alves.
- E nos de países unidos por interesses comuns,
curiosamente, elegem um só inimigo. É surpreendente como se alastrou este mal
por toda a humanidade – disse Maria.
- E podemos notar que a situação não tardou para atingir
níveis ideológicos. Para alguns líderes, a causa estava na liberdade excessiva
dada ao povo nos últimos tempos, inclusive a liberdade religiosa. Não faltaram
aqueles que diziam que a liberdade era irrealizável, porque a multidão não
sabia usá-la de maneira justa e, quando dada ao povo, logo se transformava em
quebra de regras e convenções sociais e logo surgiam desavenças entre as
pessoas, que se transformavam em batalhas sociais e tudo era reduzido às cinzas
- disse João.
- E realmente, fica difícil ser contrário àqueles
conservadores que argumentam que os líderes saídos da massa, não conseguem
dirigir um país sem confundir com seus interesses pessoais – falou Alves.
Neste momento Quiriat, percebeu que aquele era o
momento de retomar a palavra e concluir o que começara.
- Peço que escutem o que eu tenho a dizer, mesmo que
lhes pareça estranho. A Elite pode ver seu plano tornando-se realidade. Ela sempre
levou em conta a covardia, a instabilidade e a inconstância da multidão,
incapaz de dirigir a si mesma, pois, transforma a liberdade em barbárie, que é
a anarquia em seu mais alto grau. E o tempo viera mostrar que estavam certos ao
afirmarem que a força da multidão é cega e insensata. Era necessário que a
massa fosse conduzida, pois, ela não passa de um elemento passivo. A atual
situação mundial fora resultante de um trabalho que teve seu início, quando
investiram na crença na covardia dos líderes saídos do povo, que nada entendiam
da arte ou ciência da organização; da direção e da administração de nações ou
Estados, quando se trata da aplicação desta arte aos negócios internos e
externos de uma nação e, por isso, não podem pretender governar sem logo perder
o poder. Assim, somente indivíduos preparados por eles, desde a infância, têm
condições para exercer o poder, pois, são ensinados a conhecer a linguagem e a
realidade políticas. Somente estes são capazes de governar. Esse conhecimento
da fragilidade do ser humano permitiu a Elite prever o desenvolvimento da
civilização. E assim, aquilo que florescera no coração do povo, isto é, a
Liberdade e a Igualdade, agora somente existem em letras escritas no palavreado
vago das Constituições e nas fachadas dos
edifícios públicos. Quem me ouve, entenda – disse Quiriat, concluindo o que
viera dizer.
- Mesmo considerando que tudo aconteceu assim, será
que todos os homens sabem disso? E se soubessem, acreditariam? E se não, quem
os convenceria? – Disse Alves, pensativo.
- Por outro lado - continuou Alves, depois de parecer
ter pensado em algo que não percebera antes. Será que devemos levar a sério
todas as palavras ditas aqui hoje? E por que digo isso? Vamos enumerar as
ideias que foram aqui apresentadas. Em primeiro lugar Quiriat nos disse no
início desta conversa, que a terra não é redonda, ela é plana; em seguida nos
relatou, e diz ser verdade, que toda essa história começara num tempo tão
longínquo que nem conseguiríamos imaginar, sobre os “seres angelicais malignos”
que sempre viveram aqui e se relacionaram com os seres humanos, dando origem a
descendentes com os genomas modificados e aos quais chamou de híbridos, por
causa da mistura do DNA; disse, também, que eles faziam parte de um grupo ao
qual chamou de “A Elite” e que está por trás de todos os atos perversos que
aconteceram em todas as civilizações que
já existiram em todos os tempos. E disse tudo isso com a autoridade, segundo
afirma, de quem veio do mesmo lugar que vieram tais seres. Ora, por que ele
seria diferente e quem nos garante que também não está mentindo, como eles?
Dada à seriedade dos assuntos aqui tratados, peço que não se ofendam com o que
vou dizer, pois, de maneira alguma lhes faltaria com o respeito, mas, nós não
sabemos como ele apareceu por aqui e nem de onde veio, realmente. Ou alguém
aqui pode dizer?
- Tenha calma... – disse Maria, dirigindo-se a Alves.
- Mas, eu estou calmo. Eu quero apenas entender. Vocês
dois, por seu lado, falaram o que falaram porque estava de acordo com suas
crenças cristãs, logo, são suspeitos no que diz respeito a um julgamento
imparcial. E quanto a mim? Eu sou um lobo solitário, que buscou um lugar longe
das multidões e que, antes disso, viveu parte de sua vida internado num
manicômio por ser considerado um indivíduo de personalidade psicopatológica e
de comportamento antissocial, ao qual faltava senso de responsabilidade moral
ou consciência. É isto que é dito de pessoas como eu.
Se por um acaso qualquer, alguém que por ali estivesse
passando e olhasse para o que se desenrolava naquele grupo, ficaria mais do que
espantado. Certamente não diria que Alves estava longe de parecer calmo, mas,
também não poderia dizer que estivesse nervoso ou mesmo descontrolado; antes, se
parecia mais com alguém que tivesse perdido as rédeas do pensamento e sentia-se
desamparado, num lugar onde nunca houvera estado antes e sem saber em que
direção ir.
E no instante que se seguiu, todos os olhos
continuavam fixos em Alves e, sem saber de quem partira, o silêncio foi
quebrado.
- Está escrito que no
futuro surgirão falsos mestres que, se possível fosse, enganariam até os escolhidos...
Continua...
EP. Gheramer
O PROJETO - Capítulo 9
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EP. Gheramer
-
Já que tocou neste assunto, posso lhe fazer uma pergunta indiscreta? – Perguntou
Alves, dirigindo-se a João.
-
Perguntar pode, não sei se saberei responder – disse João.
-
Como missionários cristãos, vocês já viajaram por quase todo o mundo, como já
disseram. O que os levou a deixarem sua religião e vir para um lugar isolado
como este, em que não há pessoas para ouvirem suas pregações? – Disse Alves.
-
Não é indiscreta a sua pergunta e mesmo que fosse, eu e Maria, consideramos
você e Quiriat como amigos e, como tal, merecedores de toda a nossa confiança e
estima. Mas, a resposta não é tão simples e, para respondê-la, terei que
começar falando de religião e de nossa discordância quanto aos dogmas e
doutrinas da denominação à qual pertencíamos. E isso começou muito antes de
nosso afastamento definitivo da igreja. Foi um processo crescente e não sei se
estariam dispostos a ouvir – disse João, ao mesmo tempo em que olhava para Maria.
-
Da minha parte, devo dizer que estou curioso – disse Alves, ao mesmo tempo em
que Quiriat balançava a cabeça num sinal de concordância.
-
Pois bem. Vocês devem conhecer a história da criação do homem, conforme é
relatada na Bíblia e em muitos outros textos sagrados, existente nas mais
diferentes culturas humanas. Pois, foi aí que tudo começou em nossas mentes.
Mas, não pensem que isto nos tornou menos crentes. Não, pelo contrário,
deixamos de servir ao homem para poder servir a Cristo. Gostaria que isso
ficasse bem claro, antes de prosseguir – disse João, como esperando o sinal
verde para continuar.
-
Inteiramente à parte do que o autor do livro de Gênesis pode ter querido dizer,
nós começamos a examinar a questão por outro ângulo. Em nossa busca,
encontramos muitos estudiosos sérios que diziam haver evidências científicas
válidas em prol da vasta antiguidade da Criação, não somente do homem, mas do
Universo... – dizia João, quando foi interrompido por Alves.
-
Interessante ouvir você falar isso. Algum tempo atrás, durante uma palestra de
um astrônomo, ouvi que a idade dos meteoritos, medido pelo método do
radiocarbono, sugere que o sistema solar tem mais de quatro bilhões de anos -
disse Alves.
-
Sim, acredito que quanto mais antiga reconhecemos ser a Criação e graças à
ciência, o homem vai descobrindo mais fatos que vão deixando de lado as teorias
que não passam de fábulas e para nada aproveitam, ao mesmo tempo em que
confirma o que já se sabia – concordou João.
-
Ocorreu-me agora, que isto nos leva ao que é relatado sobre o Dilúvio. A
ciência nos diz que devido ao deslizamento da crosta terrestre, ocorrem grandes
inundações e explosões vulcânicas de incalculável potência e penso que tal
descoberta não invalida as palavras dos textos considerados sagrados pelas
diferentes culturas... – disse Alves.
-
Se aconteceu assim, cada alteração dessas foi acompanhada pela quase destruição
de todos os seres vivos e se calcularmos as datas gerais, de acordo com vários
eruditos, da última e da penúltima dessas mudanças, chegamos perto da
cronologia bíblica de Adão e Eva – disse João.
-
Para que eu possa melhor acompanhar... Vocês estão falando da mudança de
posição dos polos terrestres, mas não estão falando que os polos da terra se
inverteram, isto é, o Norte e o Sul não trocaram de lugar. É isso? – Disse
Quiriat.
-
Claro que não. Na verdade, trata-se da mudança dos polos magnéticos Norte/Sul e
parece que outra está em curso e que isso seja o verdadeiro motivo por trás da
aceleração das mudanças climáticas em todo o planeta. E essa circunstância
levanta a interessante possibilidade de que as narrativas bíblicas da criação
desses dois seres representam as duas últimas modificações dos polos, pelo que
seriam “novos começos” e não começos absolutos – disse Alves.
-
Nesse caso, Adão seria uma espécie de Noé, representando o reinício da raça -
disse Quiriat, ainda querendo certificar-se de que eles sabiam sobre o que
estavam falando.
-
Começamos a pensar em tudo isso, e, naturalmente, isso não satisfazia uma
estrita e literal interpretação do registro de Gênesis. No começo ficamos um
pouco preocupados com relação à nossa fé nas palavras das Escrituras. Mas,
acabamos concluindo que uma interpretação um tanto mais liberal, talvez nos
aproximasse mais da verdade dos fatos bíblicos, mesmo que outras pessoas nos
julgassem hereges. Aliás, como de fato aconteceu... – disse João.
-
Importantes hereges sempre conseguiram fazer avançar a verdade – disse Alves.
-
Por outro lado, ser um herege também não é garantia da posse de verdades mais
profundas – disse João.
-
Numa coisa, entretanto, parece que estamos de acordo – a verdade deve ser
buscada – disse Quiriat.
-
Penso que não podemos solucionar todos os nossos problemas de conhecimento,
simplesmente voltando-nos para algum “texto de prova”, retirados de livros
considerados sagrados, para extrair dele a interpretação que satisfaria apenas
nossas exigências de conforto mental – disse Alves.
-
Sim, eu concordo com isso, pois, apesar da verdade algumas vezes vir à tona
subitamente, na forma de um pacote feito, com maior frequência assemelha-se a
uma mina, que precisamos cavar para descobrir – Disse Maria, que estivera em
silêncio.
O
relato que se seguiu, dificilmente poderia ter sido imaginado ouvir. Pelo
menos, não naquele dia e naquela hora.
João levantou-se da cadeira onde estivera sentado e demonstrando por sua
atitude serena, porém firme, que queria a atenção de todos para o que iria
falar.
-
O nosso querido amigo Alves, nos perguntou por que deixamos a igreja e nos
mudamos para este lugar afastado das multidões. Pois, vou responder. Não
deixamos a igreja somente, deixamos aquilo que se dizia representar o
Cristianismo, mas que não passava de um ajuntamento de vaidades, adultérios,
prostituição, idolatria, feitiçaria, inimizades, ciúmes, raiva, ambição
Egoísta, desunião, invejas e Orgias. Foi nisto que os homens transformaram os
ensinamentos de Cristo. Representam o Cristianismo? Sim, representam, mas não
os verdadeiros cristãos. Foi um processo lento este amadurecimento espiritual.
E como uma coisa leva à outra, começamos a notar que quando falávamos do
Evangelho para as grandes multidões que lotavam estádios de futebol e como
sempre fazíamos ao final de cada pregação, pedíamos que quem quisesse aceitar a
Cristo como seu Salvador levantasse sua mão.
E muitos braços se levantavam. Centenas, milhares... Para nós, isto é,
para todos os religiosos que compunham nossa equipe, aquelas milhares de mãos
levantadas significava uma vitória do Reino de Deus. Em seguida, essas pessoas
eram convidadas a deixarem seus lugares e se aproximarem do palco onde nós
estávamos para serem instruídos nas palavras do Evangelho para que,
posteriormente, pudessem ser batizados e então pertencer ao seleto grupo dos
salvos, que compunha nossa igreja, a nossa denominação religiosa, que se
autodenominava cristã. Pois bem. O fato que presenciamos e que aconteceu logo
após uma dessas reuniões e que foi fator preponderante em nossa decisão, foi
que pudemos perceber que, definitivamente, levantar a mão não significava
seguir a Cristo, apenas tornava aqueles que o faziam, em membros de uma igreja.
Mas suas vidas não eram transformadas somente porque levantaram a mão e foram à
frente de todos. Naquele momento, compreendemos que ser “salvo” ou liberto era
muito mais do que aquilo. A Libertação é muito mais do que o perdão dos pecados
e a mudança de endereço para os céus e muito menos para uma igreja.
Neste
momento, vendo a emoção embargar a voz de seu companheiro, Maria levantou e foi
colocar-se ao seu lado, como que a confortá-lo. Ele então ele continuou a
falar.
-
Como eu dizia, logo após uma dessas pregações realizadas no maior estádio de
futebol da Capital, embarcamos no ônibus
que nos levaria de volta ao hotel, onde nos reuniríamos com as autoridades
estaduais para um farto jantar. Enquanto
o ônibus transitava pelas ruas destruídas pela guerra civil que assolava aquele
país, víamos velhos e crianças famintas e abandonadas perambulando pelas ruas,
sem ter onde morar. Era o horror dos horrores. E, diante de tal quadro, meus
irmãos missionários conversavam entre si sobre tais infelizes: vejam esses
animais embriagados, imbecilizados pelo álcool; eles são uns bárbaros que não
souberam usar a liberdade que lhes foi dada pelos governantes, dizia um.
Enquanto outro explicava a razão: isto é porque o Governo foi formado por líderes
eleitos saídos de seu próprio meio, foram escolhidos por eles mesmos. Eles não
conseguem dirigir um país sem confundir com os seus interesses pessoais – dizia
outro. Vejam meus irmãos, como nós somos abençoados e espirituais, santos e
possuidores de uma vida que é eterna; não somos como estes que são apenas
sangue e carne – disse o nosso líder missionário.
João
fez uma pausa como para recuperar o fôlego e continuou.
-
Após o jantar, ficamos todos ali reunidos no salão, sentados em confortáveis poltronas.
Grupos isolados conversavam e as palavras saídas de suas bocas eram fúteis e
para nada aproveitavam; falatórios que não rendiam a Deus o culto que lhe é
devido e que somente tinham a aparência de piedade, mas negando a eficácia
dela. Na verdade, demonstravam que nunca chegaram a conhecer Aquele que disse
para “amar ao próximo” e que “Deus é amor”. Eles apenas confessam que conhecem
a Deus, mas negam-no com suas palavras e obras. Foi quando, impulsionado por
uma força sobre-humana e tomado pela indignação, coloquei-me sobre uma mesa no
meio do salão e falei em alta voz para
que todos me ouvissem e chamei-os de hipócritas e vendilhões da palavra.
Subitamente surpreendidos, eles ouviam paralisados e, quanto mais eu falava,
mais eu me afastava deles, duas vezes mais do que eles de mim. E, também por
outra força sobre-humana, a cólera e a ira foram tomando conta de mim. Foi
quando senti o toque suave da mão de Maria sobre o meu ombro, ao mesmo tempo em
que mansamente falou: “Não entres em questões loucas, contendas e em debates,
porque são inúteis e vãs”. Ela citava uma passagem bíblica. Foi o
bastante. Súbita e instantaneamente, uma
profunda paz desceu sobre mim e nós dois, abraçados, abrindo caminho por entre
aquelas pessoas escandalizadas e perplexas, afastamo-nos daquele lugar. O que
aconteceu depois foi de uma baixeza tamanha. Nós fomos isolados; nem sequer
permitiram que continuássemos no quarto do hotel, que fora reservado e pago
pelos líderes do partido de oposição ao atual, que estava no poder. Por outro
lado, percebemos da maneira mais dolorosa, porém benéfica, o papel que a
religião desempenhava junto ao povo e, por isso, necessária aos que almejam o
poder, inclusive o religioso. O que digo, digo-o com palavras. Mas, elas não
expressam a imensa dor e o desamparo que desabaram sobre nós. E não demorou
muito para aqueles que antes nos convidaram, agora exigiam a nossa saída do
país. Aquele povo estava entregue a si próprio, ou melhor, estava entregue aos
ambiciosos que saíram do seu próprio meio e arruinava-se na discórdia dos
partidos, excitados pela sede de poder e pelas desordens resultantes dessa
discórdia.
-
Eu me lembro desta época – disse Alves. As guerras irrompiam por todo o mundo.
A mídia se encarregava de exercer seu papel de informar à população dos
acontecimentos, embora de maneira tendenciosa, dando nomes aos responsáveis por
tais atentados. Foi quando passamos a ter consciência do que acontecia ao nosso
redor, pois, até então, uma muralha nos separava dos acontecimentos mundiais.
-
Tenho algo a falar e penso que será útil para o entendimento deste assunto,
mas, dado o avançado da hora, sugiro que deixemos para outro dia... Por
enquanto, digo apenas que aconteceu antes dos tempos dos séculos – disse
Quiriat, enigmaticamente.
Continua...
EP.
Gheramer
Buraco negro
Um conto de 2011, inspirado num vídeo...
JG
Você acha que tem um trabalho muito ruim, imagine se eu lhe
contar o meu.
Tá certo, não é dos piores, mas exige um comprometimento
lascado. Pior que o meu só o do camarada ali.
Imagine uma tarde de sábado, um escritório quente sem ar
condicionado, que é responsável por um milhão de processos e somente um
funcionário que ficou encarregado de tirar outro milhão de cópias destes
processos, numa máquina de xérox mais antiga do que uma senhora de idade
avançada.
Imaginou?
Pois é, esse funcionário existe, olha ele ali, com uma cara
de dar medo.
Imagine também então a felicidade que ele deve estar
sentindo, principalmente por saber que não vai ganhar nem um centavo a mais por
isso, uma vez que está pagando horas que o seu terrível chefe – palavras dele -
descontou dos dias em que ele chegou atrasado.
Seu pensamento fixo é que a porcaria do relógio não sai das
15 horas, fica se arrastando, os segundos transformaram-se em minutos e os
minutos em longas horas. O suor escorre por seu rosto e a água fervendo do
bebedouro não ajuda em nada no seu ânimo.
A ansiedade é gritante porque faltam somente umas cem
cópias, depois é só organizar tudo dentro das pastas específicas, separar por
prioridades, catalogar no livro de ações e depois registrar tudo em outro livro
de serviço. Ele fica “feliz” em lembrar disso, assim, devido a essa droga de
burocracia vai sair lá pelas 10 horas da noite.
Mas também, nem sei por que ele está com pressa de ir
embora, sua geladeira lhe espera vazia no seu também sufocante apartamento de
três cômodos, não existe ninguém esperando o seu retorno de braços abertos, o
dinheiro do pagamento do dia anterior só serviu para pagar os gastos atrasados,
literalmente não estava trabalhando nem para comer.
Durante a semana teve a infeliz idéia de desabafar sobre os
seus problemas com seu “querido” chefe, sonhando com algum reconhecimento por
algo que ele não merecia, e assim quem sabe recebendo de presente um aumento.
De fato recebeu, não está vendo? Um aumento de trabalho através dessa escala
não remunerada.
Está se entupindo com mais um copo de água, que apesar de
estar horrível é melhor do que o ronco que incomoda seu estômago.
Vamos, vamos copiadora jurássica, só mais cem cópias - leio
em seu pensamento, enquanto aperta diversas vezes o botão verde. Mas vejam só
isso? Parece que a máquina vai lhe deixar na mão. Tampem os ouvidos que estou
sentindo que lá vem um palavrão: %&*##$@¨%!!!
Bom, o xingo não resolveu, mas ele não se dá por vencido,
quem sabe uma bicuda.
Caramba! Creio que a máquina é dura, escutei o baque daqui,
só faltava ele entornar a ponta do sapato velho ou quebrar um dedão, epa,
voltou a funcionar, faltava só um empurrãozinho.
Mas ele não está com sorte, vejam que bela impressão: um
círculo preto. Ele deve ter ferrado a copiadora e só faltava essa, agora que
ele só sai dali amanhã, se a sorte ajudar.
Eu no lugar dele amassava a prova do crime rapidinho e
triturava, mas ele não, parece calmo até demais ou cansado o suficiente para
não dar bola para mais nada. Pega a estranha impressão e forra um pedaço
lateral da máquina.
Mais uma olhada no relógio, mas uma golada de água quente, e
agora creio que ele vai tentar retomar o trabalho. Mas o que é isso, cadê o
copo, sumiu quando ele o colocou sobre o círculo preto. Essa seria a hora de
parar tudo, dar meia volta e ir embora, escute o que eu digo, tenho experiência
no assunto. Mas não nosso amigo, ele é curioso, precisa saber o que aconteceu.
Encosta primeiro um dedo no círculo e o afasta, parecendo
ter levado um choque. Mas foi só reflexo, pois enfia a mão dentro do círculo
agora sem receio e como um mágico tira não um coelho, mas o copo lá de dentro.
Agora também seria uma ótima hora para dar no pé, mas você
já sabe que isso não vai acontecer. Então vou continuar narrando tudo que vejo.
Ele levanta a folha com o círculo no ar e lhe dá uma boa
olhada, não há sombra de dúvidas que seja um papel comum. Mas ele enfia um
braço no círculo e a mão não aparece do outro lado, como se fosse para outro
lugar...
Espere, isso é coisa do, do, não posso falar o nome dele,
vamos usar um sinônimo, sim, é coisa do mal, só pode ser. E como tal não se
pode esperar que o final dessa história seja feliz, meu sétimo sentido está
prevendo isso.
Mas esperem, creio que o nosso amigo encontrou uma utilidade
para a folha mágica, mas o que será que ele está pensando? Não, não pode ser
isso, pare com isso cara!
Ele se aproxima com a folha e a encosta numa máquina de
guloseimas e faz o teste, que dá certo! Consegue atravessar a mão pelo vidro
através do buraco e volta com uma barra de chocolate.
Não posso culpá-lo, o dia todo sem comer, mas isso se chama
furto, meu filho.
Até concordo que fazer um plantão inteiro sem forrar o
estômago é complicado, mas ele chegou ao fundo do poço se teve que apelar para
tal atitude, por mais absurdo que seja o método utilizado.
Você concorda comigo que agora novamente é o momento
fatídico para se brecar toda uma situação que pode ter conseqüências
desastrosas. Mas creio que assim como eu você também está começando a prever o
futuro do nosso amigo e não prevejo que ele seja dos melhores.
Falando nisso lá vai ele em direção ao escritório do seu
amado chefe, imagino que ele vai aprontar alguma, mas nem faço idéia do que.
Para abrir a porta foi fácil, é daquelas que tem um
dispositivo interno que libera a tranca, bastou colocar a folha com o círculo
colada na porta, atravessar a mão pelo papel mágico e abri-la por dentro.
Creio que ele vai bagunçar a mesa do chefe, mas espere, ele passou
direto por ela e veja só que interessante, tem um grande cofre no fundo da
sala. Agora imagino em que trapalhada nosso amigo vai se meter.
Ele nem olha para os lados, sabe que está sozinho, sabe o
que quer fazer e não reflete um segundo.
Uma esperança! Ele volta para a mesa do chefe, talvez tenha
mudado de idéia, vai só fazer algum brincadeira sem graça e dar no pé, retornar
à copiadora, terminar seu serviço, passar uma borracha nos últimos minutos.
Nada disso, somente encontra um rolo de fita do tipo Durex e
volta correndo para o cofre. Cola desesperadamente a folha na parede de aço
maciço e enfia um braço, quase que imediatamente o retirando com um maço de
verdinhas, o qual ele admira por alguns milésimos de segundo, antes de voltar a
enfiar o braço novamente e sair com outro maço, agora mais desesperado ainda.
É, ele está cavando um buraco sem fundo para ele mesmo,
sabemos disso. O que? Você não sabe de nada, não está acreditando em nenhuma
palavra do que eu disse, não é mesmo. Eu sabia que isso ia acontecer, mas para
seu conhecimento eu não posso mentir, tenho um juramento sagrado que me impede.
Mas não pense você que eu não tenho provas, sou um ser
moderno e sempre carrego comigo preso na cinta uma máquina fotográfica que
também filma, maravilha de tempos modernos! E advinha só, filmei tudo, do
começo ao fim, bom, quase isso!
Ainda não acredita, então olhe abaixo o registro que eu fiz,
olhe e perceba o tamanho da burrada desse nosso amigo.
E aí, o que achou? Eu não falei que isso não ia acabar bem.
Mas é fácil de explicar o que o motivou a não parar quando chegou ao terceiro
ou quarto maço de notas fresquinhas: a ambição humana, sempre ela!
Quando ele colou a folha com o círculo negro, eu já
suspeitava que ele quisesse ficar livre com as duas mãos para poder “trabalhar”
mais facilmente. Agora entrar no cofre era algo que eu jamais suspeitava que o
doido fosse fazer, não imaginei que existisse alguém tão pirado assim.
Acredito que você esteja se perguntando por que eu não
interferi, sendo que acompanhei tudo que aconteceu. Também é fácil de explicar
isso, pois estou preso ao juramento do livre arbítrio, ou seja, deixar que os
homens tomem suas atitudes de acordo com as suas próprias decisões.
É claro que eu lhe mandei bons pensamentos, implorando que
ele não fizesse aquilo, que largasse tudo e fosse embora, mas parece que nesse
caso o mal falou mais alto, ou melhor, sussurrou mais forte em seu ouvido.
É, o negócio e ir embora, apesar das batidas que ele está
dando nesse momento para tentar sair do cofre incomodar meu coração. Quem disse
que a vida de anjo da guarda é fácil, também tem que fazer serão em sábados sem
ganhar hora extra. Brincadeira!
Bom, vou indo, acabou de encerrar meu turno...
Brincadeira de novo, só vou buscar uma ajuda para salvar
nosso amigo trapalhão. Quem sabe acordando o vigia que pegou no sono na frente
da teve no refeitório.
Mas antes de ir embora, você deve estar imaginando como toda
essa história terminou, porque infelizmente a bateria da minha filmadora acabou
e não deu para registrar tudo.
Para resumir, consegui estimular o vigia para que fizesse
uma ronda na empresa. Ele se deparou com o escritório vazio e a porta do chefe
aberta. Já suspeitou de tentativa de furto ou algo do gênero, mas creio que a
sua reciclagem estava um pouco atrasada, isso se ele fez algum bom curso na
área de segurança, pois não chamou ninguém pelo rádio e foi invadindo a sala.
Ele ouviu o barulho do nosso amigo batendo dentro do cofre e
rumou em sua direção. O que ele não viu foi o círculo preto no chão quando ele
chegou na frente do cofre, e acabou indo parar dentro do aterro abaixo do
prédio. Se ele saiu de lá, preciso perguntar para o seu anjo da guarda, depois
eu lhe conto.
Quanto ao nosso amigo trapalhão, bom, não teve jeito, lá vem
ele, chegando aqui no andar de cima.
O círculo preto? Assim como surgiu, desapareceu, só ficou
uma folha branca jogada no chão. Até hoje os peritos não sabem como foi que o
nosso amigo conseguiu entrar no cofre e se fechar lá dentro, o caso entrou para
os crimes sem solução.
Mas eu creio que ele surgirá novamente em outro lugar, numa
outra época, provavelmente para testar outra pessoa.
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