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Reprises de um filme sem fim

Eis um conto para os amigos escrito em 2009 que dispõe sobre os "círculos viciosos" que tomam conta da nossa breve existência...
JGCosta






João acordou cedo...
Desde quando nasceu todo dia mesma coisa: palavrões, gritos, tiroteios...
Agora com 12 pensou muito e chegou a uma conclusão:
“Essa vida não é pra mim!”
Estudou e se formou, arranjou emprego bom e cresceu profissionalmente.
Agora doutor com casa bela e bem localizada, visitava a mãe vez em quando na favela. Ela dizia que lá era seu lar e de lá só sairia num caixão.
E numa dessas visitas de João foi isso mesmo que aconteceu...
Mais uma vez cenas conhecidas de sua infância se repetiram e uma das munições se perdeu do seu destino e encontrou o peito da velha mãe.
De novo João muito pensou e a uma nova conclusão chegou:
“Saí daqui para driblar o sofrimento, mas foi inevitável deparar-me com ele. E o que foi que realmente eu fiz para mudar esta realidade?”
Ao invés de se revoltar, vendeu a casa, voltou pra favela e foi cuidar dos pequenos, ensinando para muitos como era a cara da esperança, um fantasma que assombrava outros cantos e que ali já se tornara lenda.
Ficou conhecido, arranjou esposa, teve um filho, o Junior, um novo João.
O novo João cresceu e um dia pensou que ali não era seu lugar. Estudou, para longe mudou e como o velho João doutor se formou.
E também numa de suas visitas ao pai aconteceu uma reprise e agora seu velho agonizava no chão de tábuas do barraco, com um presente de grego cravado no peito e antes que o ar lhe faltasse e a visão embaçada se apagasse ele agarrou o novo João pelo braço e após muito pensar chegou a sua última conclusão:
-- Filho, eu quis fugir e conheci um mundo diferente. Voltei e descobri que nada mudou! Não importa o tempo que passe, parece que existe uma força maior por aqui ou talvez seja assim mesmo que tudo tenha que ser. Eu sei no que está pensando, pode crer, eu sei! Pensa em voltar e tentar fazer algo de importante para que outros tenham a possibilidade de se encontrarem um dia num mundo melhor, eu sei disto tudo e lhe faço um pedido: continue sua vida longe daqui, constitua família e seja feliz, como eu tentei e acho que fui...
O velho João se foi. O novo João pensou muito, decidiu ficar e acabou formando uma família e...
É, isso mesmo, até hoje a história se repete e a só uma conclusão eu chego:

“Às vezes vale a pena tentar mudar, nem que seja para morrer tentando...”

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01 - FORASTEIRO e PEREGRINO


Pintura por EP. Gheramer


Por trás de montes e vales, em terras distantes, há uma cidade pela qual passa um trem apenas uma vez a cada quarenta anos. E, ao passar, só para na estação se houver algum passageiro para embarcar ou para desembarcar, e nunca houve. Da última vez em que o trem parou, quarenta anos atrás, se algum passageiro desceu ou subiu ninguém sabia; só quem sabia era o próprio que, porventura, embarcara ou desembarcara.
 Assim também aconteceria daqui a cinco dias, quando se completariam os quarenta anos desde a sua última passagem daquele trem por aquele lugar. Quem embarcaria? Alguém desembarcaria?
Ali, embora todos se conhecessem, cada um não sabia os nomes dos demais habitantes. Cada um cuidava da sua própria vida; quanto ao mais, não era da conta de ninguém.
Os cinco dias se passaram e logo pela manhã, a locomotiva despontou na curva, lá longe na linha férrea, onde a vista mal alcançava e parou na velha estação, com suas paredes envelhecidas pelo tempo, depois de dar dois apitos que puderam ser ouvidos por todos, onde quer que esteja cada um de seus habitantes, pois a cidade era pequena. Porém, sua parada fora rápida e em seguida, com mais dois apitos, continuou seu trajeto. Parou somente o tempo necessário para um passageiro desembarcar.
Parado na estação deserta, Benjamim acompanhou com os olhos a partida do trem até perdê-lo de vista. Em seguida, tomando sua mala, até então apoiada no chão ao seu lado, pôs-se a andar pela estação em direção ao que lhe pareceu ser a rua principal da cidade. Ao chegar encontrou-se numa rua comprida, com o asfalto desgastado e com apenas uma casa à sua margem, do lado direito. Não ficou surpreendido, pois, era justamente o tipo de lugar que esperava encontrar. Depois de andar por algumas horas foi encontrando, aqui e ali, pequenas construções separadas umas das outras por grandes distâncias, mas, não viu viva alma enquanto caminhava.
O lugar parecia-se com aquelas Cidades de Refúgio sobre as quais havia lido e que existiam nos países antigos que eram, essencialmente, medidas judiciais auxiliares, para ajudar o escape dos homicidas involuntários. Visto que o código de vingança era forte, os parentes de uma pessoa morta por outrem matavam sem misericórdia o culpado pelo homicídio, sem temer qualquer ação da parte da lei.  A lei da retribuição, em Israel, requeria punição igual ao crime.
Ocorreu-lhe que não era muito diferente daquilo que acontecia nos dias de hoje nos grandes centros urbanos, com seus apelos ao preconceito racial, sexual, religioso, ao fervor nacionalista raivoso que perseguiam aqueles que tinham uma conduta diferente da moral estabelecida. As pessoas tinham a necessidade de se agarrarem a certezas, porque tinham a necessidade de pertencer a alguma coisa, a algum grupo. É a necessidade de dividirem sua incapacidade de serem elas mesmas sozinhas. Era a questão do quem eu sou, se sou bom ou mau, bem sucedido ou não. E sempre fora assim, a presunção de saber o que é o Bem e o que é o Mal levou o homem a ter uma existência marcada pela culpa e pela vergonha, ao mesmo tempo em que roubou a paz de ser uma pessoa e impingiu uma moral coletiva que impede de prosseguir para uma consciência de ser enquanto indivíduo. Mas, diferentemente dos tempos antigos, não encontram refúgio como encontravam nas igrejas, santuários e nos lugares considerados santos, de todas as variedades religiosas. É uma ilusão a segurança encontrada hoje em tais lugares, porque só a encontra na moral coletiva e fora dela não há salvação. Ou você faz parte ou fica só, torna-se um forasteiro e peregrino. E isto pode ser insuportável...


Continua...

EP. Gheramer

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Desafio de Natal 2015 - O presente de Ana Clara - Gilberto de Almeida


O mundo de Ana Clara, para quem pudesse penetrar os labirintos de seus pensamentos, era um recrudescer de memórias que a transportavam para outros tempos, outros lugares. Quem a via ali, sentada no sofá  da sala, muda e solitária, enquanto as outras crianças se espalhavam em irreverente algazarra pela casa, não poderia ter noção do que se passava no universo íntimo daquela pequena rolinha que parecia caída de um ninho existente em outra dimensão, não nesta.

O pensamento de Ana Clara ia pelos natais passados, quando a mãe ainda era viva. Não tinha lembranças do pai, nem muitas informações sobre ele. Essas eram reminiscências que a querida mãezinha parecia guardar com ternura infinita, a sete chaves, no templo sagrado de seu coração.

Todas as lembranças de natal, que não eram muitas na juventude de seus nove aninhos, vinham-lhe à mente, de certo modo, como reedições do mesmo quadro de simplicidade e doçura. Em companhia da mãe, na véspera do aniversário do querido Jesus, dirigiam-se, com um grupo de pessoas, a certa rua de sua cidade, onde ela cooperava até alta madrugada com aquela gente tão simpática que servia sopa quente aos pobres e aos necessitados. Quando aparecia uma criança (e apareciam muitas!), sempre tinham uma pequena lembrancinha, embrulhada lindamente, para presentear-lhe. A cada sopa e a cada lembrancinha entregue, aquelas pessoas boas faziam questão de dizer:

- Esta sopa e esta lembrancinha são presentes do nosso amigo Jesus!

Ana Clara lembrava nitidamente daqueles rostinhos, alguns de crianças da sua mesma idade, outro um pouco mais velhos ou mais novos, porém, a maioria, com uma aparência sofrida, triste! A pobreza era notável pelas roupas, às vezes até por um não sei quê no aspecto de sua pele, no cheiro... Algumas, às vezes, pareciam com ela mesma quando ficava adoentada. Mas quando recebiam um prato de sopa, um presentinho, um carinho daquelas pessoas que chamavam a si mesmas de "voluntárias", a menina parecia ver uma alegria escondida brotar de dentro e iluminar aqueles olhares ensombrecidos pela tristeza da vida!

Como era bom aquele amigo Jesus, que trazia luz à escuridão da noite interior!

Mas logo, logo, Ana Clara deixava de lado a tarefa de servir sopa e se entretia com alguma brincadeira ou conversa com aquelas crianças que tanto comoviam seu coraçãozinho infantil.

Madrugada adentro estavam ela e a mãezinha voltando ao lar. Aí era o momento de íntimo contentamento, após o trabalho gratificante e as aventuras caridosas daquela noite. Quando chegavam à casa encontravam a árvore de natal, que ambas haviam enfeitado modestamente, à qual se ajuntava uma das lembrancinhas, que a mãe sempre trazia da atividade noturna. O seu, como o das outras crianças, era um presente entregue por aquele Jesus carinhoso e amado! Felizes, as duas sentavam-se ante uma pequena mesa onde uma vela natalina colorida e perfumada, iluminava candidamente o ambiente.

Então a mãe se punha a contar à filha amada as histórias de vida do Aniversariante Celeste, com tamanha ternura na voz, que ambas, extasiadas pela serenidade acolhedora daquela hora, pareciam levitar por sobre os limites da vida cotidiana, atingindo, pelo menos em seu íntimo, as alturas que sonhamos serem habitadas somente pelos anjos. E nesse estado de êxtase sublime passavam sagrados minutos que poderiam bem ser horas, pois ninguém conseguiria medir,  com os ponteiros do relógio, o tempo em que um ser humano se entrega a outro em verdadeira comunhão amorosa.

Depois, uma pequena refeição, uma oração de agradecimento àquele meigo amigo Jesus e um sono pacífico até a manhã seguinte. Durante esse sono, Ana Clara costuma sonhar com aquele Anjo feito homem, que a acolhia em seu colo no alto de uma colina, à sombra de grande mangueira. A brisa fresca vinda da pradaria, balançava suavemente a túnica alva que vestia o corpo esbelto do Divino amigo. Seus cabelos castanho-avermelhados dançavam candidamente ao canto de rouxinóis invisíveis que teciam, no vento, sua sinfonia de amor. Os olhos doces e azulados de seu protetor dos sonhos contemplavam-na com infinita candura, como se lhe dissessem que no mundo não havia nada a temer; que, no mundo, tudo seria paz enquanto estivesse acomodada em seus braços... Ao amanhecer a menina guardava a impressão viva de que havia estado realmente nos braços do benfeitor dos pobres, dos oprimidos e dos necessitados... E assim passava dias de felicidade com aquela sensação de acolhimento em seu coraçãozinho esperançoso...

Essas eram as recordações felizes da pequena rolinha descida de seu venturoso ninho.

Depois, não demorava muito, e vinham as imagens tristes da ocasião em que a mãezinha adoecera. A menina, pequena criança assustada àquela época, via a mãe querida emagrecendo dia a dia, seus cabelos rareando, a ossatura tornando-se proeminente, mas nada compreendia. Na fisionomia sofrida da genitora, pressentia dores terríveis às quais a mãe parecia resistir com esforço heroico, para nada demonstrar. Ao contrário, dizia-lhe para ser forte, que estava tudo bem!

Um dia, sua mãe, já num dos últimos momentos em que passariam juntas, chamou-a ao quarto, e anunciou com extrema ternura:

- Eu terei que viajar para longe daqui, minha filha. Ficarei esperando... Um dia nos reencontraremos. Enquanto isso, sua tia Elisa irá cuidar de você. Você ficará feliz por tê-la como amiga. A tia Elisa é um anjo que Deus está colocando na sua vida...

A menina compreendeu o que ficara nas entrelinhas e chorou amargamente ao ouvir essas palavras. Mas de nada, evidentemente, adiantou! Poucos dias depois, estava morando com sua  tia Elisa. E poucos dias mais, estava agora sentada na sala dessa tia, à véspera do natal. Sua mãe tinha ido encontrar-se com Jesus. Isso a consolava. Imaginava Jesus segurando a mãezinha no colo, da mesma maneira como fizera com ela em seus sonhos de natal. Assim tinha certeza de que tudo estava bem, de que não havia nada a temer, de que, no mundo de sua mãe querida, tudo seria paz enquanto estivesse acomodada nos braços desse Jesus amado....

Foi quando soou a voz estrondosa de seu Augusto, marido da tia Elisa, arrebatando abruptamente a pensativa Ana Clara de seus sentidos devaneios:

- E, agora, aquele que todos estavam esperando acaba de chegar!  - bradou o tio - A pessoa mais importante da noite!

Ana Clara, de um salto, sentiu seu coraçãozinho disparar! Aquele que todos estavam esperando! A pessoa mais importante da noite! Quem seria? Só poderia ser uma pessoa! Seria possível? Pensava com toda a naturalidade de seu raciocínio infantil, que, em todos esses natais nas ruas de sua cidade Ele nunca aparecera pessoalmente... Mas agora havia um bom motivo! Provavelmente seu querido e amado Jesus viera até ali, hoje, na casa de sua tia, que era um Anjo, segundo palavras de sua própria mãe, para trazer notícias da mãezinha querida! O Semblante de Ana Clara iluminou-se, em maravilhado êxtase!

- Com vocês, o Papai Noel! - prosseguiu o tio Augusto!

A pronúncia dessas palavras teve efeito quase alucinatório na assembleia de crianças que se agrupara na sala maior, onde estava a árvore de natal. Foi uma gritaria geral, um frenesi que a muito custo se acalmou. Logo, Ana Clara pôde ver entrando pela porta da frente uma figura opulenta, de barbas e cabelos brancos, olhos negros e vestida de cetim vermelho. Em nada lembrava a pessoa delicada de seu Divino Amigo, de cabelos cor de ouro, olhos cor de poesia e vestes de luz...

A decepção transparecia no semblante da menina. Flagrante contraste entre sua rigidez marmórea e a efusão de entusiasmo que apropriou-se da meninada! Ana Clara, por certo, sabia bem quem era Papai Noel, apesar dessa figura alegre, embora espalhafatosa, nunca haver participado do rito singelo de seus outros natais. Mas não atinava com o motivo pelo qual o velhinho de barbas brancas fora anunciado como a pessoa mais importante da noite! Deveria haver algo de muito especial, de muito bom naquele velhinho, para ele ser ainda mais importante que o seu querido Jesus... Para ela, aquilo era muito estranho, mas os adultos - esse era o modo de pensar da menina - deveriam saber o que diziam!

Seguiram-se momentos animados em que todos receberam presentes. Depois, o velhinho foi-se embora, as pessoas serviram-se de uma farta e saborosa ceia e, pouco a pouco, os convidados despediram-se.

Mais tarde, madrugada adentro, no quarto improvisado em que estava instalada, Ana Clara não conseguia dormir. Aquele primeiro natal com a família de sua tia Elisa tinha sido uma experiência muito diferente de tudo quanto aprendera e vivera antes e, portanto, uma experiência muito perturbadora. No meio dessa inquietação, tomou uma decisão: levantou-se, tomou papel e lápis e começou a escrever...

Na manhã seguinte, tia Elisa, sempre a primeira a levantar-se, reparou naquele inesperado envelope dependurado na árvore de natal. Intrigada, tomou o envelope e leu: "Ao papai noel".

Tomada de curiosidade, leu a seguinte carta de poucas linhas:

"Senhor Papai Noel,
aprendi hoje que o senhor é a pessoa mais importante da noite de natal,
por isso acho que só o senhor pode me ajudar.

Eu queria que o senhor trouxesse para mim,
neste natal,
o meu amigo Jesus.

Obrigada,

Ana Clara."

Tia Elisa pensou, então, no que a irmã lhe dissera pouco antes de seu desencarne:

"- Você ficará feliz por tê-la como amiga. A Ana Clara é um anjo que Deus está colocando na sua vida..."

E dua lágrimas brotaram-lhe dos olhos.


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Esse cartão é para você


                                  https://www.pinterest.com/source/umacasaigualasua.com.br


         Ela usou todo o seu melhor na confecção daquele cartão... Ao representar a raiz de branco fez no sentido de demonstrar  a possibilidade de que se as raízes tiverem a essência da paz, por mais que as folhagens tenham dias escuros, de uma forma ou de outra, haverá de aprender iluminá-las (afinal, a paz é um exercício diário). 

          Gostou do efeito das nuances e do pensamento  de que ficaria muito feliz se as  cores  representadas no pinheiro viesse provocar reflexão, renovação... 

Agradeceu a Deus pelas pérolas que por hora enfeitam seu próprio pinheiro e sem mais delongas, escreveu:

Não está fácil para ninguém... Mas, não devemos esquecer que o nosso melhor presente será sempre o Amor e a Caridade. 

Feliz Natal!

Claudiane Ferreira

        A todos os leitores, autores e amigos faço votos que tenham um Natal caloroso e que reflitam os versos do Gilberto que deixei de presente para mim e também para vocês. 

                                 ... se o homem, mais humilde (e sábio), um dia
primeiro sem tentar mudar o mundo,
buscasse a luz da própria melhoria!



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Natal suspenso

Imagem daqui

Natal suspenso

Não havia nem roupa bonita nem refeição especial. O Natal, há alguns anos, celebrava-se na solidão. Claudia recordava cada instante daquele ultimo Natal preparado segundo a tradição.

Cinco anos antes, enquanto se dedicava à preparação do jantar que iria ser saboreado em família e aguardava a chegada do seu marido, cantava ao provar o molho que cozinhava. Pensava no quanto era feliz por estar na sua casa, recebendo os seus pais e sogros. Todos ansiavam pela chegada do seu marido, filho e genro para iniciar a refeição.

Quando o som do telefone a despertou dos seus preparativos, nada a alarmou. Nada lhe deu qualquer indicio sobre o correspondente nem sobre o assunto da chamada. Alguns instantes depois, a sua vida tinha sido suspensa à voz que lhe anunciara a notícia. Já não haveria Natal. Nunca mais haveria um sorriso no seu rosto ao acolher o André. Tinham terminado os abraços e o carinho que a vida lhes tinha permitido partilhar durante seis anos. O André não chegaria a casa. A vida terminava ali.

Desde então, apesar da insistência dos seus pais e sogros, dos amigos, da restante família, Claudia vivia o Natal fechada na memória do seu amor. 

Quanto aos presentes, não comprava nenhum, mas havia sempre quem lhe enviasse uma lembrança, um postal, uma carta, entre outras provas de afeto. No entanto, nenhum se juntava àquele que estava ali há cinco anos.

Ao pé da Árvore de Natal, apenas um presente sobrava. Um pequeno cartão identificava o destinatário: “Para quem tem mais valor".

O cartão apresentava a letra de André, escrita cinco anos antes. A frase tinha sido objeto de sorrisos por parte dos presentes naquela sala de jantar, antes da notícia que tudo mudara.

E Claudia, este ano como os outros desde então, continua a observar o embrulho cuidadosamente preparado para ela e hesita. Se o abrir, sabe que jamais poderá sentir a doce expetativa que representa para ela receber um presente do André. Mas, se não o abrir, jamais poderá saber o que ele escolheu para ela nos últimos dias da sua vida.

Mais um ano passará e Claudia continuará a observar o presente. O futuro sendo incerto, nada nos diz se e quando o abrirá. Talvez seja necessário que ela abra de novo o seu coração ao mundo, antes de poder desembrulhar o laço que o enfeita.

Dulce Morais

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Desafio Natal 2015 - Para quem de mais valia - Carlos NNeves




" Ao pé da Árvore de Natal,apenas um presente sobrava. Um cartão identificava o destinatário: 
Para quem tem mais valor"




No meio da noite tudo fica cheio de silencio, de olhar retrospectivo. 
Tudo o que passou fica como que paralisado, impresso em cada enfeite, em cada símbolo naquela árvore.
Chegou o grande momento!!
E  o coração esperançoso, desejoso de recuperar, dalí pra frente, muita coisa daquilo que se perdeu.
Tudo está preparado e todo coração sente seu encanto e nenhum, quase nenhum, consegue privar-se disso.
Diante daquela árvore, daquele presente, daquele tempo, "uma cálida corrente de amor inunda toda a terra"... "todos preparam a festa e tentam irradiar um raio de alegria", sejam eles fieis, ou incrédulos, ateus ou devotos...
Esperança renovada em um tempo advento onde os sinos da Missa do Galo proclamam: 
“Nasceu o Deus menino, um Filho nos foi dado... e o Verbo se fez carne”.
E brilha na noite escura a estrela guia pra mim e pra você, para nós e os pequeninos, Santos Inocentes de logo depois... 

Vinde, adoremos!!... Paz na terra aos homens de boa vontade.


Do maior 
ao pequenino
festa, amor 
e alegria
brilha a estrela
do Menino
ao que é
de maior valia.




Ref.: Edith Stein - Teu coração deseja mais - Reflexões e Orações

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Desafio Natal 2015 - Uma visita no Natal - JGCosta

Como vão todos?

Hoje pela madrugada escrevi a minha participação, postei primeiramente num fórum de games que participo (Condado Braveheart), pois também existia um Desafio similar por lá e agora venho disponibilizá-la aqui para os amigos, junto com o desejo sincero das melhores festas neste Natal e Ano Novo...
JGCosta



UMA VISITA NO NATAL


Não sei com quantos anos deixei de acreditar em Papai Noel...
Mas foi bem depois daquela noite, uma bem estranha por sinal, que algumas vezes fico com um grande desejo de contar os detalhes do que aconteceu para meus filhos ou amigos ou parentes ou ao meu psicólogo, mas logo deixo pra lá, pois vão falar que tudo foi obra da minha imaginação, afinal, ganho a vida vendendo rabiscos, então não os poderia culpar quando me brindassem com a seguinte frase: “Você inventou isso!”
E é bem por esse motivo que nunca contei o ocorrido para ninguém, mas isso não me impede de compartilhar um texto anônimo na Internet... Quem sabe alguém dá crédito ou veracidade para a história?
Se me recordo bem, eu tinha uns oito anos e morava com minha família numa fazenda afastada da cidade. Estávamos na década de 70 e a energia elétrica ainda não fora instalada em nossa propriedade, então a nossa diversão quando a noite chegava era sentar junto ao fogão de lenha com os adultos e ficar ouvindo suas histórias.
Numa noite meu avô, pai do meu pai, já bem velhinho e com uma barba branca grande e que cobria todo seu rosto, era o contador nomeado da noite. Ele nos estava visitando naquele início de primavera pela última vez, pois um mês depois acabaria falecendo dormindo, sendo convocado pelo Deus Maior para o merecido descanso, de uma vida toda só de trabalho, assim dizia minha mãe. Mas naquela noite em questão ele nos brindou com uma história de Natal, cujo final eu e meus dois irmãos caçulas gêmeos conhecíamos de cor e salteado: seja um bom garoto e vai ganhar um presente especial do Bom Velhinho...
Tem algo que preciso contar: eu não era uma criança muito fácil de lidar, não que eu fosse rebelde ou malcriado, mas era bem teimoso e quieto, como alguns garotos dos sítios do interior costumam ser, mas o meu avô me compreendia perfeitamente, dizendo que eu herdara todos os seus traços, então mantínhamos uma excelente amizade, e foi ele quem me ensinou a nadar, pescar, ordenhar, cuidar bem da terra e muitas outras coisas que me lembro. Contudo ele também sempre me aconselhou:
“Você precisa mudar o seu jeito de ser, senão também vai se tornar uma pessoa que nem eu mesmo fui, até quando me casei: sozinha no mundo, sem amigos, sem ninguém!”
Eu até tentava, mas com oito anos acredito que ainda não me empenhava o suficiente para ter algum êxito nisso, então simplesmente seguia com a vida.
Depois que meu avô morreu eu sofri muito, pois como eu disse, éramos muito ligados. O final de ano chegou logo, o país estava passando por mudanças, meu pai não andava muito bem dos bolsos, se é que você me entende, e nos informou com antecedência que aquele Natal seria um pouco mais triste, primeiro pela falta das histórias de meu avô e segundo por necessitarem economizar, então não haveria presentes nesse ano.
Por sermos filhos sensatos, não houve a menor queixa de nossa parte. Montamos uma pequena árvore com um pinheiro colhido na propriedade para simbolizar a data e na véspera do dia 25 de dezembro, fizemos nossa oração em família e fomos nos deitar. Acredito que passava da meia-noite quando uma voz conhecida veio a me acordar. Sentei assustado na cama, ouvi meus dois irmãos roncando, mas fora isso estávamos sozinhos no quarto. Escutei um barulho vindo da sala e acreditei que era um dos meus pais, então me levantei para tomar uma caneca de leite puro.
Ao sair para a sala vislumbrei um homem vestido de vermelho parado em pé em frente do pinheiro que plantamos numa caixa de madeira e que se encontrava no meio do cômodo. Creio que ele me ouviu chegar e se virou na minha direção. Era o meu avô que me disse sorrindo: “Feliz Natal meu filho...”
Recuei assustado para o quarto, depois tomando uma coragem que ainda não sabia que existia em mim, voltei para a sala, mas esta agora se encontrava vazia. Balancei a cabeça com força, tendo certeza de que andara dormindo até ali e imaginara coisas, então fui até a cozinha, tomei meu leite e voltei voando para a cama, acordando somente na manhã seguinte por volta das 6 horas.
Antes de sair para tirar leite, encontrei minha mãe toda contente, que me presenteou com um abraço, coisa meio rara entre nós.
“Parece que o Papai Noel nos visitou...”
Fui entender o que ela estava falando quando vi pedaços de embrulhos de presentes espalhados pela sala. Ao pé da nossa improvisada Árvore de Natal, apenas um presente sobrava. Um pequeno cartão identificava o destinatário: “Para quem tem mais valor!”
No fim meu pai pensou que minha mãe tinha dado um jeito de comprar os presentes e fazer aquela surpresa e minha mãe, por sua vez, pensou o mesmo de meu pai. Só eu sabia a verdade dentro do meu coração, ao desembrulhar o presente e encontrar lá dentro uma foto minha com meu falecido avô, que se fantasiara do Bom Velhinho que fora durante toda a sua vida e viera, de alguma forma que jamais saberei explicar, nos fazer uma última visita no Natal.
Eu sei, você vai me dizer: “Você inventou isso!” – afinal, eu sobrevivo de rabiscos, mas no fundo, bem no fundo, certeza mesmo você não vai ter, principalmente se conseguisse me ver agora, que estou tão próximo do ponto final desta história, com os olhos úmidos de emoção...

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Desafio Natal 2015 - Degraus - Claudiane Ferreira

Art: Jéssica Peixoto
http://www.mafuahchic.blogspot.com/


Os autores do Tubo foram desafiados a criarem uma obra inspirada na frase abaixo:
" Ao pé da Árvore de Natal,apenas um presente sobrava. Um cartão identificava o destinatário: Para quem tem mais valor"

Subindo Degraus

Annie sempre que tinha um tempo livre durante a semana aproveitava-o colocando em dia as leituras de alguns blogs que seguia. E o pontapé inicial do grande rebuliço provocado pela matriarca nesse Natal só ocorreu porque ela fora tocada pelo "Soneto de Natal", publicado no Tubo de Ensaio Laboratório de Artes, de autoria do Gilberto de Almeida.

A partir da reflexão dessa e também de outras postagens de cunho natalício do mesmo autor houve, por assim dizer, um despertamento de atitudes , ideias...

Exato um mês antes do Natal, Annie enviou e-mails aos seus filhos, genros, noras e netos comunicando as regras para quem viesse passar o natal com ela.

1-  Assim que recebesse o e-mail deveria todas as noites fazer uma oração e, como Salomão, pedir a Deus sabedoria.

2- Na semana do Natal, cada um deveria ir a um supermercado comprar alimentos de primeira necessidade para montarem uma cesta e confiando na sabedoria adquirida deveria fazer a entrega a uma pessoa que estivesse precisando.

3-  As lembrancinhas ofertadas aos familiares teriam que ser confeccionados por cada um.

4- Poderia também gravar alguma apresentação artística ou até mesmo fazer ao vivo no dia.

Observação: Os itens 2 e 3 teriam que ser passo a passo registrado com fotos. Estas deveriam ser impressas, pois seriam o passaporte para o melhor de todos os Natais.

Os netos que ainda não trabalhavam deveriam usar da própria mesada para a compra dos alimentos.

Sentia em seu coração uma alegria, estava prestes a proporcionar a sua família um Natal diferente, com certeza seria o marco de uma nova mentalidade... Sendo assim, não mais justificava uma árvore de natal de quase quatro metros.

Preferiu ir pessoalmente buscá-la no porão, fazia anos que não entrava lá, logo de cara bateu o olho no estrado de uma cama e foi desse jeito que ela encontrou e deu vida à  sua nova árvore de natal.

O grande dia chegou e na medida em que entravam entregavam as fotos ao mordomo, essas eram colocadas em um envelope com nome e depois penduradas em uma estranha árvore de galhos secos que fora colocada no meio do salão.

Em princípio, a maioria achava que Annie havia enlouquecido...No lugar da grandiosíssima árvore e enfeites glamourosos, aquela de galhos secos e uma outra de estrado com meia dúzia de penduricalhos. Até o tradicional amigo oculto foi abolido, isso sem contar o cardápio simples que seria servido na ceia.

Certa hora, Annie pediu que todos fizessem um círculo em volta da árvore de galho seco e que contemplassem sua aparente simplicidade... Após alguns minutos pediu que todos retirassem seus respectivos envelopes e retornassem ao grande círculo, também comunicou que não iria esperar até meia noite para entregar a lembrancinha que fizera e foi assim que aos poucos o colorido tomou conta do círculo. Quando todos haviam recebido as almofadas, pediu que sentassem e retirassem um papelote da bandeja que Sara estava a servir. Quem pensou que não haveria amigo oculto errou... Não haveria presente melhor do que compartilhar as emoções, aprendizados e reflexões proporcionadas pelas tais regras e também pela metáfora que havia  no centro do círculo humano.

E ficaram sentados ali durante horas até que Julia sua neta de 16 anos perguntasse:

 Vó, que estranho... Todos estão com os presentes do amigo oculto, então , de quem será o envelope que continua na árvore?

Que tal você ir até lá e conferir.

Hummm, no envelope está escrito " De Annie e sua família - 
Para quem tem mais valor . Vovó, você é mesmo muito sábia...

E de repente o espírito do verdadeiro Natal se fez, como se tivesse sido combinado, todos levantaram , deram as mãos e cada um de sua maneira reverenciou aquele menino simples de luminosidade grandiosa que nasceu em um estábulo lá em Belém.

Claudiane Ferreira

Convido-os a visitarem ou revisitarem as postagens natalinas do autor que foi mencionado nesse conto.







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O PROJETO -Capítulo 10





- Como dizia anteriormente, muitas coisas eu tenho para vos dizer e parte delas teve seu início antes dos tempos dos séculos e para as quais ainda não estais preparados para ouvir, porque tendes o entendimento cauterizado pela mentira deste mundo em que viveis. Tornai-vos impenetráveis à verdade. O conhecimento que tendes e sobre o qual construístes todo o edifício do vosso Saber é ilusório. Eu vos direi uma verdade e não tenho dúvidas de que a rejeitareis imediatamente, com toda a força do vosso entendimento, pois, estais presos na memória, nos costumes e na cultura de tal forma que é impossível esquecer, superar ou deixar de lado vossas necessidades de ter certezas inquestionáveis e permitirem-se ao questionamento. Eu vos digo que a Terra não é redonda, ela é plana.
E como Quiriat previra, podia-se sentir a presença da incredulidade no silêncio que pairou naquele exato momento, naquela pequena sala onde estavam reunidos.
- Vistes como vêm às vossas mentes inúmeras “provas” científicas que contestam esta afirmação? Pois bem, imaginai se eu vos falasse de outras semelhantes a esta? Mas, não vos deixarei sem nada vos contar. Sabeis por que estais assim? Pois vou dizer-lhes a causa. É por haverdes construído o mundo sobre um falso conhecimento, sobre uma mentira.
Quando Quiriat percebeu que todos queriam se manifestar, ele pediu que não o fizessem. Que o deixassem falar sem ser interrompido.
- Seres vindos de um lugar ao qual chamais de céus, misturaram-se aos seres humanos que aqui já existiam e dessa mistura resultou seres diferentes dos humanos, porque tiveram seus códigos genéticos alterados. E eles se multiplicaram e desde então, povoaram a terra. A perfeição original foi contaminada e em seu lugar produziu o engano e a mentira. Porém, alguns poucos foram guardados para o grande dia em que a humanidade será refeita e a perfeição original restaurada. Mas, antes seria necessário que muitas coisas acontecessem e outras ainda viessem a acontecer. Devem estar se perguntando como eu sei disso. Eu sei por que vim do mesmo lugar que eles vieram, mas, fui resguardado para não me deixar contaminar. Não jurei sobre o livro de suas leis, que mandava disseminar a discórdia e o empobrecimento da espécie humana, originalmente perfeita.
- Mas... – Alves ameaçou falar.
- Não, não... Eu pedi para não ser interrompido e há uma razão para isso. Não peço que acreditem em mim, pois, não poderiam mesmo que quisessem. Peço apenas que me escutem até o final – disse Quiriat. Pois bem, como todas as civilizações pré-adâmicas, a atual também está cega pela mentira deste mundo ilusório em que vive. Mas, tenham paciência e conservem a esperança, pois, aproxima-se a hora em que despertareis e, quando isso acontecer, conhecereis a verdade e terão a oportunidade de decidirem se querem ser libertados. E não fiqueis admirados com o que vos falo, pois, esta civilização e todas as pré-adâmicas tiveram seus genomas modificados. Vocês não são os primeiros. E, por enquanto, somente para facilitar vosso entendimento, podem pensar que isto é o que vocês chamam de “pecado original”. Estes seres angelicais são portadores do mal e o seu líder, o maior de todos, pois é o pai da mentira, atravessou o muro daquilo que conhecem como Jardim do Éden e relacionou-se sexualmente com o ser humano e desta forma introduziu o pecado no mundo, figurado pela serpente ofertando a maçã para que comessem. Assim, o “comer a maçã e dá-la para ser comida pelo outro”, possibilitou que o seu código genético maligno, através do ato sexual, fosse transmitido aos filhos e filhas, passando de geração em geração. A expulsão do Éden foi um ato espiritual, uma tomada de consciência dos prazeres que advém da prática de atos egoístas e, portanto, são maus, porque são atos que não levam em conta o que podem causar ao outro ser humano, que é seu semelhante. Assim, a maldade entrou no mundo. A princípio, originou seres disformes, verdadeiros monstros, se comparados com os seres humanos. Mas, a própria natureza tratou de eliminá-los através de sangrentas lutas travadas com os humanos remanescentes e pelos dilúvios que sobrevieram à terra. Porém, mesmo após tais catástrofes globais, alguns desses seres continuaram a existir, com o poder que lhe fora dado por seu príncipe, assumindo as mais diferentes formas e, principalmente, a forma humana. Isso permitiu que as batalhas cessassem a nível carnal, mas, continuaram espiritualmente. Cônscios de seus propósitos, não mudaram sua intenção, mas executariam o empreendimento originalmente projetado e juraram todos juntos. Assim, em virtude da fragilidade de todos os poderes terrenos, acreditavam que seu poder seria mais duradouro do que qualquer outro, porque seria invencível, pois estará tão enraizado que o poder humano não poderá destruir. Dizem em sua arrogância: “a Violência deve ser um princípio; nossa palavra de ordem é a Força e a Hipocrisia, uma regra para todo aquele que não queira nos entregar sua coroa.”. Seus agentes, recrutados dentre os homens ávidos pela cobiça do poder, infiltraram-se nos Governos, ocupando postos de real influência e prestígio, permitindo-lhes dirigir o rumo das nações. Como tudo teve sua origem no pai da mentira, tudo foi construído sobre esse alicerce, de forma que aquilo que se vê, não foi feito do que parece ser. Foi assim que teve início a Elite, este grupo do mal composto de seres híbridos criados desde a infância, para governar de forma autocrática o mundo.  E sempre, desde as civilizações pré-adâmicas até a atual, criaram situações sociais malignas para subordinar as nações ao seu poder que residia na riqueza, na posse do ouro. Já tinham a vacina, agora era necessário espalhar a doença. Que situações sociais são estas? São aquelas criadas por criminosos que acreditam estar trabalhando em prol de alguma ideia política, utilizando-se de meios violentos, mas que, na verdade, não são motivados por tal ideia. Eles desculpam seus atos sobre esta base. Eles falam em termos de “restaurar o dinheiro ao povo”, quando furtam os “bancos capitalistas”. Mas eles consideram “povo” somente a eles mesmos. Também existem os verdadeiros terroristas políticos, cujos atos de violência têm por objetivo debilitar as instituições governamentais existentes. Esses usam o dinheiro, adquirido com seus atos, para fomentar outras atividades. E não faltam os terroristas religiosos, que atuam contra governos ou instituições que consideram hostis à sua causa. Infelizmente, há livros sagrados que transpiram violência, não sendo difícil encontrar neles textos de prova que toleram o terrorismo com todos os crimes dai resultantes. Que Israel adquiriu o seu território mediante atos de terror fica claro nos próprios registros bíblicos, embora isso pareça chocante para muitos. Muitos cristãos fundamentalistas não sentem dificuldade em adorar a um Deus guerreiro; mas, há muitos cristãos nos dias atuais, que simplesmente consideram este um conceito “primitivo” de Deus, que foi retido em vários pontos. Mas, quando falo contra esse conceito de Deus, estou apenas negando a validade desse conceito, e não desejo blasfemar o nome de Deus. É possível alguém rejeitar um conceito de Deus sem blasfemar-lhe o nome. Por outro lado, esses conceitos não aparecem somente na Bíblia. Também aparecem no Alcorão, e Maomé conseguiu impor-se mediante a espada desembainhada. Os árabes fundamentalistas ou ortodoxos também são assim. A moderna escalada terrorista reflete uma maneira doentia e impensada de tentar produzir a mudança social através de insensatos atos de violência, como destruição de bibliotecas e a matança praticada contra pessoas inocentes, como os turistas (que não podem ser confundidos com soldados), têm assinalado as ações terroristas. E assim, aquilo que os terroristas imaginam serem atos promotores de justiça, não passa de atos covardes. É evidente que o ódio sem motivos reais e mentes malignas está por trás desse tipo de atividade. O homicídio continuará sendo homicídio, sem importar se os homens o rotulem de qualquer outra coisa.
Aproveitando um breve intervalo de silêncio feito por Quiriat, todos quiseram falar, mas Alves falou mais alto e prevaleceu sua palavra.
- Agora mesmo, atos de terror irrompem por todo o mundo. Em cada um dos países afetados, a mídia se encarrega de exercer seu papel de informar à população dos acontecimentos, dando nomes aos responsáveis por tais atentados e assim as populações se revoltam e tremem diante dos horrores desses atos brutais e gritam todos pelas ruas “Quem nos salvará?!”. Se considerarmos como verdade o que nos falou, podemos ver o que acontece ao nosso redor com um novo olhar e que nos permite compreender tais atos brutais, pois, até então, uma muralha nos separava quanto ao entendimento das causas dos acontecimentos. E pudemos observar atentamente a situação em todo o mundo- disse Alves.
- E nos de países unidos por interesses comuns, curiosamente, elegem um só inimigo. É surpreendente como se alastrou este mal por toda a humanidade – disse Maria.
- E podemos notar que a situação não tardou para atingir níveis ideológicos. Para alguns líderes, a causa estava na liberdade excessiva dada ao povo nos últimos tempos, inclusive a liberdade religiosa. Não faltaram aqueles que diziam que a liberdade era irrealizável, porque a multidão não sabia usá-la de maneira justa e, quando dada ao povo, logo se transformava em quebra de regras e convenções sociais e logo surgiam desavenças entre as pessoas, que se transformavam em batalhas sociais e tudo era reduzido às cinzas - disse João.
- E realmente, fica difícil ser contrário àqueles conservadores que argumentam que os líderes saídos da massa, não conseguem dirigir um país sem confundir com seus interesses pessoais – falou Alves.
Neste momento Quiriat, percebeu que aquele era o momento de retomar a palavra e concluir o que começara.
- Peço que escutem o que eu tenho a dizer, mesmo que lhes pareça estranho. A Elite pode ver seu plano tornando-se realidade. Ela sempre levou em conta a covardia, a instabilidade e a inconstância da multidão, incapaz de dirigir a si mesma, pois, transforma a liberdade em barbárie, que é a anarquia em seu mais alto grau. E o tempo viera mostrar que estavam certos ao afirmarem que a força da multidão é cega e insensata. Era necessário que a massa fosse conduzida, pois, ela não passa de um elemento passivo. A atual situação mundial fora resultante de um trabalho que teve seu início, quando investiram na crença na covardia dos líderes saídos do povo, que nada entendiam da arte ou ciência da organização; da direção e da administração de nações ou Estados, quando se trata da aplicação desta arte aos negócios internos e externos de uma nação e, por isso, não podem pretender governar sem logo perder o poder. Assim, somente indivíduos preparados por eles, desde a infância, têm condições para exercer o poder, pois, são ensinados a conhecer a linguagem e a realidade políticas. Somente estes são capazes de governar. Esse conhecimento da fragilidade do ser humano permitiu a Elite prever o desenvolvimento da civilização. E assim, aquilo que florescera no coração do povo, isto é, a Liberdade e a Igualdade, agora somente existem em letras escritas no palavreado vago das Constituições e nas fachadas dos edifícios públicos. Quem me ouve, entenda – disse Quiriat, concluindo o que viera dizer.
- Mesmo considerando que tudo aconteceu assim, será que todos os homens sabem disso? E se soubessem, acreditariam? E se não, quem os convenceria? – Disse Alves, pensativo.
- Por outro lado - continuou Alves, depois de parecer ter pensado em algo que não percebera antes. Será que devemos levar a sério todas as palavras ditas aqui hoje? E por que digo isso? Vamos enumerar as ideias que foram aqui apresentadas. Em primeiro lugar Quiriat nos disse no início desta conversa, que a terra não é redonda, ela é plana; em seguida nos relatou, e diz ser verdade, que toda essa história começara num tempo tão longínquo que nem conseguiríamos imaginar, sobre os “seres angelicais malignos” que sempre viveram aqui e se relacionaram com os seres humanos, dando origem a descendentes com os genomas modificados e aos quais chamou de híbridos, por causa da mistura do DNA; disse, também, que eles faziam parte de um grupo ao qual chamou de “A Elite” e que está por trás de todos os atos perversos que aconteceram em todas as  civilizações que já existiram em todos os tempos. E disse tudo isso com a autoridade, segundo afirma, de quem veio do mesmo lugar que vieram tais seres. Ora, por que ele seria diferente e quem nos garante que também não está mentindo, como eles? Dada à seriedade dos assuntos aqui tratados, peço que não se ofendam com o que vou dizer, pois, de maneira alguma lhes faltaria com o respeito, mas, nós não sabemos como ele apareceu por aqui e nem de onde veio, realmente. Ou alguém aqui pode dizer?
- Tenha calma...  – disse Maria, dirigindo-se a Alves.
- Mas, eu estou calmo. Eu quero apenas entender. Vocês dois, por seu lado, falaram o que falaram porque estava de acordo com suas crenças cristãs, logo, são suspeitos no que diz respeito a um julgamento imparcial. E quanto a mim? Eu sou um lobo solitário, que buscou um lugar longe das multidões e que, antes disso, viveu parte de sua vida internado num manicômio por ser considerado um indivíduo de personalidade psicopatológica e de comportamento antissocial, ao qual faltava senso de responsabilidade moral ou consciência. É isto que é dito de pessoas como eu.
Se por um acaso qualquer, alguém que por ali estivesse passando e olhasse para o que se desenrolava naquele grupo, ficaria mais do que espantado. Certamente não diria que Alves estava longe de parecer calmo, mas, também não poderia dizer que estivesse nervoso ou mesmo descontrolado; antes, se parecia mais com alguém que tivesse perdido as rédeas do pensamento e sentia-se desamparado, num lugar onde nunca houvera estado antes e sem saber em que direção ir.
E no instante que se seguiu, todos os olhos continuavam fixos em Alves e, sem saber de quem partira, o silêncio foi quebrado.
- Está escrito que no futuro surgirão falsos mestres que, se possível fosse, enganariam até os escolhidos...



Continua...

EP. Gheramer



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O PROJETO - Capítulo 9



- Já que tocou neste assunto, posso lhe fazer uma pergunta indiscreta? – Perguntou Alves, dirigindo-se a João.
- Perguntar pode, não sei se saberei responder – disse João.
- Como missionários cristãos, vocês já viajaram por quase todo o mundo, como já disseram. O que os levou a deixarem sua religião e vir para um lugar isolado como este, em que não há pessoas para ouvirem suas pregações? – Disse Alves.
- Não é indiscreta a sua pergunta e mesmo que fosse, eu e Maria, consideramos você e Quiriat como amigos e, como tal, merecedores de toda a nossa confiança e estima. Mas, a resposta não é tão simples e, para respondê-la, terei que começar falando de religião e de nossa discordância quanto aos dogmas e doutrinas da denominação à qual pertencíamos. E isso começou muito antes de nosso afastamento definitivo da igreja. Foi um processo crescente e não sei se estariam dispostos a ouvir – disse João, ao mesmo tempo em que olhava para Maria.
- Da minha parte, devo dizer que estou curioso – disse Alves, ao mesmo tempo em que Quiriat balançava a cabeça num sinal de concordância.
- Pois bem. Vocês devem conhecer a história da criação do homem, conforme é relatada na Bíblia e em muitos outros textos sagrados, existente nas mais diferentes culturas humanas. Pois, foi aí que tudo começou em nossas mentes. Mas, não pensem que isto nos tornou menos crentes. Não, pelo contrário, deixamos de servir ao homem para poder servir a Cristo. Gostaria que isso ficasse bem claro, antes de prosseguir – disse João, como esperando o sinal verde para continuar.
- Inteiramente à parte do que o autor do livro de Gênesis pode ter querido dizer, nós começamos a examinar a questão por outro ângulo. Em nossa busca, encontramos muitos estudiosos sérios que diziam haver evidências científicas válidas em prol da vasta antiguidade da Criação, não somente do homem, mas do Universo... – dizia João, quando foi interrompido por Alves.
- Interessante ouvir você falar isso. Algum tempo atrás, durante uma palestra de um astrônomo, ouvi que a idade dos meteoritos, medido pelo método do radiocarbono, sugere que o sistema solar tem mais de quatro bilhões de anos - disse Alves.
- Sim, acredito que quanto mais antiga reconhecemos ser a Criação e graças à ciência, o homem vai descobrindo mais fatos que vão deixando de lado as teorias que não passam de fábulas e para nada aproveitam, ao mesmo tempo em que confirma o que já se sabia – concordou João.
- Ocorreu-me agora, que isto nos leva ao que é relatado sobre o Dilúvio. A ciência nos diz que devido ao deslizamento da crosta terrestre, ocorrem grandes inundações e explosões vulcânicas de incalculável potência e penso que tal descoberta não invalida as palavras dos textos considerados sagrados pelas diferentes culturas...  – disse Alves.
- Se aconteceu assim, cada alteração dessas foi acompanhada pela quase destruição de todos os seres vivos e se calcularmos as datas gerais, de acordo com vários eruditos, da última e da penúltima dessas mudanças, chegamos perto da cronologia bíblica de Adão e Eva – disse João.
- Para que eu possa melhor acompanhar... Vocês estão falando da mudança de posição dos polos terrestres, mas não estão falando que os polos da terra se inverteram, isto é, o Norte e o Sul não trocaram de lugar. É isso? – Disse Quiriat.
- Claro que não. Na verdade, trata-se da mudança dos polos magnéticos Norte/Sul e parece que outra está em curso e que isso seja o verdadeiro motivo por trás da aceleração das mudanças climáticas em todo o planeta. E essa circunstância levanta a interessante possibilidade de que as narrativas bíblicas da criação desses dois seres representam as duas últimas modificações dos polos, pelo que seriam “novos começos” e não começos absolutos – disse Alves.
- Nesse caso, Adão seria uma espécie de Noé, representando o reinício da raça - disse Quiriat, ainda querendo certificar-se de que eles sabiam sobre o que estavam falando.
- Começamos a pensar em tudo isso, e, naturalmente, isso não satisfazia uma estrita e literal interpretação do registro de Gênesis. No começo ficamos um pouco preocupados com relação à nossa fé nas palavras das Escrituras. Mas, acabamos concluindo que uma interpretação um tanto mais liberal, talvez nos aproximasse mais da verdade dos fatos bíblicos, mesmo que outras pessoas nos julgassem hereges. Aliás, como de fato aconteceu... – disse João.
- Importantes hereges sempre conseguiram fazer avançar a verdade – disse Alves.
- Por outro lado, ser um herege também não é garantia da posse de verdades mais profundas – disse João.
- Numa coisa, entretanto, parece que estamos de acordo – a verdade deve ser buscada – disse Quiriat.
- Penso que não podemos solucionar todos os nossos problemas de conhecimento, simplesmente voltando-nos para algum “texto de prova”, retirados de livros considerados sagrados, para extrair dele a interpretação que satisfaria apenas nossas exigências de conforto mental – disse Alves.
- Sim, eu concordo com isso, pois, apesar da verdade algumas vezes vir à tona subitamente, na forma de um pacote feito, com maior frequência assemelha-se a uma mina, que precisamos cavar para descobrir – Disse Maria, que estivera em silêncio.
O relato que se seguiu, dificilmente poderia ter sido imaginado ouvir. Pelo menos, não naquele dia e naquela hora.  João levantou-se da cadeira onde estivera sentado e demonstrando por sua atitude serena, porém firme, que queria a atenção de todos para o que iria falar.
- O nosso querido amigo Alves, nos perguntou por que deixamos a igreja e nos mudamos para este lugar afastado das multidões. Pois, vou responder. Não deixamos a igreja somente, deixamos aquilo que se dizia representar o Cristianismo, mas que não passava de um ajuntamento de vaidades, adultérios, prostituição, idolatria, feitiçaria, inimizades, ciúmes, raiva, ambição Egoísta, desunião, invejas e Orgias. Foi nisto que os homens transformaram os ensinamentos de Cristo. Representam o Cristianismo? Sim, representam, mas não os verdadeiros cristãos. Foi um processo lento este amadurecimento espiritual. E como uma coisa leva à outra, começamos a notar que quando falávamos do Evangelho para as grandes multidões que lotavam estádios de futebol e como sempre fazíamos ao final de cada pregação, pedíamos que quem quisesse aceitar a Cristo como seu Salvador levantasse sua mão.  E muitos braços se levantavam. Centenas, milhares... Para nós, isto é, para todos os religiosos que compunham nossa equipe, aquelas milhares de mãos levantadas significava uma vitória do Reino de Deus. Em seguida, essas pessoas eram convidadas a deixarem seus lugares e se aproximarem do palco onde nós estávamos para serem instruídos nas palavras do Evangelho para que, posteriormente, pudessem ser batizados e então pertencer ao seleto grupo dos salvos, que compunha nossa igreja, a nossa denominação religiosa, que se autodenominava cristã. Pois bem. O fato que presenciamos e que aconteceu logo após uma dessas reuniões e que foi fator preponderante em nossa decisão, foi que pudemos perceber que, definitivamente, levantar a mão não significava seguir a Cristo, apenas tornava aqueles que o faziam, em membros de uma igreja. Mas suas vidas não eram transformadas somente porque levantaram a mão e foram à frente de todos. Naquele momento, compreendemos que ser “salvo” ou liberto era muito mais do que aquilo. A Libertação é muito mais do que o perdão dos pecados e a mudança de endereço para os céus e muito menos para uma igreja.
Neste momento, vendo a emoção embargar a voz de seu companheiro, Maria levantou e foi colocar-se ao seu lado, como que a confortá-lo. Ele então ele continuou a falar.
- Como eu dizia, logo após uma dessas pregações realizadas no maior estádio de futebol da Capital, embarcamos  no ônibus que nos levaria de volta ao hotel, onde nos reuniríamos com as autoridades estaduais para um farto jantar.  Enquanto o ônibus transitava pelas ruas destruídas pela guerra civil que assolava aquele país, víamos velhos e crianças famintas e abandonadas perambulando pelas ruas, sem ter onde morar. Era o horror dos horrores. E, diante de tal quadro, meus irmãos missionários conversavam entre si sobre tais infelizes: vejam esses animais embriagados, imbecilizados pelo álcool; eles são uns bárbaros que não souberam usar a liberdade que lhes foi dada pelos governantes, dizia um. Enquanto outro explicava a razão: isto é porque o Governo foi formado por líderes eleitos saídos de seu próprio meio, foram escolhidos por eles mesmos. Eles não conseguem dirigir um país sem confundir com os seus interesses pessoais – dizia outro. Vejam meus irmãos, como nós somos abençoados e espirituais, santos e possuidores de uma vida que é eterna; não somos como estes que são apenas sangue e carne – disse o nosso líder missionário.

João fez uma pausa como para recuperar o fôlego e continuou.

- Após o jantar, ficamos todos ali reunidos no salão, sentados em confortáveis poltronas. Grupos isolados conversavam e as palavras saídas de suas bocas eram fúteis e para nada aproveitavam; falatórios que não rendiam a Deus o culto que lhe é devido e que somente tinham a aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Na verdade, demonstravam que nunca chegaram a conhecer Aquele que disse para “amar ao próximo” e que “Deus é amor”. Eles apenas confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com suas palavras e obras. Foi quando, impulsionado por uma força sobre-humana e tomado pela indignação, coloquei-me sobre uma mesa no meio do salão e falei em  alta voz para que todos me ouvissem e chamei-os de hipócritas e vendilhões da palavra. Subitamente surpreendidos, eles ouviam paralisados e, quanto mais eu falava, mais eu me afastava deles, duas vezes mais do que eles de mim. E, também por outra força sobre-humana, a cólera e a ira foram tomando conta de mim. Foi quando senti o toque suave da mão de Maria sobre o meu ombro, ao mesmo tempo em que mansamente falou: “Não entres em questões loucas, contendas e em debates, porque são inúteis e vãs”. Ela citava uma passagem bíblica. Foi o bastante.  Súbita e instantaneamente, uma profunda paz desceu sobre mim e nós dois, abraçados, abrindo caminho por entre aquelas pessoas escandalizadas e perplexas, afastamo-nos daquele lugar. O que aconteceu depois foi de uma baixeza tamanha. Nós fomos isolados; nem sequer permitiram que continuássemos no quarto do hotel, que fora reservado e pago pelos líderes do partido de oposição ao atual, que estava no poder. Por outro lado, percebemos da maneira mais dolorosa, porém benéfica, o papel que a religião desempenhava junto ao povo e, por isso, necessária aos que almejam o poder, inclusive o religioso. O que digo, digo-o com palavras. Mas, elas não expressam a imensa dor e o desamparo que desabaram sobre nós. E não demorou muito para aqueles que antes nos convidaram, agora exigiam a nossa saída do país. Aquele povo estava entregue a si próprio, ou melhor, estava entregue aos ambiciosos que saíram do seu próprio meio e arruinava-se na discórdia dos partidos, excitados pela sede de poder e pelas desordens resultantes dessa discórdia.
- Eu me lembro desta época – disse Alves. As guerras irrompiam por todo o mundo. A mídia se encarregava de exercer seu papel de informar à população dos acontecimentos, embora de maneira tendenciosa, dando nomes aos responsáveis por tais atentados. Foi quando passamos a ter consciência do que acontecia ao nosso redor, pois, até então, uma muralha nos separava dos acontecimentos mundiais.
- Tenho algo a falar e penso que será útil para o entendimento deste assunto, mas, dado o avançado da hora, sugiro que deixemos para outro dia... Por enquanto, digo apenas que aconteceu antes dos tempos dos séculos – disse Quiriat, enigmaticamente.

Continua...

EP. Gheramer


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Buraco negro

Um conto de 2011, inspirado num vídeo...
JG




Você acha que tem um trabalho muito ruim, imagine se eu lhe contar o meu.
Tá certo, não é dos piores, mas exige um comprometimento lascado. Pior que o meu só o do camarada ali.
Imagine uma tarde de sábado, um escritório quente sem ar condicionado, que é responsável por um milhão de processos e somente um funcionário que ficou encarregado de tirar outro milhão de cópias destes processos, numa máquina de xérox mais antiga do que uma senhora de idade avançada.
Imaginou?
Pois é, esse funcionário existe, olha ele ali, com uma cara de dar medo.
Imagine também então a felicidade que ele deve estar sentindo, principalmente por saber que não vai ganhar nem um centavo a mais por isso, uma vez que está pagando horas que o seu terrível chefe – palavras dele - descontou dos dias em que ele chegou atrasado.
Seu pensamento fixo é que a porcaria do relógio não sai das 15 horas, fica se arrastando, os segundos transformaram-se em minutos e os minutos em longas horas. O suor escorre por seu rosto e a água fervendo do bebedouro não ajuda em nada no seu ânimo.
A ansiedade é gritante porque faltam somente umas cem cópias, depois é só organizar tudo dentro das pastas específicas, separar por prioridades, catalogar no livro de ações e depois registrar tudo em outro livro de serviço. Ele fica “feliz” em lembrar disso, assim, devido a essa droga de burocracia vai sair lá pelas 10 horas da noite.
Mas também, nem sei por que ele está com pressa de ir embora, sua geladeira lhe espera vazia no seu também sufocante apartamento de três cômodos, não existe ninguém esperando o seu retorno de braços abertos, o dinheiro do pagamento do dia anterior só serviu para pagar os gastos atrasados, literalmente não estava trabalhando nem para comer.
Durante a semana teve a infeliz idéia de desabafar sobre os seus problemas com seu “querido” chefe, sonhando com algum reconhecimento por algo que ele não merecia, e assim quem sabe recebendo de presente um aumento. De fato recebeu, não está vendo? Um aumento de trabalho através dessa escala não remunerada.
Está se entupindo com mais um copo de água, que apesar de estar horrível é melhor do que o ronco que incomoda seu estômago.
Vamos, vamos copiadora jurássica, só mais cem cópias - leio em seu pensamento, enquanto aperta diversas vezes o botão verde. Mas vejam só isso? Parece que a máquina vai lhe deixar na mão. Tampem os ouvidos que estou sentindo que lá vem um palavrão: %&*##$@¨%!!!
Bom, o xingo não resolveu, mas ele não se dá por vencido, quem sabe uma bicuda.
Caramba! Creio que a máquina é dura, escutei o baque daqui, só faltava ele entornar a ponta do sapato velho ou quebrar um dedão, epa, voltou a funcionar, faltava só um empurrãozinho.
Mas ele não está com sorte, vejam que bela impressão: um círculo preto. Ele deve ter ferrado a copiadora e só faltava essa, agora que ele só sai dali amanhã, se a sorte ajudar.
Eu no lugar dele amassava a prova do crime rapidinho e triturava, mas ele não, parece calmo até demais ou cansado o suficiente para não dar bola para mais nada. Pega a estranha impressão e forra um pedaço lateral da máquina.
Mais uma olhada no relógio, mas uma golada de água quente, e agora creio que ele vai tentar retomar o trabalho. Mas o que é isso, cadê o copo, sumiu quando ele o colocou sobre o círculo preto. Essa seria a hora de parar tudo, dar meia volta e ir embora, escute o que eu digo, tenho experiência no assunto. Mas não nosso amigo, ele é curioso, precisa saber o que aconteceu.
Encosta primeiro um dedo no círculo e o afasta, parecendo ter levado um choque. Mas foi só reflexo, pois enfia a mão dentro do círculo agora sem receio e como um mágico tira não um coelho, mas o copo lá de dentro.
Agora também seria uma ótima hora para dar no pé, mas você já sabe que isso não vai acontecer. Então vou continuar narrando tudo que vejo.
Ele levanta a folha com o círculo no ar e lhe dá uma boa olhada, não há sombra de dúvidas que seja um papel comum. Mas ele enfia um braço no círculo e a mão não aparece do outro lado, como se fosse para outro lugar...
Espere, isso é coisa do, do, não posso falar o nome dele, vamos usar um sinônimo, sim, é coisa do mal, só pode ser. E como tal não se pode esperar que o final dessa história seja feliz, meu sétimo sentido está prevendo isso.
Mas esperem, creio que o nosso amigo encontrou uma utilidade para a folha mágica, mas o que será que ele está pensando? Não, não pode ser isso, pare com isso cara!
Ele se aproxima com a folha e a encosta numa máquina de guloseimas e faz o teste, que dá certo! Consegue atravessar a mão pelo vidro através do buraco e volta com uma barra de chocolate.
Não posso culpá-lo, o dia todo sem comer, mas isso se chama furto, meu filho.
Até concordo que fazer um plantão inteiro sem forrar o estômago é complicado, mas ele chegou ao fundo do poço se teve que apelar para tal atitude, por mais absurdo que seja o método utilizado.
Você concorda comigo que agora novamente é o momento fatídico para se brecar toda uma situação que pode ter conseqüências desastrosas. Mas creio que assim como eu você também está começando a prever o futuro do nosso amigo e não prevejo que ele seja dos melhores.
Falando nisso lá vai ele em direção ao escritório do seu amado chefe, imagino que ele vai aprontar alguma, mas nem faço idéia do que.
Para abrir a porta foi fácil, é daquelas que tem um dispositivo interno que libera a tranca, bastou colocar a folha com o círculo colada na porta, atravessar a mão pelo papel mágico e abri-la por dentro.
Creio que ele vai bagunçar a mesa do chefe, mas espere, ele passou direto por ela e veja só que interessante, tem um grande cofre no fundo da sala. Agora imagino em que trapalhada nosso amigo vai se meter.
Ele nem olha para os lados, sabe que está sozinho, sabe o que quer fazer e não reflete um segundo.
Uma esperança! Ele volta para a mesa do chefe, talvez tenha mudado de idéia, vai só fazer algum brincadeira sem graça e dar no pé, retornar à copiadora, terminar seu serviço, passar uma borracha nos últimos minutos.
Nada disso, somente encontra um rolo de fita do tipo Durex e volta correndo para o cofre. Cola desesperadamente a folha na parede de aço maciço e enfia um braço, quase que imediatamente o retirando com um maço de verdinhas, o qual ele admira por alguns milésimos de segundo, antes de voltar a enfiar o braço novamente e sair com outro maço, agora mais desesperado ainda.
É, ele está cavando um buraco sem fundo para ele mesmo, sabemos disso. O que? Você não sabe de nada, não está acreditando em nenhuma palavra do que eu disse, não é mesmo. Eu sabia que isso ia acontecer, mas para seu conhecimento eu não posso mentir, tenho um juramento sagrado que me impede.
Mas não pense você que eu não tenho provas, sou um ser moderno e sempre carrego comigo preso na cinta uma máquina fotográfica que também filma, maravilha de tempos modernos! E advinha só, filmei tudo, do começo ao fim, bom, quase isso!
Ainda não acredita, então olhe abaixo o registro que eu fiz, olhe e perceba o tamanho da burrada desse nosso amigo.








E aí, o que achou? Eu não falei que isso não ia acabar bem. Mas é fácil de explicar o que o motivou a não parar quando chegou ao terceiro ou quarto maço de notas fresquinhas: a ambição humana, sempre ela!
Quando ele colou a folha com o círculo negro, eu já suspeitava que ele quisesse ficar livre com as duas mãos para poder “trabalhar” mais facilmente. Agora entrar no cofre era algo que eu jamais suspeitava que o doido fosse fazer, não imaginei que existisse alguém tão pirado assim.
Acredito que você esteja se perguntando por que eu não interferi, sendo que acompanhei tudo que aconteceu. Também é fácil de explicar isso, pois estou preso ao juramento do livre arbítrio, ou seja, deixar que os homens tomem suas atitudes de acordo com as suas próprias decisões.
É claro que eu lhe mandei bons pensamentos, implorando que ele não fizesse aquilo, que largasse tudo e fosse embora, mas parece que nesse caso o mal falou mais alto, ou melhor, sussurrou mais forte em seu ouvido.
É, o negócio e ir embora, apesar das batidas que ele está dando nesse momento para tentar sair do cofre incomodar meu coração. Quem disse que a vida de anjo da guarda é fácil, também tem que fazer serão em sábados sem ganhar hora extra. Brincadeira!
Bom, vou indo, acabou de encerrar meu turno...
Brincadeira de novo, só vou buscar uma ajuda para salvar nosso amigo trapalhão. Quem sabe acordando o vigia que pegou no sono na frente da teve no refeitório.
Mas antes de ir embora, você deve estar imaginando como toda essa história terminou, porque infelizmente a bateria da minha filmadora acabou e não deu para registrar tudo.
Para resumir, consegui estimular o vigia para que fizesse uma ronda na empresa. Ele se deparou com o escritório vazio e a porta do chefe aberta. Já suspeitou de tentativa de furto ou algo do gênero, mas creio que a sua reciclagem estava um pouco atrasada, isso se ele fez algum bom curso na área de segurança, pois não chamou ninguém pelo rádio e foi invadindo a sala.
Ele ouviu o barulho do nosso amigo batendo dentro do cofre e rumou em sua direção. O que ele não viu foi o círculo preto no chão quando ele chegou na frente do cofre, e acabou indo parar dentro do aterro abaixo do prédio. Se ele saiu de lá, preciso perguntar para o seu anjo da guarda, depois eu lhe conto.
Quanto ao nosso amigo trapalhão, bom, não teve jeito, lá vem ele, chegando aqui no andar de cima.
O círculo preto? Assim como surgiu, desapareceu, só ficou uma folha branca jogada no chão. Até hoje os peritos não sabem como foi que o nosso amigo conseguiu entrar no cofre e se fechar lá dentro, o caso entrou para os crimes sem solução.
Mas eu creio que ele surgirá novamente em outro lugar, numa outra época, provavelmente para testar outra pessoa.

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