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Nó!

Poesia inspirada no trabalho "Saia da rotina" do livro "A vida se resume em poesias", da poetisa Mayara_Orcelino, pois parece que foi feita para mim, leia depois retorne aqui para ver o que senti...



Tão eu,

me descreveu

com perfeição,

mundo cão,

compromissos mil,

quase senil,

de tanta agitação,

pobre do meu coração,

quer descanso então,

quer tranquilidade,

diversidade,

namorar até tarde,

mas a responsabilidade

é algo cruel,

detona este Joel,

que quer do Papai Noel

um cantinho do céu,

só pra relaxar,

só para poder mais amar,

só para se embriagar


nos carinhos do meu lar!

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Moldando-se

Poema escrito para este concurso do Wattpad, inspirado numa imagem: Uma semana, uma imagem...




Se máscaras usa o ser
Deve ter um porquê
Ou tem medo de sofrer
Ou quer se esconder

Imaginem sua situação
Vive numa encenação
Hoje mocinho, amanhã vilão
Qual a sua real emoção?

Deles eu tenho dó
Pois não sei o que é pior
Se é quando se encontram só
A tristeza na garganta tal um nó

Espero que encontrem um caminho
Para escapar deste atuar mesquinho
Pois na vida é preciso carinho
E isso não se consegue sozinho

E vivendo a se enganar
Chegam sempre a magoar
Seja o seu próprio par
Seja alguém que está a lhe amar

O primeiro passo é destruir
Essa máscara que pode ferir
E com o rosto livre decidir
Qual melhor rota a seguir

Pode ser difícil sem essa proteção
Pode a dor macular a razão
Pode até sofrer o pobre coração

Mas estará livre de qualquer encenação

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Reprises de um filme sem fim

Eis um conto para os amigos escrito em 2009 que dispõe sobre os "círculos viciosos" que tomam conta da nossa breve existência...
JGCosta






João acordou cedo...
Desde quando nasceu todo dia mesma coisa: palavrões, gritos, tiroteios...
Agora com 12 pensou muito e chegou a uma conclusão:
“Essa vida não é pra mim!”
Estudou e se formou, arranjou emprego bom e cresceu profissionalmente.
Agora doutor com casa bela e bem localizada, visitava a mãe vez em quando na favela. Ela dizia que lá era seu lar e de lá só sairia num caixão.
E numa dessas visitas de João foi isso mesmo que aconteceu...
Mais uma vez cenas conhecidas de sua infância se repetiram e uma das munições se perdeu do seu destino e encontrou o peito da velha mãe.
De novo João muito pensou e a uma nova conclusão chegou:
“Saí daqui para driblar o sofrimento, mas foi inevitável deparar-me com ele. E o que foi que realmente eu fiz para mudar esta realidade?”
Ao invés de se revoltar, vendeu a casa, voltou pra favela e foi cuidar dos pequenos, ensinando para muitos como era a cara da esperança, um fantasma que assombrava outros cantos e que ali já se tornara lenda.
Ficou conhecido, arranjou esposa, teve um filho, o Junior, um novo João.
O novo João cresceu e um dia pensou que ali não era seu lugar. Estudou, para longe mudou e como o velho João doutor se formou.
E também numa de suas visitas ao pai aconteceu uma reprise e agora seu velho agonizava no chão de tábuas do barraco, com um presente de grego cravado no peito e antes que o ar lhe faltasse e a visão embaçada se apagasse ele agarrou o novo João pelo braço e após muito pensar chegou a sua última conclusão:
-- Filho, eu quis fugir e conheci um mundo diferente. Voltei e descobri que nada mudou! Não importa o tempo que passe, parece que existe uma força maior por aqui ou talvez seja assim mesmo que tudo tenha que ser. Eu sei no que está pensando, pode crer, eu sei! Pensa em voltar e tentar fazer algo de importante para que outros tenham a possibilidade de se encontrarem um dia num mundo melhor, eu sei disto tudo e lhe faço um pedido: continue sua vida longe daqui, constitua família e seja feliz, como eu tentei e acho que fui...
O velho João se foi. O novo João pensou muito, decidiu ficar e acabou formando uma família e...
É, isso mesmo, até hoje a história se repete e a só uma conclusão eu chego:

“Às vezes vale a pena tentar mudar, nem que seja para morrer tentando...”

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A princesa e o guerreiro

Poesia escrita para vídeo de um dos livros infanto-juvenis editados pela Associação de Escritores que faço parte.
JGCosta





Há muitos anos atrás
Existiu um povoado
Que não era grande
Lembrava um condado

Nesse local sem igual
O povo vivia em paz
Até que num triste dia
Encontraram um rapaz

Ele estava sem roupas
Todo desorientado
Nas palavras da sua boca
Dizia ter sido roubado

* Foi o povo do outro lado
* Uma gente nada gentil
* Me deixaram pelado
* Numa atitude infantil

Seu dizer gerou revolta
Quem poderia agir assim
Chamaram um bravo guerreiro
Que tinha fama de ruim

O guerreiro era gigante
Quando andava o chão tremia
Veio montando num corcel
Que com seu peso gemia

Ele atravessou a ponte
Que servia de fronteira
Ia lustrando a armadura
Sem tempo para brincadeira

Viajou a noite inteira
Nem parou para comer
Parou bem sob uma torre
Quando o sol vinha a nascer

* Alguém me escuta ai de cima?
* Venho de longe irmão
* Quero voltar ainda hoje
* Mandem o seu campeão

A ponte levadiça guinchou
Ao baixar sobre a ribanceira
O guerreiro nem se mexeu
O medo ele não conhecera

Lá de dentro outro forte alazão
Veio rápido correndo para o prado
Conduzia um oponente magrinho
Que parecia estar desarmado

Saltou agilmente para o chão
E fez um gesto da realeza
Tirou da cabeça o elmo
Do castelo estava ali a princesa

* O que lhe trás tão longe de casa
* Diga agora nobre cavalheiro
* Não quer entrar e descansar
* Junto ao meu povo hospitaleiro

O guerreiro pulou do corcel
Abriu um buraco na grama
Sem perder um segundo a toa
Dirigiu-se até a dama

* Vim vingar um ato impensado
* Que surgiu do seu castelo
* Onde está o seu general
* Vim chamá-lo para um duelo

* Deve haver um engano
* Meu nobre companheiro
* Ninguém que reside aqui
* É tomado por embusteiro

* Sou homem de ação
* Não vim para discutir
* Chame meu adversário
* Que para casa quero partir

A princesa voltou ao cavalo
Na sua armadura brilhante
E sem olhar para trás
Deixou o guerreiro gigante

Algum tempo depois
Sob o som da trombeta
Retornou a bela princesa
Num vestido violeta

O guerreiro tomou posição
Ergueu a espada para cima
A princesa seguiu calmamente
No rosto uma pantomima

* Vai ter que lutar comigo
* Já que insiste na acusação
* E eu usarei a minha arma
* Para lhe ensinar uma lição

O gigante riu orgulhoso
Muito maior ele era
Permaneceu feito estátua
Rugindo baixo tal uma fera

Ela parou a poucos metros
Mantendo-se silenciosa
Levantou um braço a frente
De onde se via uma rosa

A cena foi muito estranha
Quem visse admitiria
Uma espada contra uma flor
Que chance ela teria?

Sem o guerreiro perceber
A dama se pôs em ação
Girando a rosa no ar
Fez surgir um furacão

Num vendaval de pétalas
O gigante foi levantado
Em vão golpeou o ar
Pois já estava atordoado

Sua espada saiu voando
Num dos giros que ele deu
Foi cravar-se numa rocha
E lá por anos permaneceu

Quando ele parou de girar
No seu cavalo estava montado
E bem na divisa dos reinos
Por magia ele foi levado

E uma brisa em seu ouvido
Sussurrou numa doce voz
* Somos um povo de paz
* Não venha lutar contra nós

Humilhado e desarmado
O guerreiro voltou para o lar
E com um exército voltaria
Só pensava em se vingar

O povo veio correndo
Quando ele no condado pisou
Haviam cometido um erro
O ladrão a vítima encontrou

Isso acalmou o guerreiro
Que explicou o ocorrido
* Não houve luta de espadas
* Ninguém ficou ferido

* Somente uma princesa
* Armada com simples flor
* Que numa rápida peleja
* Me venceu através do amor

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Desafio Natal 2015 - Uma visita no Natal - JGCosta

Como vão todos?

Hoje pela madrugada escrevi a minha participação, postei primeiramente num fórum de games que participo (Condado Braveheart), pois também existia um Desafio similar por lá e agora venho disponibilizá-la aqui para os amigos, junto com o desejo sincero das melhores festas neste Natal e Ano Novo...
JGCosta



UMA VISITA NO NATAL


Não sei com quantos anos deixei de acreditar em Papai Noel...
Mas foi bem depois daquela noite, uma bem estranha por sinal, que algumas vezes fico com um grande desejo de contar os detalhes do que aconteceu para meus filhos ou amigos ou parentes ou ao meu psicólogo, mas logo deixo pra lá, pois vão falar que tudo foi obra da minha imaginação, afinal, ganho a vida vendendo rabiscos, então não os poderia culpar quando me brindassem com a seguinte frase: “Você inventou isso!”
E é bem por esse motivo que nunca contei o ocorrido para ninguém, mas isso não me impede de compartilhar um texto anônimo na Internet... Quem sabe alguém dá crédito ou veracidade para a história?
Se me recordo bem, eu tinha uns oito anos e morava com minha família numa fazenda afastada da cidade. Estávamos na década de 70 e a energia elétrica ainda não fora instalada em nossa propriedade, então a nossa diversão quando a noite chegava era sentar junto ao fogão de lenha com os adultos e ficar ouvindo suas histórias.
Numa noite meu avô, pai do meu pai, já bem velhinho e com uma barba branca grande e que cobria todo seu rosto, era o contador nomeado da noite. Ele nos estava visitando naquele início de primavera pela última vez, pois um mês depois acabaria falecendo dormindo, sendo convocado pelo Deus Maior para o merecido descanso, de uma vida toda só de trabalho, assim dizia minha mãe. Mas naquela noite em questão ele nos brindou com uma história de Natal, cujo final eu e meus dois irmãos caçulas gêmeos conhecíamos de cor e salteado: seja um bom garoto e vai ganhar um presente especial do Bom Velhinho...
Tem algo que preciso contar: eu não era uma criança muito fácil de lidar, não que eu fosse rebelde ou malcriado, mas era bem teimoso e quieto, como alguns garotos dos sítios do interior costumam ser, mas o meu avô me compreendia perfeitamente, dizendo que eu herdara todos os seus traços, então mantínhamos uma excelente amizade, e foi ele quem me ensinou a nadar, pescar, ordenhar, cuidar bem da terra e muitas outras coisas que me lembro. Contudo ele também sempre me aconselhou:
“Você precisa mudar o seu jeito de ser, senão também vai se tornar uma pessoa que nem eu mesmo fui, até quando me casei: sozinha no mundo, sem amigos, sem ninguém!”
Eu até tentava, mas com oito anos acredito que ainda não me empenhava o suficiente para ter algum êxito nisso, então simplesmente seguia com a vida.
Depois que meu avô morreu eu sofri muito, pois como eu disse, éramos muito ligados. O final de ano chegou logo, o país estava passando por mudanças, meu pai não andava muito bem dos bolsos, se é que você me entende, e nos informou com antecedência que aquele Natal seria um pouco mais triste, primeiro pela falta das histórias de meu avô e segundo por necessitarem economizar, então não haveria presentes nesse ano.
Por sermos filhos sensatos, não houve a menor queixa de nossa parte. Montamos uma pequena árvore com um pinheiro colhido na propriedade para simbolizar a data e na véspera do dia 25 de dezembro, fizemos nossa oração em família e fomos nos deitar. Acredito que passava da meia-noite quando uma voz conhecida veio a me acordar. Sentei assustado na cama, ouvi meus dois irmãos roncando, mas fora isso estávamos sozinhos no quarto. Escutei um barulho vindo da sala e acreditei que era um dos meus pais, então me levantei para tomar uma caneca de leite puro.
Ao sair para a sala vislumbrei um homem vestido de vermelho parado em pé em frente do pinheiro que plantamos numa caixa de madeira e que se encontrava no meio do cômodo. Creio que ele me ouviu chegar e se virou na minha direção. Era o meu avô que me disse sorrindo: “Feliz Natal meu filho...”
Recuei assustado para o quarto, depois tomando uma coragem que ainda não sabia que existia em mim, voltei para a sala, mas esta agora se encontrava vazia. Balancei a cabeça com força, tendo certeza de que andara dormindo até ali e imaginara coisas, então fui até a cozinha, tomei meu leite e voltei voando para a cama, acordando somente na manhã seguinte por volta das 6 horas.
Antes de sair para tirar leite, encontrei minha mãe toda contente, que me presenteou com um abraço, coisa meio rara entre nós.
“Parece que o Papai Noel nos visitou...”
Fui entender o que ela estava falando quando vi pedaços de embrulhos de presentes espalhados pela sala. Ao pé da nossa improvisada Árvore de Natal, apenas um presente sobrava. Um pequeno cartão identificava o destinatário: “Para quem tem mais valor!”
No fim meu pai pensou que minha mãe tinha dado um jeito de comprar os presentes e fazer aquela surpresa e minha mãe, por sua vez, pensou o mesmo de meu pai. Só eu sabia a verdade dentro do meu coração, ao desembrulhar o presente e encontrar lá dentro uma foto minha com meu falecido avô, que se fantasiara do Bom Velhinho que fora durante toda a sua vida e viera, de alguma forma que jamais saberei explicar, nos fazer uma última visita no Natal.
Eu sei, você vai me dizer: “Você inventou isso!” – afinal, eu sobrevivo de rabiscos, mas no fundo, bem no fundo, certeza mesmo você não vai ter, principalmente se conseguisse me ver agora, que estou tão próximo do ponto final desta história, com os olhos úmidos de emoção...

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Buraco negro

Um conto de 2011, inspirado num vídeo...
JG




Você acha que tem um trabalho muito ruim, imagine se eu lhe contar o meu.
Tá certo, não é dos piores, mas exige um comprometimento lascado. Pior que o meu só o do camarada ali.
Imagine uma tarde de sábado, um escritório quente sem ar condicionado, que é responsável por um milhão de processos e somente um funcionário que ficou encarregado de tirar outro milhão de cópias destes processos, numa máquina de xérox mais antiga do que uma senhora de idade avançada.
Imaginou?
Pois é, esse funcionário existe, olha ele ali, com uma cara de dar medo.
Imagine também então a felicidade que ele deve estar sentindo, principalmente por saber que não vai ganhar nem um centavo a mais por isso, uma vez que está pagando horas que o seu terrível chefe – palavras dele - descontou dos dias em que ele chegou atrasado.
Seu pensamento fixo é que a porcaria do relógio não sai das 15 horas, fica se arrastando, os segundos transformaram-se em minutos e os minutos em longas horas. O suor escorre por seu rosto e a água fervendo do bebedouro não ajuda em nada no seu ânimo.
A ansiedade é gritante porque faltam somente umas cem cópias, depois é só organizar tudo dentro das pastas específicas, separar por prioridades, catalogar no livro de ações e depois registrar tudo em outro livro de serviço. Ele fica “feliz” em lembrar disso, assim, devido a essa droga de burocracia vai sair lá pelas 10 horas da noite.
Mas também, nem sei por que ele está com pressa de ir embora, sua geladeira lhe espera vazia no seu também sufocante apartamento de três cômodos, não existe ninguém esperando o seu retorno de braços abertos, o dinheiro do pagamento do dia anterior só serviu para pagar os gastos atrasados, literalmente não estava trabalhando nem para comer.
Durante a semana teve a infeliz idéia de desabafar sobre os seus problemas com seu “querido” chefe, sonhando com algum reconhecimento por algo que ele não merecia, e assim quem sabe recebendo de presente um aumento. De fato recebeu, não está vendo? Um aumento de trabalho através dessa escala não remunerada.
Está se entupindo com mais um copo de água, que apesar de estar horrível é melhor do que o ronco que incomoda seu estômago.
Vamos, vamos copiadora jurássica, só mais cem cópias - leio em seu pensamento, enquanto aperta diversas vezes o botão verde. Mas vejam só isso? Parece que a máquina vai lhe deixar na mão. Tampem os ouvidos que estou sentindo que lá vem um palavrão: %&*##$@¨%!!!
Bom, o xingo não resolveu, mas ele não se dá por vencido, quem sabe uma bicuda.
Caramba! Creio que a máquina é dura, escutei o baque daqui, só faltava ele entornar a ponta do sapato velho ou quebrar um dedão, epa, voltou a funcionar, faltava só um empurrãozinho.
Mas ele não está com sorte, vejam que bela impressão: um círculo preto. Ele deve ter ferrado a copiadora e só faltava essa, agora que ele só sai dali amanhã, se a sorte ajudar.
Eu no lugar dele amassava a prova do crime rapidinho e triturava, mas ele não, parece calmo até demais ou cansado o suficiente para não dar bola para mais nada. Pega a estranha impressão e forra um pedaço lateral da máquina.
Mais uma olhada no relógio, mas uma golada de água quente, e agora creio que ele vai tentar retomar o trabalho. Mas o que é isso, cadê o copo, sumiu quando ele o colocou sobre o círculo preto. Essa seria a hora de parar tudo, dar meia volta e ir embora, escute o que eu digo, tenho experiência no assunto. Mas não nosso amigo, ele é curioso, precisa saber o que aconteceu.
Encosta primeiro um dedo no círculo e o afasta, parecendo ter levado um choque. Mas foi só reflexo, pois enfia a mão dentro do círculo agora sem receio e como um mágico tira não um coelho, mas o copo lá de dentro.
Agora também seria uma ótima hora para dar no pé, mas você já sabe que isso não vai acontecer. Então vou continuar narrando tudo que vejo.
Ele levanta a folha com o círculo no ar e lhe dá uma boa olhada, não há sombra de dúvidas que seja um papel comum. Mas ele enfia um braço no círculo e a mão não aparece do outro lado, como se fosse para outro lugar...
Espere, isso é coisa do, do, não posso falar o nome dele, vamos usar um sinônimo, sim, é coisa do mal, só pode ser. E como tal não se pode esperar que o final dessa história seja feliz, meu sétimo sentido está prevendo isso.
Mas esperem, creio que o nosso amigo encontrou uma utilidade para a folha mágica, mas o que será que ele está pensando? Não, não pode ser isso, pare com isso cara!
Ele se aproxima com a folha e a encosta numa máquina de guloseimas e faz o teste, que dá certo! Consegue atravessar a mão pelo vidro através do buraco e volta com uma barra de chocolate.
Não posso culpá-lo, o dia todo sem comer, mas isso se chama furto, meu filho.
Até concordo que fazer um plantão inteiro sem forrar o estômago é complicado, mas ele chegou ao fundo do poço se teve que apelar para tal atitude, por mais absurdo que seja o método utilizado.
Você concorda comigo que agora novamente é o momento fatídico para se brecar toda uma situação que pode ter conseqüências desastrosas. Mas creio que assim como eu você também está começando a prever o futuro do nosso amigo e não prevejo que ele seja dos melhores.
Falando nisso lá vai ele em direção ao escritório do seu amado chefe, imagino que ele vai aprontar alguma, mas nem faço idéia do que.
Para abrir a porta foi fácil, é daquelas que tem um dispositivo interno que libera a tranca, bastou colocar a folha com o círculo colada na porta, atravessar a mão pelo papel mágico e abri-la por dentro.
Creio que ele vai bagunçar a mesa do chefe, mas espere, ele passou direto por ela e veja só que interessante, tem um grande cofre no fundo da sala. Agora imagino em que trapalhada nosso amigo vai se meter.
Ele nem olha para os lados, sabe que está sozinho, sabe o que quer fazer e não reflete um segundo.
Uma esperança! Ele volta para a mesa do chefe, talvez tenha mudado de idéia, vai só fazer algum brincadeira sem graça e dar no pé, retornar à copiadora, terminar seu serviço, passar uma borracha nos últimos minutos.
Nada disso, somente encontra um rolo de fita do tipo Durex e volta correndo para o cofre. Cola desesperadamente a folha na parede de aço maciço e enfia um braço, quase que imediatamente o retirando com um maço de verdinhas, o qual ele admira por alguns milésimos de segundo, antes de voltar a enfiar o braço novamente e sair com outro maço, agora mais desesperado ainda.
É, ele está cavando um buraco sem fundo para ele mesmo, sabemos disso. O que? Você não sabe de nada, não está acreditando em nenhuma palavra do que eu disse, não é mesmo. Eu sabia que isso ia acontecer, mas para seu conhecimento eu não posso mentir, tenho um juramento sagrado que me impede.
Mas não pense você que eu não tenho provas, sou um ser moderno e sempre carrego comigo preso na cinta uma máquina fotográfica que também filma, maravilha de tempos modernos! E advinha só, filmei tudo, do começo ao fim, bom, quase isso!
Ainda não acredita, então olhe abaixo o registro que eu fiz, olhe e perceba o tamanho da burrada desse nosso amigo.








E aí, o que achou? Eu não falei que isso não ia acabar bem. Mas é fácil de explicar o que o motivou a não parar quando chegou ao terceiro ou quarto maço de notas fresquinhas: a ambição humana, sempre ela!
Quando ele colou a folha com o círculo negro, eu já suspeitava que ele quisesse ficar livre com as duas mãos para poder “trabalhar” mais facilmente. Agora entrar no cofre era algo que eu jamais suspeitava que o doido fosse fazer, não imaginei que existisse alguém tão pirado assim.
Acredito que você esteja se perguntando por que eu não interferi, sendo que acompanhei tudo que aconteceu. Também é fácil de explicar isso, pois estou preso ao juramento do livre arbítrio, ou seja, deixar que os homens tomem suas atitudes de acordo com as suas próprias decisões.
É claro que eu lhe mandei bons pensamentos, implorando que ele não fizesse aquilo, que largasse tudo e fosse embora, mas parece que nesse caso o mal falou mais alto, ou melhor, sussurrou mais forte em seu ouvido.
É, o negócio e ir embora, apesar das batidas que ele está dando nesse momento para tentar sair do cofre incomodar meu coração. Quem disse que a vida de anjo da guarda é fácil, também tem que fazer serão em sábados sem ganhar hora extra. Brincadeira!
Bom, vou indo, acabou de encerrar meu turno...
Brincadeira de novo, só vou buscar uma ajuda para salvar nosso amigo trapalhão. Quem sabe acordando o vigia que pegou no sono na frente da teve no refeitório.
Mas antes de ir embora, você deve estar imaginando como toda essa história terminou, porque infelizmente a bateria da minha filmadora acabou e não deu para registrar tudo.
Para resumir, consegui estimular o vigia para que fizesse uma ronda na empresa. Ele se deparou com o escritório vazio e a porta do chefe aberta. Já suspeitou de tentativa de furto ou algo do gênero, mas creio que a sua reciclagem estava um pouco atrasada, isso se ele fez algum bom curso na área de segurança, pois não chamou ninguém pelo rádio e foi invadindo a sala.
Ele ouviu o barulho do nosso amigo batendo dentro do cofre e rumou em sua direção. O que ele não viu foi o círculo preto no chão quando ele chegou na frente do cofre, e acabou indo parar dentro do aterro abaixo do prédio. Se ele saiu de lá, preciso perguntar para o seu anjo da guarda, depois eu lhe conto.
Quanto ao nosso amigo trapalhão, bom, não teve jeito, lá vem ele, chegando aqui no andar de cima.
O círculo preto? Assim como surgiu, desapareceu, só ficou uma folha branca jogada no chão. Até hoje os peritos não sabem como foi que o nosso amigo conseguiu entrar no cofre e se fechar lá dentro, o caso entrou para os crimes sem solução.
Mas eu creio que ele surgirá novamente em outro lugar, numa outra época, provavelmente para testar outra pessoa.

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Os cuidadores do mundo

Crônica ainda inédita escrita para a Olimpíada de Redação de Jundiaí.
JGCosta

Imagem DAQUI!



Nunca fiz nada pelo Meio Ambiente!
Não publicamente, pois você não vai ver nas manchetes dos jornais uma imagem minha postada ao lado de uma campanha referente ao tema.
Eu sei que muitos levantam a bandeira todo o santo dia sobre a preservação da vida na Terra, participam de passeatas, fazem parte do Greenpeace, arrecadam fundos e mundos, mas será mesmo que de fato eles fazem mais do que eu?
Para se responder essa questão é necessário que eu faça algumas conjecturas: O que é fazer algo pelo Meio Ambiente?
Essa resposta parece um tanto óbvia, mas não é!
Para mim é bem mais do que participar de campanhas exaustivas propagando a ideia de se salvar o planeta, tem que se dar o exemplo a cada ação executada diariamente: reservando o óleo usado, separando o lixo e colocando os recicláveis em pontos de coleta, usando transporte público ou indo a pé para o trabalho em alguns dias da semana ou participando de caronas solidárias, plantando e cuidando de árvores, evitando gasto com copinhos plásticos no trabalho ao usar um copo de vidro permanentemente, etc.
As propagandas e campanhas são muito bem vindas sim, principalmente para tentar sensibilizar os corações endurecidos dos ricos empresários mundiais e para demonstrar aos poderes públicos, que têm o dever de fiscalizar condutas ilegais, de que estamos atentos aos problemas relacionados ao Meio em que vivemos, mas fazer a nossa parte é o que de fato mudará a realidade do planeta, dando o exemplo principalmente para os nossos filhos é que criaremos uma geração de pessoas realmente comprometidas com o tema, que não tomam atitudes por obrigação e sim por um costume sadio adquirido, usufruindo todos de uma cultura sustentável, ecologicamente falando.
Outro aspecto que abordo é ainda mais simples: o planeta está doente, o remédio está na própria Mãe Natureza e nós somos os cuidadores!
Veja um exemplo para que compreenda o meu ponto de vista: um fumante faz um check up médico anualmente e constata que seu pulmão está a cada ano mais comprometido. Ele escuta atenciosamente todas as orientações do especialista, faz uso de todos os medicamentos indicados, mas o seu problema de saúde nunca tem uma evolução satisfatória.
Onde está o erro?
Está na aplicação correta do procedimento médico!
Então o especialista é um incompetente?
Não, é o paciente que deve chegar à conclusão que a aplicação correta do medicamento e da sua real eficácia está intimamente ligada ao ato de parar de fumar.
Nesse rápido exemplo vemos algo que acontece a todo o momento: alguém querendo que outra pessoa resolva um problema que é nosso.
Como somos os responsáveis por cuidar do planeta e o medicamento está correto, onde é que estamos falhando?
Novamente uma resposta óbvia: não estamos cuidando direito do Meio Ambiente ou simplesmente estamos delegando essa função para outro ser, apesar do problema ser de todos nós.
Sim! Querendo que o resto do mundo tome atitudes sensatas, que polua menos, que preserve a natureza, enquanto nós assistimos de camarote o esperado resultado.
Lamentável conclusão: ninguém faz melhor por nós do que nós mesmos!
Então o fim é inevitável?
Não! Ainda dá tempo de salvar o planeta!
Faça de suas tarefas diárias o melhor complemento para que o mais precioso medicamento entre em ação imediatamente, fazendo com que o equilíbrio necessário possa ser restaurado. Aproveite-se dos meios tecnológicos de comunicação para divulgar essas suas ações, coloque fotos, vídeos, se vista de árvore se for necessário para que alguém curta e compartilhe a sua ação, seja o exemplo em pessoa, plante a cada dia uma nova semente.
E se não for ao menos fazer por você, meu caro humano, FAÇA mesmo assim, FAÇA enquanto ainda não é tarde demais, FAÇA por aqueles que virão depois, FAÇA, pois é muito provável que entre aqueles que irão habitar o planeta no futuro se encontrarão os seus próprios descendentes.

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Quero Ser Grande

Em homenagem ao Dia das Crianças, uma poesia de 2012, que fiz após um diálogo com minha filha Nicole.
JGCosta

Nicolinha!



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Meu jeito de dizer que ti amo

Texto de 2010, para alguém muito especial!
JGCosta





Acordei as quatro da manha e saí silenciosamente da cama.
No dia anterior fomos dormir cedo, nada de briga entre as cobertas, disse estar embriagado de sono e praticamente a ignorei...
No fundo planejava algo diferente como sempre, para surpreendê-la no dia dos namorados, afinal enamorados estávamos há oito anos e uma linda filha coroava o nosso amor.
Por volta das seis horas retornei pé ante pé e me deitei novamente.
Estava de folga, era sábado, sabia que não voltaria a dormir, mas queria sair da cama depois dela e ir acompanhando as reações que a surpresa que lhe preparei causaria.
Isso aconteceu somente uma hora e meia depois. A vi despertar e fingi estar dormindo. Quando ela se levantou finalmente saí no seu encalço, como uma sombra atrasada...
Ao sair para a sala já parou extasiada olhando para o varal que agora cruzava o local, de uma ponta a outra na diagonal. Nesse varal existiam gravuras e fotos dependuradas e ela se dirigiu para aquela que continha a mensagem NOSSA HISTÓRIA COMEÇA AQUI!
Seguiram-se então fotografias de nossos melhores momentos, em ordem cronológica, fotos da nossa época de namoro, noivado, casamento! O primeiro lugar que chamamos de lar, nossos passeios, festas, a gravidez muito desejada, imagens que traziam saudade e despertavam alegrias que existiriam para sempre.
Entre as fotos havia textos que resumiam espaços de tempo que ficaram gravados em minha memória, escritos da forma que eu os via e que agora carinhosamente os reproduzia.
Quando ela terminou de seguir as imagens penduradas na sala, o varal improvisado a levou a passear pela cozinha, ainda nessa aventura de imagens e palavras escolhidas a dedo, passou pela lavanderia e finalmente terminou na sacada, onde deixei pronta uma bela mesa com champanhe no gelo. No centro coloquei cercado por rosas um presente em formato de coração, com letras douradas gravadas na caixa: PARA A DONA DO MEU CORAÇÃO!
Ela nem abriu o presente, somente o segurou apertado junto ao seu peito, como se segurasse de verdade o meu coração, agora gelado pela brisa da manhã e precisando urgentemente do seu calor. Lágrimas de alegria lavavam seus olhos, eu sei...
Virou-se, pois sabia que eu a seguia e sem dizer uma só palavra me deu um demorado beijo e depois sussurrou em meu ouvido:
-- Eu também lhe amo tanto...
Nem preciso dizer que a abracei e com uma manobra rápida a coloquei no colo e retornei para o quarto. Na porta nos aguardava nossa filha, que nunca tirava o sorriso do rosto. Sorrimos também antes de pularmos os três de volta na cama, para mais uma sessão de risadas...

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O VOO DO SONHADOR

Poesia ainda inédita com tema "Pássaros" escrita para o Chá Cultural da AEPTI - Associação de Escritores, Poetas, Pintores e Trovadores de Itatiba, do qual sou sócio-diretor.
JGCosta




O VOO DO SONHADOR


Acredita-se que em 400 a.C. na Grécia antiga
Archytas fez um pombo de madeira planar
Por 180 metros ele flutuou no horizonte
E assim o homem continuou a sonhar

Cem anos depois foi a vez dos chineses
Que colocaram uma bela pipa no ar
Flutuando no céu era algo lindo de ver
E assim o homem continuou a sonhar

Foi Da Vince apenas na idade média
Que um ornitóptero veio a projetar
 Imitava um pássaro no bater das asas
E assim o homem continuou a sonhar

Em Portugal João se lançou de uma torre
E por instantes no alto veio a pairar
Foi somente um voo e o fim o abraçou
E assim o homem continuou a sonhar

Bartolomeu de Gusmão nasceu no Brasil
E o seu antecessor chegou a honrar
No século XVII seu balão saiu do chão
E assim o homem continuou a sonhar

Swendeborg no mesmo século descreveu
Uma máquina voadora que podia o céu rasgar 
Mas os recursos da época eram limitados
E assim o homem continuou a sonhar

Os irmãos Montgolfier muitos anos depois
Um novo balão chegaram a inventar
Mais de oito quilômetros o voo alcançou
E assim o homem continuou a sonhar

Cruzou a França no século que se seguiu
Um dirigível pilotado por Henry Giffard
O seu coração era um motor a vapor
E assim o homem continuou a sonhar

Num planador no início do século XVIII
O inglês George Cayley conseguiu voar
Lilienthal, Pilcher e Chanute vieram depois
E assim o homem continuou a sonhar

No avião foram muitos os colaboradores
Wiliam Henson foi o primeiro a patentear
Percy Pilcher quase entrou para a história
E assim o homem continuou a sonhar

Se foi o inventor Alberto Santos Dumont
Ou Orville Wright o primeiro a pilotar
O fato é que tanto o homem sonhou
Que um dia do pássaro tomou o lugar

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Esquecido


Assim é o tempo, cruel, indômito, impiedoso mesmo!

Antes eu era um Adônis, pele lisa, postura altiva, supremo...

Hoje estou perdendo os pelos, músculos flácidos, com granjas de galináceos circundando meus olhos, meio torto, meio estranho, um inteiro dissabor...

Do que me resta nada me sobra, a não serem as sobras ou quem sabe a sombra onde dormito, excluso que fui das graças da beleza.

Não fiz história nem de mim farão versos, vou ter de me contentar com o anonimato.

Não fabricaram ainda uma máquina do tempo ou fonte da juventude que preste, assim para mim não existe regresso, somente lembranças de quando os holofotes buscavam minha fronte.

Só resta dizer adeus, melhor rabiscar, por não ter a quem o dizer, e deixar de recado no mural do mercado com uma foto anexa, de quando eu ainda era o máximo. Quem sabe alguém se compadeça e me leve uma tigela de leite morno, para acalmar a minha pancinha* que não para de roncar.


Miau!







* Barriguinha

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Sombras de um homem

Esse é um acróstico inédito e de presente ao Tubo pelos 2 anos de existência...
JGCosta

Clique na imagem para ver de onde ela veio.



Sinto-me hoje apenas um reflexo invisível
Outrora me via como um gigante invencível
Maravilha de criatura que iluminava locais breus
Babilonicamente esculpido para ser um semideus
Rude com as palavras que utilizava despreocupado
Altivo com as atitudes ao querer ser respeitado
Sobraram somente diáfanas sombras do que era eu

Desci do pedestal para tornar-me inexpressivo
Eis que fui vitimado por um rancor destrutivo

Ultrajante destino que o guerreiro mais abomina
Malicioso pesadelo encoberto pela vã neblina

Hoje sou somente uma insignificante lembrança
Ostentando que sou humano, não é mera semelhança
Maltratado pela paixão que consumiu minha energia
Esperando pelo fim que toda a minha alma libertaria
Minha sina foi escolhida pelo homem que a viveu

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Descobrindo-me

O texto abaixo foi uma participação num concurso de um site online em 2011, onde "interpretei" uma adolescente. Gostei!
JGCosta





Não sei se sou normal, algumas vezes acho que sou, em outras nem tanto.
Deve ser essa fase – longa demais – de adolescência que passo, pois segundo meus adoráveis pais – sim, eles de fato são maravilhosos, não estou sendo sarcástica – vivem me dizendo que quando eu chegar aos 18 compreenderei melhor tudo que eles pregam hoje e que para mim é tão difícil de seguir, afinal são regras sem fim existentes para todos os lados em que eu olho.
Para ser sincera, tudo isso me sufoca! Principalmente quando as regras tendem a versar sobre o amor – ah, proibido e delicioso amor, se ainda não o tivesse sentido aqui dentro de mim...
Às vezes, à noite, eu penso em fugir. Mas fugir para onde? Além do mais não é assim que eu espero me recordar dessa época e por mais que o desejo de desaparecer viva se materializando em minha mente, o carinho que tenho por meus pais é imenso e só de pensar em decepcioná-los uma tristeza muito grande me invade, maior até que o desejo de me tornar definitivamente independente.
Eles vivem repetindo que confiam em mim, que querem que eu me torne uma adulta responsável, mas na hora de me darem um pouco mais de liberdade, batem novamente as algemas. Como é então que vou aprender o que de fato é bom ou ruim, se aparentemente fazem tudo por mim?
E ainda por cima querem comandar até mesmo o meu coração! Será que daqui a um ano quando eu atingir a maioridade, como num passe de mágica vou passar a ver tudo de forma diferente, fazer as melhores escolhas, amar as pessoas certas, encarar meus desafios mais seriamente, tudo de um momento para o outro?
Como? Se ainda não sei quais sãos os melhores caminhos a seguir, se ainda não interagi livremente com as pessoas para poder formar opiniões, se ainda não me entreguei plenamente para o homem que eu amo?
Será que toda a teoria que estou aprendendo vai fazer alguma diferença na hora da prática ou será que, como as pessoas normais, vou acabar mesmo errando para aprender?
São muitas perguntas e poucas respostas, e é muita coisa para a minha cabeça.
Quer saber, creio que isso é mesmo o mal da adolescência, vem um milhão de novas informações e sensações, de uma só vez e desesperadamente queremos enfrentar e sentir tudo, na mesma velocidade em que essas novidades nos são apresentadas e isso é infinitamente impossível.
Acho que vou ouvir os meus pais e deixar que o tempo responda a todas as minhas dúvidas. Ao menos vou tentar...

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Só me ensinaram a amar

Eu mudo, tu mudas, ele muda?
JGCosta







Alguém pode...


Me maltratar
Me humilhar
Me ignorar
Me fazer chorar


Me repreender
Me desmerecer
Me enlouquecer
Me fazer sofrer


Me ferir
Me iludir
Me destruir
Me fazer partir


Me negar amor
Me ceder rancor
Me infringir dor
Me opor valor


... Mas não vai adiantar
Só me ensinaram a amar!

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Clara Luz

Conto fictício escrito em agosto último, para um concurso de Minas Gerais. Bem que eu queria que esse conto tivesse um final feliz...
JGCosta

Clique na imagem para ver de onde ela veio!


Clara Luz

Era uma vez uma menininha morena, com pele cor de jambo, que nasceu numa favela sem nunca conhecer o pai, já que nem sua mãe, mulher da vida, tinha certeza de quem ele era.
Essa menina era eu, essa menina ainda sou eu!
Nem sabia se eu tinha um nome, um registro no cartório, pois sempre fui chamada de neguinha pela minha mãe e pelos homens que a visitavam em nosso barraco estreito e mal cheiroso. Só descobri que me chamava Maria da Luz quando fui providenciar meus documentos pessoais, mas saiba, isso demorou muito tempo, contado no relógio do sofrimento.
A comida onde morávamos era escassa, então cresci seca feito um palito, nem sei como não sucumbi a alguma doença morando naquelas condições de falta de higiene e limpeza. Não tinha liberdade para ir a rua ver outras crianças e quando reclamei um dia sobre isso, levei um tapa tão forte no rosto que até fiquei zonza. Foi a primeira e última vez até hoje que eu me queixei de algo, simplesmente deixei a vida seguir seu rumo, até hoje...
Escola eu só fiquei sabendo que existia quando minha mãe morreu. Ela começou a emagrecer de um dia para o outro, já não mastigava nada, só fumava e bebia, não demorou muito para dizer adeus a esse mundo. Aceitei que aquilo era normal e não senti nada ao ver o pessoal do fundo social buscá-la. Nessa época eu também não sabia o que queria dizer mãe, para mim era só uma pessoa com quem eu convivi por dez anos por pura obrigação. Agora estava livre para viver na rua.
Segui os mesmos caminhos de quem me trouxe ao mundo, vivia de esmola ou pequenos furtos na feira que acontecia quase todos os dias pra lá do mangueirão. Quando meu corpo começou a se formar, um homem conhecido por Nego se apadrinhou de mim e me deu um cantinho, em troca de favores sexuais. Fui seguindo nessa vida, conheci as drogas aos 14 e fiquei grávida aos 17, de algum dos amigos do Nego, que viu em mim um bom negócio. Minha vida alucinada só parou quando dei entrada no hospital com uma barriga inchada que nem parecia carregar um ser lá dentro. Eu me alimentava mal, me cuidava pior ainda, se de dentro de mim saísse algo com vida, eu poderia acreditar que se tratava de um milagre, mas até essa palavra eu desconhecia naquela época, pois também nunca havia sido apresentada a Deus. É verdade! Mas Ele lá estava naquela noite em que eu berrava de pernas abertas naquele quarto branco de hospital.
Muitas horas depois de um enorme sofrimento, uma enfermeira risonha apareceu do meu lado com um montinho de pano no colo. Lá dentro se encontrava uma menina barulhenta e a enfermeira me informou que se tratava da minha filha que aguardava meu primeiro contato. Peguei aquele ser pequenino nos meus braços e ao olhá-la descobri que se tratava de uma branquelinha com olhos enormes e azulados. Fiquei ali um tempo olhando pra ela e ela pra mim, foi um momento muito bom. Senti algo diferente por dentro, me apertando a boca do estômago, algo que foi subindo por dentro, que passou por meu peito e chegou aos meus olhos. Aprendi a chorar.
A enfermeira quis saber o nome para colocar na pulseira da minha filha. Sem pensar respondi: ela se chamará Clara.
Depois desse maravilhoso acontecimento em minha vida, toda ela mudou. Fui para uma casa de abrigo para jovens mães solteiras, de onde passei a frequentar uma escola e a trabalhar no local, em troca de comida e um lugar para ficar. Descobri como era bom ser mãe, viver de ganhar e dar abraços, de beijos e de sorrisos, de repente eu vivia no paraíso.
Anos depois conheci o João, um homem muito bom que ensinou outro tipo de amor, mas a Clarinha foi a única contribuição que eu dei para o mundo, pelo menos do meu ventre, pois não podia mais engravidar. Adotamos um casalzinho de irmãos que tinha dois anos a menos que minha filha e tocamos nossa vida. No início eu fazia faxina para ajudar no orçamento, com o tempo mudei para serviços em lojas, depois indústrias, e finalmente após anos de estudo acabei parando, vejam vocês, numa instituição que cuidava de menores abandonados.
Nessa época eu trabalhava como Assistente Social e passei a retribuir para outras vidas tudo de bom que haviam feito pela minha.
Clarinha tinha 20 anos quando me deu de presente o primeiro neto, nessa época já trabalhava como enfermeira num hospital da região. Dois anos depois veio o segundo. É impossível demonstrar com palavras quantas alegrias esses novos seres me trouxeram. Minha Clara que já era linda, agora após se tornar mãe, parece que toda a beleza do mundo se concentrou nela.
Lembro-me bem na minha cabeça cansada, apesar de já fazer três anos, o dia mais triste que eu vivi. Imaginem vocês que a minha salvação para esse mundo foi quando me tornei mãe e descobri que o amor não era somente uma palavra pichada num muro de concreto, então me digam vocês o que eu posso ter sentido quando minha luz foi arrancada de mim.
Vocês todos aqui já sabem, mas eu vou repetir: era noite quando o bandido a seguiu, ela que tinha atravessado a noite no hospital e voltava caminhando para sua casa, que ficava a dois quarteirões de distância. O fulano a arrastou para um beco escuro, a estuprou em meio a arranhões e depois a matou por estrangulamento. Saiu dali como se nada tivesse acontecido, voltou para casa, tomou um café e foi trabalhar.
Longe dali acordei assustada de um pesadelo que não conseguia lembrar, com um aperto no coração que parecia até um infarto. Logo a dor passou, mas a notícia chegou como uma punhalada: minha Clarinha já não se encontrava entre nós.
Em algumas semanas a polícia fez muito bem o seu trabalho e prendeu provisoriamente o seu assassino. E hoje, tantos anos depois, eu lhe pergunto, Senhor Juiz, se uns poucos anos de cadeia irão fazer com que esse homem seja reintegrado à sociedade.
Ele tirou de mim toda a luz em forma de filha que eu ganhei do Bom Deus do Céu; ele tirou da família dela toda a alegria que ela irradiava; ele tirou do mundo o bem mais precioso e de imensurável valor: uma vida!
Digam-me então como é que esse homem poderá pagar o preço por algo que não pode ser valorado; convençam-me vocês que alguém que extrapolou por maldade todos os limites da razão e sem aparentar um mero remorso, busca recobrar a sua liberdade, a sua vida, tal qual aquela que ele ceifou com suas próprias mãos; digam-me vocês que castigo esse homem merece?
Pelas nossas frágeis leis logo ele estará livre, passeando na praça, quem sabe procurando outra vítima, mas para mim, meu caro Juiz e demais presentes, a prisão perpétua seria o melhor remédio para alguém que tem a coragem de realizar ações tão desumanas.
Imaginem vocês um tigre solto na selva, ele matará outros animais para se alimentar, essa é a sua natureza, e se for retirado do seu habitat comum, viverá a vida toda atrás de grades num zoológico. Por quê? Porque ele possui uma natureza animal.
Agora um homem, que pela sua sabedoria e inteligência deveria zelar pela vida das pessoas, faz justamente ao contrário, colocando um fim na vida de uma pessoa, de uma maneira bárbara, irracional, animalesca, esse ser eu lhes digo, tal o tigre, quando está fora de seu meio ambiente equilibrado, deverá ser mantido pelo resto da sua existência numa jaula, para que ele não possa ferir outros seres, para que ele, como foi no meu caso, não venha a ensinar outras pessoas a chorar de dor.
Meu bom Juiz dê o senhor a justa sentença, minha voz agora se cala, já me estendi demais, mas se daqui eu não sair com a certeza de que se fez justiça, pode acreditar que eu não me calarei jamais.

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