Habituada a cortar,
às vezes esquecia de quem era,
fingia não conhecer ninguém,
usava só o que lhe convinha.
De tão grande mal cabia na boca,
esticava-se, contorcia-se, mordia-se.
Traçava na calada da noite
seu prato predileto.
Voluptuosa oferecia-se de bandeja,
desejava ansiosas lambidas,
dessecava os mais capciosos líquidos,
de regalo ia da maçã à serpente num segundo.
Depositava-se nos lábios preparada,
no meio e cantos,
em todas as formas e bicos,
em todos os tons de vermelho.
Amputada nunca mais deleitou-se em prazeres.
Escrevia pra libertar a alma
que empoeirava na cama vazia.
Cris Campos
A Lingua...
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10 comments:
Ousado Osny, mas bem diferente, nunca tinha visto imagem de língua descrita desta forma.Gostei porque de tão libertina acabou numa cama empoeirada e vazia. Que língua danada!
Cris, confesso que me deu um "nervoso" olhar para esta figura bizarra. kkkk.
Conto intrigante. Viajei!
Amputada nunca mais deleitou-se em prazeres.
Escrevia pra libertar a alma
que empoeirava na cama vazia. Coitada!
Cris desculpe que coloquei Osny, juro que tinha lido ele como autor. Mas o comentário fica valendo o mesmo, bjs
triste fim para uma língua que tão bem vivia... há outras que não sabem dos cantos e reentrâncias e bicos, e ficam só a grasnar sobre a vida, alheia... essas mereciam à amputação... não a que ama, e faz gozar...
Obrigada a todos!Gr. Bj.!
p.s: Clau, tranquilo, o que vale são suas palavras, obrigada!
p.s2: Carlos, uauuuu! Gostei!
Olá amiga ! Adorei o seu blog, tudo muito bem apresentável e poético. Em relação a essa língua, que língua danada, pena que acabou de uma forma trágica.
Te convido a visitar meu humilde blog também de poesias.
http://gagopoetico.blogspot.com.br/
Grande abraço,
Dan.
Cris,
Amputada, talvez, mas não de palavras...
Como sempre, adorei!
Grande beijo!
=> Crazy 40 Blog
=> Pense fora da caixa
=> Tubo de Ensaio
=> MeNiNoSeMJuIz®
Cris, este conto está simplesmente delicioso e penso que não encontraria melhor foto para o ilustrar! O final então, está muito inteligente mesmo! Parabéns!
Isa Lisboa
=> Instantâneos a preto e branco
=> Os dias em que olho o Mundo
=> Tubo de ensaio
=> Pense fora da caixa
Entre o guizo e o veneno, prefiro a tinta do que a fala, na escritra sou cobra, literalmente. Bjos.
Gosto muito deste tipo de escrita. Com finais surpreendentes. Da forma que começou eu jamais imaginaria este fim... E confesso, como já deve ter percebido, tenho uma quedinha por poemas "pesados" hehe. Ficou muito bacana mesmo Cris! Parabéns minha amiga.
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